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Sociedade

Não vamos todos ficar bem, pois não?

Estranhos tempos estes que vivemos. São épocas de ansiedade, dificuldades, revolta, ira, choro, isolamento e dor. Se há um ano atrás a expressão de ordem era “Vamos todos ficar bem”, no ingénuo pressuposto que estes atípicos dias descobririam em todos nós – em alguns com escavações dignas de registo arqueológico- o que de melhor temos, hoje podemos já concluir, empiricamente, que a realidade resolveu comportar-se de forma divergente, que é como quem diz, se não estamos iguais, estamos piores.

Vem isto a propósito das modificações ocorridas no ano escolar. Dado o crescimento astronómico dos números de infectados, hospitalizados e mortos, o governo decretou 15 dias de férias em casa. Férias, repito. Sem aulas on-line ou actividades programadas com prazos de entrega. Os miúdos (boys will be boys…) ficaram contentes. Agora, sem poder sair, sem aulas e sem trabalhos escolares, estavam criadas as condições para a dedicação em pleno aos jogos eletrónicos, nas consolas ou telemóveis. Já para os pais, a decisão foi controversa. Alguns deles sem opção de teletrabalho, tiveram que arranjar formas criativas para conseguirem tomar conta dos menores de 12 anos, recorrendo ao layoff. Outros, em teletrabalho, viram-se de repente acompanhados em casa, com necessidade de providenciar refeições. Mas, como sempre, nada nem ninguém é passível de agradar a todos, pelo que rapidamente se levantaram vozes de crítica: porque não começaram de imediato as aulas on-line? Nunca se é suficientemente bom…

Mais uma vez, é difícil  agradar a gregos e a troianos. O que considero ultrajante é o facto de se exigir de imediato o início das aulas, sem que se veja um pouco além do próprio umbigo. Quero dizer com isto, que se avança com uma crítica, sem a avaliação cabal das condições, em termos de recursos, tecnológicos (computadores e net) mas também pessoais (organização das famílias e dos professores). Dito de outra forma, faz-me lembrar aquela anedota do menino rico sobre uma família pobre: o pai era pobre, a mãe era pobre, os filhos eram pobres, o motorista era pobre, a cozinheira era pobre, a governanta era pobre. Ou seja, umbilicalismo aplicado: a minha realidade é a realidade de todos.

Esta visão míope é reveladora duma incapacidade de apreender o mundo sem ser pela sua própria matriz. Talvez a segregação social contribua para isso. De forma não exactamente planeada, mas fruto das circunstâncias, salvo raríssimas situações, acabamos por nos dar mais intimamente com pessoas com vidas/capacidades idênticas, fruto da escolarização, trabalho, zona de residência, enfim, em condições análogas. Mas isso não deveria resultar numa cegueira parcial para aqueles que vivem em condições mais carentes. Pelo contrário, o facto de se ser privilegiado, porque se tem uma vida regular,  deveria ser motivo de sensibilização para com aqueles que têm menos recursos.

Coincidentemente, tomei conhecimento que os pais das crianças que frequentam colégios privados, foram os primeiros a reivindicar as aulas on-line. O que não deixa de fazer sentido, dado que pagam mensalidade e à partida, são famílias com um maior conforto económico, e portanto dispondo das tecnologias necessárias à execução das mesmas.

Para quem tem condições de garantir ao filho(s) um computador, um local sossegado para o estudo, as coisas são relativamente simples, é uma questão de ligeira adaptação.

Contudo e quem não tem computador, ou não tem um por filho? Quem vive numa casa diminuta onde espaços comuns têm que ser partilhados em trabalho / escola, com sons alheios agindo como distrações, ruído de fundo e necessidades diversas? E a capacidade da net, é funcional com adultos e crianças a usa-la dias inteiros em simultâneo? E é aqui que é necessário perceber que, para o bem e para o mal, nem toda a gente tem as condições que cada um de nós tem. Uns terão melhores, e isso não constitui sequer um problema, outros, e aí sim, é um problema, não terão sequer as condições mínimas.

Por isso, neste caso mas na verdade em qualquer outro caso, em qualquer outro assunto, às vezes é necessário  sair de nós, e exercer a empatia, que não é mais do que ter a capacidade de se identificar com o outro, que é necessariamente diferente de nós. Algo que se poderia comparar  a uma visão panorâmica, plural e vasta, longe da limitada e parcial vista microscópica.

Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.

Carl Rogers

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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