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A dor não mente

Dormia mal. Sobrevivia, dia após dia, sem energia e só. Doía-me o corpo. Mergulhava em lágrimas sem saber porquê. A angústia e o vazio alimentavam-me.

Sentia um eco contínuo e sombrio, como se todo o meu passado se concentrasse num aperto. Ligava-me a tudo o que pudesse minimizar aquela dor, desvinculando-me de mim.

O meu único interesse era terminar com o meu desespero, ansiando que me dessem o que quer que fosse que acabasse com o meu sofrimento.

Pressenti em mim um sussurrar para lá do tormento no qual me encontrava. Em fugazes instantes, cada vez maiores, fui ouvindo aquela voz, que se veio a revelar uma expressão tímida de necessidades profundas. Foi neste momento que decidi pedir apoio.

Criei espaço em mim, concedi-me tempo, para escutar o que sentia. Parei diante de mim a ouvir o meu corpo, a minha história, o meu sentir mais profundo. Entrei assim num verdadeiro processo de redenção, revivendo memórias da minha infância no meu próprio corpo.

Comecei a sentir um medo reprimido. Sentia-me em perigo, profundamente triste, debaixo das rédeas de um ambiente nocivo. Apercebia-me que em criança precisara de proteção, carinho e atenção, e sentira abandono, negação, agressão. Talvez, por isso, o que sentia não era apenas medo, mas também raiva da privação, subjugação, que nunca expressei. Tanto assim que, ao longo da minha infância, acabei por interiorizar que merecia aquele tratamento, aquele desprezo.

Percebia agora que aqueles tinham sido para mim momentos muito difíceis. Por isso, optara então por encobrir a minha dor, procurando a salvação noutros sentimentos, pensamentos, comportamentos. Tomei consciência de que com o passar dos anos, paulatinamente, estas opções conduziram-me a um estado depressivo. Na realidade, tudo me servira para negar as experiências de desamparo que se foram cristalizando e tornando cada vez mais emergentes no modo como aprendera a percecionar e a vivenciar as coisas de um modo negativo.

Mais tarde, alguém me perguntou: ‘Como conseguiste ultrapassar aquele estado depressivo?’ No fundo, passei a olhar menos para o que me protegia da dor e mais para a própria ferida, cuidando dela. De tal modo que, um dia, a ferida sarou e a dor passou.

Para me curar, tive que retomar aquelas memórias passadas que permaneciam vivas. Pois sem saber sentia-me incapaz, em risco constante, merecidamente sem amor. Não ter sentido suporte, proteção, compreensão, reforçara-se numa espiral negativa. Para negar a dor, deixei de a sentir e entrei num ciclo depressivo, ao qual me adaptei para sobreviver e gerir os meus dias.

Passo a passo, foquei-me, não nesse processo depressivo, mas sim nas áreas da minha vida que não fossem saudáveis para mim nem para os outros. Porventura, no passado, alguns pensamentos e comportamentos ter-me-iam ajudado, mas, agora, eram motivo de perturbação. Por isso, promovi uma atitude de aceitação, transformando essas respostas de evitamento dolorosas, e outras desreguladas, em respostas saudáveis, por meio do suporte, da compreensão e do significado.

À medida que saía do abismo onde chegara, era cada vez mais claro que muitos dos meus sentimentos, pensamentos e comportamentos prejudiciais tinham encoberto necessidades vitais, as quais precisavam de ser vividas e validadas. Dei voz a essas necessidades, expressando as minhas emoções mais profundas.

Foi assim que, com o apoio de quem me acompanhava, ao aceder ao cerne da minha dor, aquela que tinha evitado no passado, progressivamente, ultrapassei aquela fase tão difícil. Passei a investir no respeito, bondade e atenção para comigo. Perdoei quem pudesse ter contribuído para o meu sentimento de desamparo, na forma de injustiça, de maltrato, ou de não suporte. Vinculei-me ao que sentia verdadeiramente. Partilhei a minha tristeza. Expressei a minha raiva de um modo assertivo e sereno.

Perdoei-me.

Com amor, fui satisfazendo as minhas necessidades essenciais de dignidade, amor e sentido. Assim aumentei a confiança e a capacidade de regular e expressar emoções, incluindo a dor que antes evitara. Na verdade, ao longo de toda a minha história, tinha tido um comportamento heróico, de muita coragem, sem nunca ter desistido de mim nem de praticar o bem.

Consolidei a minha identidade e reforcei os meus relacionamentos. Valorizei as minhas imensas e maravilhosas capacidades e oportunidades.

Mais do que nunca, sinto-me uma pessoa saudável, capaz de assumir as melhores decisões perante as realidades concretas da minha vida.

Enfim, tornei-me livre para ser melhor para mim e em benefício de todos.

Na verdade, ao longo de toda a minha história, tinha tido um comportamento heróico, de muita coragem, sem nunca ter desistido de mim nem de praticar o bem.

Bernardo Corrêa d'Almeida

Sou o Bernardo Corrêa d’Almeida e exerço a profissão de psicólogo. Tenho uma grande paixão pelo que faço e isso traduz-se em presença, cuidado, dedicação às pessoas com quem trabalho. Também sou professor, escritor e curioso em aprender!

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