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Contos

O homem que se escondeu da memória

Esperei dois cigarros até que, finalmente, uma silhueta feminina caminhou na minha direcção. Chegara atrasada, passavam vinte e cinco minutos da hora combinada. Svetlana não sabia que iríamos morrer, ali, naquela noite. Ela de uma forma, eu de outra.

Foi com enorme surpresa e, reconheço, alguma apreensão, que, dois dias antes, recebera na minha secretária um envelope contendo aquilo que, não duvidei, seria uma mensagem dela. Numa folha, escrita com letras recortadas de revistas e jornais, uma frase bastante familiar: “quando abrimos a janela centenas de pássaros voaram e nós ficámos sem terra”. Por baixo, uma data e uma hora. Aquela frase, a frase que encerra aquele que descobríramos, em conversas sobre literatura, ser o nosso livro de eleição, “O ano em que o mundo caiu”, do escritor polaco Levy Dawidowicz – um livro que relata a história de um artista plástico em aparente ascensão, que se apaixona de forma inesperada pela mulher do seu melhor amigo (um multimilionário americano que conhecera numa exposição de arte e que patrocina, a partir daí, as suas obras) e que tenta reprimir os sentimentos. Torna-se, mais tarde, um alcoólico sem-abrigo, acabando os seus dias entregue a uma depressão causada pelo conflito interno relacionado com a falta de reconhecimento na arte e no amor e cuja funesta cena final é passada em cima da ponte de Brooklyn – fez-me ter a certeza. A certeza de que se tratava de Svetlana e a certeza do local do encontro. Algumas certezas para demasiadas dúvidas. Porque se lembrara de mim, tantos anos depois? Porquê tanto secretismo? Porquê uma mensagem que só eu poderia entender e descodificar? A minha cabeça fervilhava de interrogações. Nada disto me fazia sentido, não conseguia perceber se o encontro era meramente pessoal e se aquela mensagem estaria a testar o meu ainda suposto interesse por ela ou se, por outro lado, havia um qualquer assunto de cariz confidencial e que me pudesse interessar enquanto jornalista. Durante os dois dias que precederam o encontro a concentração fugiu-me, o sono ausentou-se e o apetite não apareceu. A expectativa a sufocar-me o corpo.

Curiosamente, nos últimos tempos, e por um simples interesse profissional, eu fora acompanhando as notícias sobre os escândalos que abalavam o grupo de empresas do seu marido, que davam conta de desfalques, fuga aos impostos e crimes relacionados com violência na noite e tráfico de droga, envolvendo também alguns políticos em negócios mal contados. Aproveitando alguns contactos antigos, procurei saber, de forma algo discreta, informações sobre Svetlana durante os dois dias a seguir à mensagem. Segundo os testemunhos que recolhi, teria uma doença terminal. Nunca poderei confirmar essa informação, pois a emboscada a que ela fora sujeita naquela noite revelara-se fatal. Apenas posso testemunhar que continuava elegante e bonita, a pequena sarda na boca, no lábio superior, permanecia encantadora, os grandes olhos claros já não brilhavam como antigamente, embora continuassem expressivos. Lembro-me que trazia o cabelo mais curto, o que lhe conferia um semblante mais jovial.

Não a via há alguns anos. Assaltaram-me inúmeras memórias. Sobretudo, as duas vezes em que lhe senti a pele. Uma delas, a primeira, na escada do Park Avenue Building, em Nova Iorque, um edifício sombrio que escondia negócios também eles pouco claros. Enquanto subíamos para os escritórios, entre o segundo e o terceiro piso, puxei-a para mim. Juntámos os lábios ao de leve, senti-lhe a respiração ofegante. O pescoço cheirava a desejo. Deslizei as mãos até aos mamilos retesados, percorri os dedos na pele eriçada. Desci, levantei-lhe a saia e mergulhei a boca no húmido desconhecido. Fechou os olhos, inclinou a cabeça para trás e agarrou-me os cabelos. Pressenti-lhe os espasmos enquanto a língua lhe percorria o clitóris, os gemidos em surdina, a excitação a crescer, o controle perdido há muito. Sem me deter, encostei-a à parede, de costas para mim, e entrei-lhe na carne. Uma e outra vez.

Fora um acto de impulso e desejo súbito, uma das maiores loucuras da minha vida, que viria a ter uma sequela e um epílogo na semana seguinte, no seu gabinete. Nunca conversámos sobre o assunto. Sucedeu e acabou com igual vertigem. Ela, casada com um poderoso empresário russo, tinha a seu cargo a assessoria de imprensa do grupo de empresas, eu, um jovem recém-formado jornalista a estagiar na New York Magazine e encarregue de fazer uma reportagem sobre o sucesso empresarial do seu marido.

No pouco tempo que privámos, em reuniões de trabalho, percebi que Svetlana era uma mulher extremamente culta, que levava a sua profissão bastante a sério, mas algo reservada em relação à sua vida pessoal. Numa de muitas conversas sobre a reportagem que eu estava a fazer, deixara escapar que, durante algum tempo, alimentara o sonho de ser bailarina – notei alterações na sua expressão enquanto o contava, como se a vida lhe tivesse fechado as portas – mas não elucidou o percurso que a levara ali. Não questionei, limitei-me a ouvir, embora tivesse vontade de descobrir mais sobre esse capítulo da sua vida, como conhecera uma personagem tão nebulosa como o seu marido, porque casara com ele, qual o motivo dos seus sonhos adiados, que razões a prendiam ali. Era uma mulher interessante de todos os pontos de vista. Tinha voz de fado e um olhar penetrante. Revelou-me, entre risos, que se chamava Svetlana porque o pai, professor de literatura, era admirador confesso de Svetlana Alexievich, uma jornalista e escritora bielorrussa. Os livros foram, imediatamente, um ponto em comum.

Às 21h do dia combinado entrei pelo acesso pedonal da ponte de Brooklyn, em direcção ao banco solitário, de madeira e ferro, iluminado pelos vários candeeiros de pé, onde a narrativa do best-seller de Levy Dawidowicz tem o seu desfecho. A noite mostrava-se serena. Tendo por companhia apenas o rio East, sentei-me e aguardei. A passada nervosa, as mãos tremiam-lhe. Senti-a perturbada, ansiosa. Compreendam que o que se passou a seguir é-me tremendamente difícil de descrever. Svetlana não falou. Não teve tempo. Numa noite fria de Setembro, Svetlana foi roubada à vida, silenciada de modo cruel, cobarde. Com a precisão de um sniper, todas as perguntas e todas as respostas se abateram. À minha frente, um corpo inerte prostrado sobre a mancha do horror. Gelei, imóvel. Nos segundos seguintes aguardei que a minha vez também chegasse, mas não chegou; que a minha cabeça também se desfizesse, mas não desfez.

Não contara ainda esta memória a ninguém, por isso acredito que tudo o que aqui vos descrevi ficará entre nós. Não duvido de que assim seja, confio na vossa lealdade. Pressinto que algumas das pessoas que cuidam de mim diariamente não darão muito crédito às minhas palavras. Não guardo nenhum sentimento em relação a isso, somos aquilo que recordamos. O enfermeiro Barros, com quem criei uma amizade, afiançava, por exemplo, que eu lhe contava histórias diferentes todos os dias, que as ouvia milhares de vezes e que a cada manhã eu surgia com uma nova versão. Barros era um homem de meia-idade, solteiro por vontade própria, com excessiva gordura abdominal e umas bochechas sempre rosadas. Carregava o peso da personalidade altruísta. Quando estávamos na companhia de outras pessoas, fazia questão de enumerar as muitas vezes que eu falava de Marie, curiosamente, quando estávamos a sós, pedia-me para falar dela. Parecia ser o único verdadeiramente interessado nessa minha recordação. Acreditava nesse amor, partilhava o meu sofrimento, penso. Confesso-vos que, há uns dias, voltei a lembrar-me dela. Sim, ainda penso nela de vez em quando.

Marie. Decerto, não se chamaria Julianne (é curiosa a necessidade que temos de apelidar pessoas e coisas, não acham?). As Juliannes têm sempre cabelo escorrido e franja, sem grande personalidade. As Maries, não. Têm cabelo de Marie. E ela tinha cabelo de Marie, semi-encaracolado, que chegava a meio das costas, terminando em bico. Sinto a sua falta à minha janela. É possível que alguns questionem a veracidade da sua existência; outros acrescentarão que não se pode amar alguém a quem nunca sentimos o cheiro. A todos digo que estão tremendamente errados. Eu senti. E, se eu senti, é porque ela existiu realmente.

Naquela altura tinha muito pouca coisa na minha vida e durante 10 meses fomos a companhia um do outro. Comecei a avistá-la pouco depois de me terem mudado de quarto. Apesar de ser na mesma ala, a janela não permitia uma vista tão desafogada como esta. Daqui, consegue ver-se o pequeno curso de água e a imponente ficus macrophylla (sabem, aquelas árvores com raízes muito grandes?). Se fechar os olhos consigo descrever-vos de forma fidedigna toda a paisagem que é possível avistar daqui. Mas talvez não vos mace com isso. Dir-vos-ei apenas que é deslumbrante.

É um quarto mais pequeno, mas com mais luz. A cama é desmesuradamente mais confortável. As insónias acalmaram talvez por isso. Gosto de pensar que a razão é essa. A justificação foi-me dada sem que eu tivesse questionado a mudança: aqui iria estar mais tranquilo e longe dos doentes com sintomas mais avançados. Antes de vir para cá, faz amanhã precisamente dois anos, tinha uma ideia distinta do que aqui encontrei. No fundo, vivemos estados mentais descoincidentes das outras pessoas. Talvez tenhamos a capacidade de ver a realidade de uma outra forma. E isso não é fatalmente ruim. Quem nos garante que a nossa verdade seja a errada? A verdade é uma espécie de sombra da mentira. Como se identifica cada uma delas? Como se distinguem os contornos ilusórios da realidade?

Marie não teria mais de 35 anos. A aparência assim o decretava. Chegava sempre à mesma hora, depois do expediente, calculo. Pela pontualidade diria que era empregada de escritório ou teria alguma profissão de horários pouco voláteis. Sentava-se na raiz da árvore, de costas para a minha janela, puxava do livro e ficava ali até que o sol decidisse partir. Antes disso, deixava que o melro-preto a cortejasse. Como retribuição, alimentava-o com o que trazia num saco que guardava dentro de uma mochila. Recordo a candura com que o fazia, mas recordo essencialmente as histórias que fui partilhando com ela. Uma das vantagens de partilharmos assuntos privados com alguém que, efectivamente, não nos está a ouvir é o facto de não sermos julgados. E isso é reconfortante, de certa forma. Marie tornara-se na minha grande companheira e confidente. Partilhei intimidades, segredos, partilhei silêncios e fragilidades. Eu contava, ela não julgava. Pude desabafar, pude chorar, pude rir.

De súbito, os dias secaram – não no sentido literal do termo, mas na perspectiva sentimental -, tornaram-se inúteis, carecidos de interesse. Quase asseguro que para o melro-preto de bico alaranjado também. Tal como eu, o pássaro teimava em voltar todos os dias à hora habitual. No meu caso, limitava-me a ficar junto aos pequenos oito vidros que compõem a janela; no caso dele, permanecia em cima da raiz e esperava pelo que já não existia: que ela fechasse o livro e o alimentasse como era costume. A impaciência com que se movimentava era, por vezes, constrangedora. Eu conseguia adivinhar-lhe a angústia, a dor da ausência. Invejava-lhe a coragem, sobremaneira. Nunca permitiu que a privação, a sensação de vacuidade o intimidasse. Antes de começarmos a esquecer, temos de recordar, li algures. Talvez fosse isso que o fazia regressar, o luto da perda. Chegou o dia em que também ele não voltou. Restei apenas eu, entregue à minha memória, na verdade, a minha única testemunha.

Certa manhã, depois de voltarmos a recordar Marie, o enfermeiro Barros mostrou um semblante circunspecto que eu nunca tinha presenciado. Recolheu o copo com água, a caixa com a medicação e fez-me a pergunta mais ilusória de todas: conta-me quem és tu. Como vieste aqui parar?

Tens essa curiosidade?

Tenho.

Não posso garantir, mas julgo que tenha sido mais ou menos assim…

Manuel Jorge

Gosta de massa de peixe, do Benfica e de livros. Não forçosamente por esta ordem. Descobriu a escrita apenas aos 38 anos, mas ainda assim bem a tempo de conseguir desprestigiar esta arte. Acha, também por isso, que tudo lhe surge demasiado tarde e que nada na sua vida é precoce, tirando a ejaculação.

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