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Maravilhoso barulho meu

Antigamente, fazia-me impressão ver pessoas a andar na rua, de auscultadores postos nos ouvidos. Afinal de contas, o mais certo era o som da música, da rádio ou dos podcasts anular o som da estrada. Os sinais a avisarem a passagem de um carro ou do metro ficavam diminuídos e isso acartava perigos. Mas eventualmente juntei-me à legião de ouvidos tapados, confirmei tudo isto e descobri todas as outras vantagens que lhe são inerentes.

Enquanto passava a maioria dos dias da semana na vila, bastava-me ouvir o som dos pássaros a cantar ou a música do vento a bater nas folhas das árvores. E ficava logo entretida, nos percursos a pé. Quando a vida passou a acontecer na cidade, os barulhos multiplicaram-se. Mas pareciam todos desagradáveis. De pássaros a cantar nem sinais havia. Os motores barulhentos sobrepunham-se a tudo o resto. Por vezes, as sirenes das ambulâncias cortavam aquela orquestra de tubos de escape, adensando a existência de demasiados estímulos que, por sua vez, só acentuavam o stress.

A estratégia para passar ao lado de tudo isto foi começar a empunhar auscultadores, claro está. Ouvindo aquilo que escolho ouvir, anulo-me do contexto da cidade. E cobardemente já não tenho de lidar com pedidos de moedinhas para “comprar o bilhete do metro”. As conversas que ouço são em podcast e não os gritos matinais de mães que mandam os filhos andar mais depressa. Os trajectos diários fazem-se mais rápido e são mais interessantes.

O único problema no meio de tudo isto é ter de me controlar para não rir estridentemente na rua, enquanto ouço o “Tubo de Ensaio” do Bruno Nogueira, o “Extremamente Desagradável” da Joana Marques ou o “Portugalex” do Manuel Marques e do António Machado. Mas isso é um detalhe com o qual lido muito bem.

Estar imersa neste mundo ajuda-me ainda a estar a par das discussões do momento e a encontrar novos motivos de conversa, a partir dos insólitos d’ “O Homem que mordeu o cão”. Por outro lado, para alguém que se habitou a ouvir rádio durante a manhã e que agora sai de casa antes de os seus programas favoritos passarem em antena, o mundo dos podcasts é uma excelente forma de recuperar tudo o que perdeu em directo.

Os barulhos dos carros, das mães a gritar, dos passos corridos para mandar parar autocarros estão todos lá, à minha volta. O som das sirenes continua a estragar tudo. Os apitos dos carros no trânsito continuam a ser desesperantes. Às vezes, até tenho de aumentar o volume dos auscultadores para níveis não recomendáveis. Contudo, ainda assim, o barulho que escolhi ouvir ameniza tudo o resto.

É quando volto à vila, uma vez por outra, que me recordo que não tem de ser sempre assim: com poluição sonora a cada porta. E na vila, entre pássaros e árvores, prescindo bem dos auscultadores. Os sons da natureza são de sobremaneira melhores para o espírito.

Florbela Caetano

Ligar o rádio é a primeira coisa que faço ao acordar. E isso já diz muito sobre uma jovem adulta, no século XXI. Como se este desajustamento não bastasse, gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Trabalho no primeiro. Procuro formas de me manter ligada ao segundo.

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