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ContosCultura

Miguel

O despertador tinha tocado, mas ele continuava agarrado à almofada como se tivesse acabado de se deitar. Por muito que aquele objeto continuasse a fazer barulho, era-lhe totalmente indiferente. Talvez por isso chegasse quase todos os dias atrasado. Era assim sempre, sem emenda. Por mais que tentasse, voltava tudo ao mesmo. Era uma batalha perdida!

Já o barulho ia alto e ecoante, ferindo os ouvidos de quem ouvia do outro lado, quando, finalmente, abriu os olhos e viu as horas. Era tarde, talvez não tão tarde como pensava, mas não deixava de o ser. Levantou-se sem pressas, olhou em redor e começou a sua sessão de ioga.

Tudo era efetuado sem pressas, com várias respirações profundas, ritmadas, de maneira a oxigenar todo o organismo. O ioga era uma terapia milenar de purificação e relaxamento. Talvez fosse esse a razão de ele ser uma pessoa tão solta, tão de bem com tudo. Teria encontrado o seu equilíbrio?

O banho era a recompensa do esforço, o troféu conquistado com o suor do seu corpo. Aquela água morna, pouco, sabia-lhe muito bem nas costas, na barriga e, sobretudo, no rosto, que o afagava e estimulava. Também aí não havia limite e ficava o tempo que entendesse. O tempo sempre a seu favor.

A roupa pouco ou nada variava, apesar de ter muitas opções. Contudo a neutralidade marcava-lhe o estilo e imperava. Nada lhe podia ou devia ser apontado e, por isso, os cinzentos e os pretos dominavam a sua indumentária clássica. Tinha de ser visto pela pessoa e não pelo invólucro, o que era tão vulgar acontecer.

Comer era algo impensável naquela casa. Havia de tudo para que tal fosse possível, mas o tempo escorregava tão rapidamente e ia deixando um rasto de imensidão. Quando fazia compras tinha a preocupação da comida saudável e era assim que a comprava. Depois é que se tornava complicado cumprir o objetivo.

Muitas das vezes o frigorífico até se entristecia com tanto desperdício, ia morrendo lentamente o sustento e a esperança de que tudo iria mudar. O comer existia, sim, mas era fora de casa e sempre que necessário. Não tinha sítio certo e era sempre com tempo contado, Tempo. Sempre o tempo que ele ignorava e de que fugia.

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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