O Terceiro Homem

Desde a adolescência que o filme aguardava por uma visualização na lista dos obrigatórios.

Conheci-o nas largas horas passadas em frente ao PC, quando me deleitava com Cinemania97, o CD-ROM que fazia as vezes da Internet, quando ainda não estava ligado à rede e as enciclopédias expeliam os últimos vapores. O CD foi comprado numa livraria do CascaiShopping hoje extinta (algures onde se situa a Bertrand) com o dinheiro das mesadas.

O Terceiro Homem é um dos filmes (negros) mais importantes da história do Cinema, passado (e filmado) em Viena do pós-guerra, quando Holly Martins, um escritor, chega à cidade para se encontrar com o amigo Harry Lime, ficando a saber que aparentemente ele morreu em circunstâncias misteriosas.

Movido pela curiosidade, Martins inicia uma busca pela verdade sobre Lime, e o resultado é este filme, o mais importante da carreira de (Sir) Carol Reed, apesar de não ter sido com esta obra (foi com Oliver!) que recebeu o óscar. Uma Viena obscura, que da caneta de Graham Greene dança ao som dos acordes de Anton Karas, num jazz misterioso que Greene pinta num argumento que mal subiu a romance, é, também ela, a cidade, uma personagem desta história.

Joseph Cotten, talvez o melhor actor do cinema clássico americano que nunca recebeu um óscar, pese a prolífica colaboração com os grandes nomes da sétima arte, da qual resultaram tantas e tão boas obras (O Mundo a Seus Pés, Mentira, O Quarto Mandamento ou Meia Luz, para citar alguns), tem neste filme um dos seus papéis mais marcantes, mas é Orson Welles, e a sua mítica aparição (e desaparição) no filme, o homem em torno de quem a trama orbita, apesar da sua invisibilidade omnisciente.

Welles foi, na tela e fora dela, uma presença bigger than life, cuja conduta se foi equilibrando entre a loucura, a genialidade e a controvérsia, sem medo de arriscar, derrubando barreiras, coleccionando inimigos e partindo corações, incompreendido e mal-amado, reconhecido apesar do incómodo que trouxe a pares e poderosos.

Quando o Leroy me perguntou que filme eu gostaria de receber como presente de aniversário (Vinte e nove? Trinta anos?), elenquei três obras: a par d’O Terceiro Homem, nomeei Breve Encontro e um outro que não recordo, deixando ao seu critério a escolha da oferta. Se bem o conheço, apostava um tomate no critério que comandou a sua opção, e independentemente de ele – o critério – ser mais ou menos nobre, a short list não dava abertura para comprometer a qualidade do meu presente.

Devo dizer que foi um prazer assistir a este filme em DVD, como o foi ver o documentário que vinha acoplado, onde um ou dois elementos da equipa técnica, julgo que o assistente de realização e não sei se o director de Fotografia ou de Montagem, descreviam as opções tomadas nas filmagens, os efeitos, as sombras, sons, e tudo o que um filme negro transporta até nós, espectadores, sem faltar a dama, Alida Valli no caso.

Falta-me ver este filme no grande ecrã (na Cinemateca, no Nimas ou em algum ciclo temático), pois esta é daquelas obras que ganha outra vida numa sala de projecção, dando também um gozo enorme a um amante de cinema que gosta de aprender, com os filmes, a essência e o sabor de outras épocas, sem a aridez arenosa de um historiador ou o exagero carregado de marcas temporais das obras evocativas.

Viena de 1949 é aqui, com O Terceiro Homem. Foi um dos filmes do qual guardei o dvd (e só o fiz para uns quinze).

Pelo que me toca, agradeço ao Leroy, a Graham Greene, a Carol Reed e a Orson Welles. Por esta ordem, onde talvez os últimos cheguem a primeiros, ou invertendo o ciclo, com os artistas no pódio e o facilitador que me abriu as portas desta obra-prima, o meu amigo Leroy, cá em baixo, junto a mim, que é onde os amigos devem estar.

Don’t be so gloomy. After all, it’s not that awful. Like the fella says, in Italy for 30 years under the Borgias they had warfare, terror, murder, and bloodshed, but they produced Michelangelo, Leonardo da Vinci, and the Renaissance. In Switzerland they had brotherly love – they had 500 years of democracy and peace, and what did that produce? The cuckoo clock. So long, Holly.

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