O dinheiro vai. As memórias ficam.

Quem nunca assistiu a pais desesperados aos berros em locais públicos, perante a birra dos filhos? Provavelmente todos já assistimos a isso e, talvez alguns já protagonizaram cenas dessas. Ninguém é perfeito, nem é de perfeição que falarei.

Sou mãe de três miúdas com idades compreendidas entre 11 meses e 9 anos.

Estou quase há uma década a aprender o que é educar um filho — neste caso três.

Vieram sem «manual de instruções». É um facto transversal a todos nós. O que funciona para um não resulta nos outros. Personalidades diferentes exigem métodos diferentes para respeitar essa individualidade.

O método da palmada pedagógica é utilizado com alguma frequência, principalmente quando estamos com os nervos à flor das mãos, mas as consequências são desastrosas. Fazê-lo em público acompanhado com insultos tem um efeito imediato — a criança deixa de fazer a birra porque tem os olhos dos curiosos colados à cena. Será a solução? Para os pais, sem dúvida. Para a criança, o processo é outro. Vai, pouco a pouco, acumular todos os momentos de agressão (física e/ou psicológica) vividos, moldar a sua personalidade e, mais tarde, repetir as atitudes que os progenitores tiveram consigo.

Uma palmada pedagógica tem duas mensagens distintas:

«Pais — tens de fazer o que digo, quem manda sou eu.»

«Criança — é assim que se dominam seres mais fracos.»

Crescem e desenvolvem alterações de personalidade, condutas agressivas, ansiedade e a autoestima é reduzida.

É provável que surja o típico «antigamente é que era», mas a «ignorância» não dava para mais.

Ninguém se preocupava com o desenvolvimento da personalidade dos filhos. Ao primeiro acto de rebeldia, as costas recebiam a visita do cinto ou pau de marmeleiro e os insultos acompanhavam a folga das costas. Por vezes, marcavam mais dos que os vergões na pele.

Todos levámos as nossas palmadas e a maioria não tem transtornos de personalidade. No entanto, quando lembramos determinados episódios não é saudade que sentimos, mesmo que possamos compreender (nem sempre) os motivos por detrás das atitudes.

Há outras formas de corrigir e educar, sem diminuir as crianças nem deixar marcas negativas.

Podemos tentar ensinar com amor, mesmo que a vontade seja espumar de raiva com a birra que os miúdos fazem.

Para evitar vergonhas, temos os pais que permitem tudo. Cedem à birra, sem tentar perceber os verdadeiros motivos que geraram a crise.

A maioria não conhece os filhos que tem. Porquê? Porque o trabalho absorve-lhes parte do dia e as poucas horas, que estão com os filhos, não são suficientes para saber o que precisam. Sabem mais as educadoras, amas ou empregadas domésticas, do que os progenitores. E, os filhos pouco conhecem dos pais.

Nesta trapalhada toda vêm apenas para a foto de família (in)feliz.

É urgente conhecer, ouvir e ter tempo. Tempo é o que falta a uma sociedade cada vez mais focada no estatuto.

Criar um ser humano capaz e feliz é trabalhoso, mas vale a pena.

Crescem demasiado rápido e o que fica na memória são os momentos.

No futuro não agradecem as contas recheadas, mas cobram o tempo que não tiveram para eles.

O dinheiro vai. As memórias ficam.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico
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