Aconteceu, nesta madrugada de dia 12 para 13 de março, a celebração do cinema e de Hollywood na cerimónia com maior prestígio a nível mundial, os Oscars.
Vou fazer uma breve análise aos resultados e explicar porque acho que existiu uma maior homogenia nos vencedores.
O grande tema da noite:
Redenção
Qualquer pessoa que diga que o melhor momento da noite não foi o discurso de Ke Huy Quan ao receber o prémio de Melhor Ator Secundário está a enganar-se a ela própria. O ator que ganhou fama na sua infância no filme The Goonies fez um dos melhores discursos de sempre na cerimónia, não foi um discurso com palavras caras, foi um discurso de coração, dirigido também aos seus pais e sobre como nunca devemos desistir dos sonhos.
Embora este cliché de “nunca desistas” tenha sido já repetido vezes sem conta, a verdade é que neste ano isso ficou ainda mais firmado, visto que os 4 atores que venceram as categorias de representação foram estreantes a vencer o prémio depois de décadas de carreira, alguns deles tendo desaparecido do mapa.
Entre eles o “esquecido” que se tornou “querido” de Hollywood, Brendan Fraser, famoso por filmes como A Múmia, que passou por imensos obstáculos na sua vida pessoal depois de ter preenchido a infância de muitos espectadores.
O ator subiu ao palco também em lágrimas, e foi um dos melhores momentos da cerimónia.
É isso que adoro nos Óscares, a forma como aquele prémio define e “crava” muitas vezes o nome de alguns atores na história do cinema e fico muito contente que Brendan o tenha conseguido, este ano tinha que ser dele.
Os grandes vencedores da noite:
Everything Everywhere All At Once e All Quiet On The Western Front
Embora fosse já previsto que Everything Everywhere All At Once vencesse os prémios mais cobiçados, não esperava que ganhasse 7 prémios dos 11 aos que estava a concorrer. O filme é muito bom, na minha opinião, mas acho que venceu (também) como uma celebração ao cinema asiático. Assim como aconteceu nos últimos anos em que venceram filmes que eram ou estrangeiros ou que tratavam de algum tipo de incapacidade. Acho que é este o caminho adotado pela Academia recentemente, em que por vezes a inclusão acaba por ser um fator mais importante que a qualidade do filme. Tendo dito isto o filme é, como disse, uma obra de imensa qualidade e o prémio não fica de todo mal entregue.
Uma surpresa para alguns foi o filme alemão All Quiet On The Western Front, mas penso que só foi surpresa para quem não viu este enorme filme que a nível técnico foi sem dúvida um dos melhores do ano. O filme venceu nas categorias de “Melhor Filme Estrangeiro”; “Melhor Fotografia”; “Melhor Banda Sonora” e “Melhor Design de Produção” e foi o segundo filme com mais galardões da noite.
Os grandes “perdedores” da noite:
The Banshees Of Inesherin, The Fabelmans, Elvis e Angela Basset
Quando existem grandes vencedores, normalmente força a que exista o reverso da moeda. Neste caso sem dúvida que The Banshees Of Inesherin que não levou nenhum dos 11 prémios para os quais estava nomeado foi o grande perdedor. E digo isto com mágoa, pois foi um dos meus filmes favoritos do ano e acho que na categoria de “Melhor Guião Original” tinha mesmo que ganhar, mas foi derrotado (como em grandes partes das categorias) para Everything Everywhere All At Once e acho que foi aqui que entraram alguns fatores externos que não tiveram só a ver com a qualidade do filme.
Este é o claro caso de ser quase o melhor em todas. Se olharmos, por exemplo, para um filme como The Whale, que foi nomeada apenas para 3 categorias, mas venceu 2 delas, porque eram os grandes destaques do filme, percebemos que, embora o filme de Martin McDonagh seja enorme como um todo, foi considerado “second best” em quase todas as categorias.
Elvis, por sua vez, foi nomeado para 8 estatuetas, não tendo também levado nenhuma para casa. Acho que a Academia se saturou um pouco destas “biografias” de cantores famosos, depois de filmes como Bohemian Rhapsody e Rocketman. A grande esperança deste filme seria nas duas categorias que The Whale acabou por levar: “Melhor Ator” e “Melhor Maquiagem”.
Steven Spielberg acabou por não ver a sua biografia também reconhecida depois de 7 nomeações para The Fabelmans.
Por fim creio que Angela Bassett acabou por ser a maior perdedora individual da noite. Para além de ter sido a única categoria que de facto surpreendeu no seu resultado, a própria atriz não escondeu esta insatisfação, numa reação que já se tornou viral. Acho que ninguém tem que ser falso, mas quando estamos a reagir a um prémio desta envergadura, temos que pensar que estamos também a ofuscar o momento que é de outra pessoa e, como atores que são, este é o melhor momento para usar do seu “talento”.
Notas suplementares:
Abrimos com um monólogo de Jimmy Kimmel que voltou a apresentar a cerimónia depois daquela trágica e épica conclusão da troca de envelopes há alguns anos atrás e soube brincar com elegância com a situação chocante que aconteceu na semana passada relembrando com ironia: “Se cometerem algum ato de violência, existe uma forte probabilidade que levem o Óscar de Melhor Ator.” E também: “Se virem algum ato de violência, façam o que fizeram no ano passado… nada”.
Adorei a atuação de Lady Gaga, que claramente quis trazer algum realismo a todo aquele “glamour” e sempre com uma voz impressionante.
Fiquei triste de ver Babylon a sair sem prémio nenhum, embora não acha que tenha merecido qualquer prémio. Damien Chazelle teve um esforço e ambição descomunal que acabaram por não “compensar”.
Por outro lado, fiquei muito contente de ver Top Gun: Maverick a levar a sua estatueta por “Melhor Som”, apesar de acreditar que, se não existisse um certo filme alemão, teria “limpo” as categorias técnicas.
Foi mais um ano de muitos filmes, bons filmes e uma cerimónia muito competente e muito bem conduzida sem nenhum momento chocante mas com as peripécias virais habituais que fazem parte da melhor cerimónia de cinema do ano.
