O Cúmulo do Exagero

Se pararmos um pouco e nos determos nos acontecimentos destes últimos dias, não só em Portugal como um pouco por todo o mundo, vamos observar um padrão de exagero e vivência intensa de situações que, aparentemente, deveriam ser vividas de forma quase inversa.

Pessoas assassinadas por verdadeiras futilidades, uma celebração de suposta alegria transforma-se num rol de violência, detenções, roubos e exageros, levando depois a um julgamento na opinião pública de tudo, sem se conhecer nada, porque nos habituámos a falar de tudo, sem saber de nada, são apenas dois pequenos exemplos.

Vivemos hoje num cúmulo do exagero, exacerbando tudo a um extremo. Não é de hoje, é certo, mas hoje já não existem razões para tal acontecer. Somos todos Charlie, somos todos Benfica e somos todos qualquer coisa, sem saber sequer quem verdadeiramente somos. Vivemos o sofrimento duma derrota desportiva, choramos e revoltamo-nos, até fazemos filas à volta de um estádio para poder eleger o próximo dirigente. Temos os dedos em fogo para comentar nas redes sociais notícias das quais apenas lemos os títulos, mas quando somos confrontados com a escolha dos caminhos da nossa vida, da nossa própria vida, afastamo-nos dessa responsabilidade, pomos de parte tal coisa e, quando algo acontece, a culpa é dos outros, é do governo, é da crise, é deste ou do outro.

Este é o reflexo de uma sociedade sem identidade, que se revolta com uma cena de uma série de televisão, mas que não tem força e determinação para tomar atitudes na sua própria vida, aceitar as suas consequências e lutar verdadeiramente pela sua felicidade. A falta de identidade, mas também a falta de vontade de ter identidade, porque é mais fácil ficarmos presos na amálgama ou seguirmos o rebanho, leva a que não nos conheçamos a nós mesmos e, dessa forma, não saibamos sequer qual o nosso papel no meio disto tudo.

Digo muitas vezes, a várias pessoas, para andarem na rua com olhos de ver, observarem as pessoas que andam de um lado para o outro, como verdadeiros zombies sociais, pois, quando vivemos dessa forma, criamos um vazio interior que, em situações de grande movimentação emocional de massas, como uma manifestação ou um jogo de futebol, é preenchida muito rapidamente e direccionada duma forma profundamente negativa, levando ao exagero e ao ridículo.

Deitámos fora a partilha, a celebração, e passámos apenas a viver a competição. “Eu tenho de ser melhor que o outro”, ou “eu tenho de vencer o outro”, são apenas os primeiros passos para o “tu não vales nada, porque há alguém melhor que tu”, ou o “eu vou-te humilhar”, que começamos a viver cada vez mais cedo nas nossas vidas. Observemos os miúdos, observemos os pais, observemos a sociedade, tudo se rege pela competição, que implica uma tábua rasa e o esquecer da individualidade, das emoções e das paixões, implicando, por isso, a simples, mas muito nefasta, anulação de cada um de nós mesmos.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Força.

Next Post

Do (perigoso) isolamento da Grécia

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Rosa Parks

Um gesto que mudou um sistema. Pode ser uma frase que lhe assenta que nem uma luva. Assim foi o que Rosa fez,…

Evolução das Espécies

Todos os homens que não conseguem ver com os olhos de uma mulher são tolos. E eu, durante todos aqueles anos em…