O Mito do Complexo das Armas

Os temas comuns nos artigos anteriores têm sido a enfadonha relação entre a liberdade e o conflito. Esta relação não é um defeito, mas uma característica que cabe a nós, como indivíduos e comunidade, gerir para que o poder não caia demais para um lado.

Um dos elefantes da sala da liberdade e da imaculada preservação desta é o armamento. A utopia Europeísta redescobriu que nem todos pensam da mesma forma e que para alguns a violência em larga escala permanece uma via legítima de exercer poder e influência.

Seja um passar de fronteiras ilegal, ou uma vaga de dick pics não solicitadas na caixa de mensagens, a vontade é sempre aquela de confrontar o invasor e dar-lhe uma lição de humildade. Mesmo sem armas de fogo, o ser humano sempre usou as suas mãos como ferramentas de violência. Na prática, exercê-la cara a cara contra o oponente não é fácil, nem recomendável habituarmo-nos demais. Além de coragem, quando corpo a corpo, o risco é maior para todos os envolvidos, e não se espera usar uma faca sem aceitar o risco de se cortar.

A introdução das armas de fogo veio satisfazer várias necessidades de redução de risco, mas também trouxe a sensação de poder e maior acessibilidade em empregar violência. Em guerras, cada arma satisfaz uma necessidade no terreno, e preenche lacunas numa força militar. A segurança é outra necessidade que só quem está confortável na vida, ou habituado a colher boas relações – “costas quentes” – não tende a valorizar ou pensar muito, e no seu pior cria uma ingenuidade maçuda e inocente, ou até mesmo manipulativa. Do outro lado está a paranoia, onde inimigos aparecem em toda a adversidade.

Grupos privados e governos negoceiam algures no meio deste espetro. “Se querem paz, preparem-se para a guerra”, dizia Vegetius nos seus textos militares há quase dois mil anos atrás. É a versão bélica da sabedoria popular que diz para meter a nossa em casa em ordem, antes de dedicar a vida aos outros. É um facto que segurança traz estabilidade.

Existem atores para manter a ordem, como polícia e exército, e atores para a desestabilizar, como gangues e senhores da guerra. Contudo, é só quando há tragédias locais ou guerras que nos afetam, que nos preocupa o mercado das armas. É verdade que o negócio enche bolsos e atores intermediários que ganham a sua fortuna no mercado negro, mas será que esse “complexo de armas”, que muitos pacifistas falam, realmente existe, ou está cheio de ilusões que desvendam mais a ingenuidade humana do que intenções exclusivamente maléficas?

Vulnerabilidades no Ocidente

A guerra russo-ucraniana trouxe ao de cima imensas fragilidades neste “complexo”. A quantidade de munições e sistemas de armas enviados pelos EUA par a Ucrânia tem sido pequeno em relação a todo o arsenal que está armazenado, e sua capacidade de produção. No entanto, o inventário está a chegar aos mínimos necessários para treino e possível conflito. Um estudo realizado pela CSIS encontrou que no caso de uma emergência onde fosse necessário repor os inventários, levaria anos a fazê-lo.

Um dos problemas está na base industrial de defesa ter uma produção orientada para tempos de paz. Países em paz, como Portugal, investem pouco, e noutros casos cada vez menos em defesa, porque não têm necessidades bélicas. O nosso país é dos vários países com material armazenado, mas não atualizado ou com falta de partes para manutenção, como o recente caso dos tanques Leopard.

A conversão de indústria civil para produção de guerra é teoricamente possível mas um processo longo. Nos primeiros meses, cerca de 10 mil milhões de dólares em equipamento foi fornecido à Ucrânia, mas só 1,2 mil milhões estavam contratados para reposição. E só os EUA e Reino Unido são responsáveis por dois terços do equipamento militar fornecido à Ucrânia.

Outro exemplo da disparidade de investimento está na diferença de números entre Portugal e Espanha. Segundo o Military Balance de 2022, Portugal pouco alterou no seu investimento, enquanto a Espanha aumentou até 3,9%. Mas existe contexto: a instabilidade regional e controle das vagas de imigração ilegal, incentivaram o Conselho Nacional de Segurança a melhorar a capacidade de gestão de crises domésticas e em África, no Sahel. Ainda assim, pouco é feito também porque raramente há debate público sobre o tema de defesa, algo que em Portugal só acontece quando há algum incidente onde a esquerda radical ataca as forças portuguesas, e a direita radical responde em defesa para manter os votos. A segurança nacional é ignorada.

As forças portuguesas, apesar de tudo, são respeitadas em missões estrangeiras pelas Nações Unidas e pela NATO. Mas é um segredo em aberto o estado do material nos armazéns militares portugueses. O recente donativo de Leopards à Ucrânia demonstrou parte dessa vulnerabilidade. Também só agora os países Europeus da NATO reconheceram a importância de alocar mais fundos para defesa.

Na prática, o tal “complexo militar” Europeu está estagnado e o recente fiasco do Afeganistão provou novamente que a guerra não dá lucro, exceto talvez para aqueles milionário que poucos sabem o nome, e mesmo esses são oportunistas, não propriamente “masterminds”.

Vulnerabilidades em África

Em África, o panorama é mais saliente. São forças Orientais, nomeadamente Rússia e China, que hoje mais aproveitam a instabilidade regional. EUA também, afinal de contas, gere conflitos não internacionais contra o Estado Islâmico em vários países africanos. Mas a promiscuidade das armas é muito mais sentida a nível local e regional, e incentiva oficiais locais a perpetuar conflitos ou desastres.

Segundo Jason K. Stearns para a Foreign Affairs, a Organização Mundial de Saúde, para proteger os seus membros, contrata forças de segurança congolesas e membros de milícias locais. Isto criou incentivos perversos: embora os combatentes tenham tido razões para não atacarem trabalhadores humanitários, também tinham interesse em prolongar a epidemia para continuar a lucrar.

Alguns membros do governo do Congo, Mali, Nigéria e Somáli procuram prolongar ou instigar conflitos, desde que não ameacem a sua posição, e grupos rebeldes continuam a desafiar os governos para extrair pagamentos e outras concessões.

O complexo das armas, por si só, não ganha tração sem tirar proveito dos problemas estruturais e sistémicos de uma sociedade. Estudos têm repetidamente concluído que, na prática, guerras não dão lucro, mas em vários países africanos e latino-americanos (no caso de cartéis) a guerra tornou-se uma ferramenta de negociação, ou até mesmo um força de governação. A ironia disto é que muitas vezes são instigadas por várias potências de outros continentes que formam parcerias com governos locais para lutar contra o terrorismo ou lidar com emigração.

Rússia e China empregam segurança privada, como a Wagner, para proteger oficiais de governo ou CEO, para mais tarde usarem a influência e mudarem regimes ou consolidar rotas comerciais. São a guarda Pretoriana do século XXI. Conquanto, não é um fenómeno de agora. Conflitos por procuração têm milénios, mas durante a Guerra Fria, os EUA, União Soviética e China, todos enviaram armas e dinheiro para os países do continente Africano, expandindo ideologias e fomentando conflitos. A África do Sul, ainda hoje, é casa de serviços de segurança privada em África e centro de feiras de tecnologia militar de ponta.

Por consequência, os conflitos são mais locais e menos ameaçadores para os governos, embora permaneçam altamente destrutivos, especialmente nas zonas rurais, totalmente infestadas e controladas por grupos armados. Os senhores da guerra são agora mais sofisticados, ou talvez menos ambiciosos que aqueles que outrora inspiravam Hollywood. São insurgentes islâmicos, oficiais do exército ou gangues organizados, procurando explorar recursos do estado, residentes locais, e oferecer oportunidades aos homens jovens. A ideia que o “fenómeno das armas” é um elemento tóxico dos homens ocidentais é uma falácia. Os jovens africanos abraçam ou são forçados para atividades armadas, porque também existe uma cultura de sobrevivência, dignidade e violência que permite competir e mostrar virilidade com auxílio de grupos armados.

Isto não significa que existe uma enorme conspiração onde experientes jogadores de Wall Street planeiam altos esquemas para se encherem de dinheiro. A violência é simplesmente sistémica, e a máquina tem o seu próprio momentum. Líderes africanos temem golpes de estado, logo compram segurança; soldados colocados na guerra, inclusive aqueles na Ucrânia, notam muitas oportunidades para pilhar e extorquir. Soldados russos roubam máquinas de lavar roupa, e aceitam subornos para deixar passar civis em pontos de controlo; soldados estes que na sua maioria veem de zonas depressivas da Federação Russa; ocidentais querem oferecer o seu conhecimento e talento às forças ucranianas, mas também há aqueles que estão na legião estrangeira para conhecerem ucranianas “predispostas a receberem heróis”, como disse um voluntário britânico.

Nem tudo foi mau. Apesar dos vícios sistémicos e da caixa de pandora que é o instinto humano, após a Guerra Fria, a introdução do sistema multipartidário trouxe benefícios, inclusive a democracia, a grande parte dos países africanos. Uma boa parte de insurgentes e senhores da guerra escolheram o campo de batalha da política em vez das armas, participando em eleições. Privatização económica impulsionou a inovação e competição retirando os países de algumas armadilhas que ativavam o ciclo de violência, e abrindo portas ao surgimento de uma nova classe média.

O eventual foco em África quando se aborda o ‘complexo das armas’ deve-se por ser o continente onde existe mais investimento estrangeiro, que indiretamente financia a violência. Este investimento nem é nas próprias armas: é em segurança, construção e subornos a oficiais. Elites na Somália e Sudão do Sul usam processos de paz para extrair rendas de doadores internacionais. Na América-Latina a relação entre política, governos locais e gangues está perversamente à luz do dia.

O Complexo Civil

Por fim, empresas que produziam armas, munições e veículos de guerra durante a Segunda Guerra Mundial e Guerra Fria, vendo-se em tempos de paz e sob liderança de instituições internacionais, tiveram de adaptar-se a um mercado mais virado para o entretenimento, educação e ciência. As empresas que não faliram são hoje fabricantes de carros elétricos e aviões, ou foram compradas e mudaram completamente para o fabrico de componentes.

A invasão da Ucrânia pela Rússia veio aquecer as forjas, mas o material a ser usado já existe há décadas e a produção não está preparada para atender milhares de pedidos, alguns cujo material já nem é fabricado. A invasão chegou numa era preparada para crises muito menores. De um lado da bancada há quem acuse a venda de armas como imoral e sem benefício. Do outro lado olham apenas como mais um produto a vender. O facto é que a abordagem da venda de armas mudou definitivamente após a queda da União Soviética, e as consequentes mudanças na seguranças global.

O ponto que quero fazer é que o comércio das armas não é hoje o monstro que já foi e Hollywood nos levou a crer, e as evidências estão lá. Mesmo a situação endémica das armas nos EUA é melhor entendida em ambas as suas origens e possíveis remédios. Armas e extremismo nos EUA são apenas facetas de um problema maior, como o narcisismo de jovens homens que se vingam nos outros pelas suas falhas.

A transparência e o tato com que estes assuntos passam nos jornais, são uma forma dos eleitores avaliarem a importância e valor moral das armas, e tomarem posições de consciência. Este mercado nunca vai deixar de existir, mas haverá formas criativas de reduzir o seu impacto no ser humano abordando os seus contornos.

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