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Contos

A Carta

No dia em que fiz trinta anos, o futuro e a morte decidiram contactar-me.

Eram quase onze horas da manhã quando o mensageiro da desgraça me entregou a missiva onde eu próprio era o remetente e o destinatário. A tragédia entrou sem ser chamada, a esbracejar e antes de eu estar preparado para a receber, apesar de a ter enviado. A princípio, julguei tratar-se de uma brincadeira, mas a caligrafia era a minha, a assinatura também. O tumulto cresceu, o estômago contraiu, o vómito a querer saltar. Sentei-me, e com os olhos rasos de água, voltei a ler. Reli. Tornei a ler. As mãos suavam, o coração em taquicardia.

As palavras, projécteis a rasgar a alma, eram estilhaços nos olhos:

Nowhere, 9 de Maio de 2033

Quando estiveres a ler esta carta, a 9 de Maio de 2003, faltarão alguns minutos para as onze horas da manhã, hora a que o teu pai morrerá.

James T. Beckett

Corri para o telefone e marquei o número. Do outro lado da linha – e do oceano também – a voz do meu pai, Parabéns, filho, espero que tenhas um dia feliz. Perguntei se aquela carta era uma brincadeira sua, disse-me que não. Gerou-se um silêncio. Desliguei.

O sofá, coçado, amparou-me durante alguns minutos. Digo minutos, mas acho que foi o tempo de uma vida eterna. Quando a hora chegou, o toque do telefone fez-me sobressaltar. Reconheci o número e, talvez por não ter coragem, deixei que tocasse. O corpo ficou imóvel, chorei compulsivamente. Sentia a dor física da perda. Imaginei que a vida não fosse mais do que uma espécie de doente terminal e apenas aguardava a hora, a ordem para partir. Sem que se atendesse à sua vontade. Os momentos, os anos, os minutos, as sensações e os sorrisos seriam apenas uma forma de deixar correr o tempo até que tudo cessasse. Assim, de forma cruel. Ou, vendo de uma outra forma, da forma menos dolorosa, a vida é uma ironia de contornos perversamente humorísticos.

No ano seguinte, aceitei aquele destino cruel e a minha vida pôde, finalmente, seguir. Embora preso às memórias, às palavras nunca ditas, aos sentimentos reprimidos, o tempo sombrio foi dando lugar à luz. Nesse período, e apenas para mascarar a solidão, decidi conhecer várias mulheres. Serviram unicamente para preencher espaços vazios da minha existência e nenhuma delas fora especialmente importante. Desde que ficara viúvo, há vários anos, nunca me permitira olhar para mulher alguma.

Certa vez, uma das minhas vizinhas – não vos direi qual, pois gostaria de a manter no anonimato – convidou-me para jantar. O marido estava emigrado em África e ela carecia de atenção. Julgo que era esse o motivo. Não era uma mulher bonita, pelo contrário, mas, talvez porque isso me parecera sexo fácil, decidi aceitar. Tinha um buço a crescer para bigode e um cabelo pouco cuidado, as rugas da meia-idade à mostra. Cheirava sempre a pipocas com mel, o que, não sendo o mais entusiasmante, era um odor agradável.

Quando a conheci, já tinha muitas vidas dentro de uma vida. Se tivesse de a descrever numa palavra, diria que ela era uma enorme mentira. Sim, eu sei que utilizei duas palavras, ao contrário do que me tinha proposto fazer, mas permitam-me esse devaneio. Talvez o acertado seja isso mesmo: ela mentia para a vida. Parecia encarnar várias personalidades, da mesma forma e eficácia com que uma actriz interpreta várias personagens. Costumava falar com a arrogância de uma diva e com a entoação de uma qualquer artista de teatro com argumento duvidoso, os braços tinham os tiques da representação.

Bom, mas isso foi na época das trevas.

A terra rodou o suficiente para permitir que a luz começasse a entrar pelas janelas. O domingo nascera alegre, Stg. Pepper’s Lonely Hearts Club Band – o melhor conjunto de músicas alguma vez editado – a rodar sob a agulha, hipnotizava o ambiente. Era o dia de Agosto em que a minha filha celebrava trinta anos. Eu preparava-me para o reencontro quando, por volta das onze horas, o telefone tocou. Com voz de quem estaria a rir segundos antes, perguntou-me se a carta que acabara de receber era uma brincadeira minha. Perdi a força nas pernas e respondi que não.

Gerou-se um silêncio. Desliguei.

Manuel Jorge

Gosta de massa de peixe, do Benfica e de livros. Não forçosamente por esta ordem. Descobriu a escrita apenas aos 38 anos, mas ainda assim bem a tempo de conseguir desprestigiar esta arte. Acha, também por isso, que tudo lhe surge demasiado tarde e que nada na sua vida é precoce, tirando a ejaculação.

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