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A minha caneta escreve melhor que a tua

Provavelmente, este titulo adequar-se-ia na década anterior, mas, hoje, parece-me algo desadequado, se bem que uma continua metáfora. Na verdade, estes dias implicam que “o meu computador escreve melhor que o teu”, mais do que qualquer outro instrumento manual. Alias, pelo rumo que a evolução toma, escrever num computador, juntando-se letra com letra, será a tarefa para os nossos primogénitos no 1º ano da sua escolinha, deixando-se para trás a confusão do papel e do lápis e borracha! Enfim, o futuro é algo que, inevitavelmente, fará o passado parecer demasiado atrasadinho. Mas será que vamos assistir verdadeiramente a uma mudança?

No meu interior, quero mesmo acreditar que algumas coisas vão mudar e, sobretudo, que vamos assistir a um desvio no padrão da educação (que consiste, na minha opinião, num mero formatar de mentes, como explico aqui!). No entanto, a questão que me absorve mais em pensamentos baseia-se no paradigma rico & pobre.

Felizmente, a educação é um dos sectores que já chega, mais facilmente, a todos os jovens em Portugal e em quase todos os Estados de Direito, baseados no solidariedade. No entanto, a verdade é que a educação de um miúdo pobre continua a não dar tantos frutos como num miúdo rico. Imaginemos a seguinte história:

O Eddie é um rapaz com 6 anos que nasceu no seio de uma familia baseada em amor, mas que foi atingida duramente pela crise. Neste momento, os seus pais suportam-se no rendimento social de inserção para poderem comprar-lhe uns lápis e umas canetas, do mais barato claro!

A Ivone, por seu turno, também prestes a entrar no primeiro ano escolar, vive com a sua avó abastada bem no centro de Lisboa, ao lado do colégio particular para onde vai estudar. Além do melhor material escolar, a sua familia conseguiu que ficasse colocada na turma formada pelas crianças mais “desenvolvidas” para a sua idade.

Chega o dia 15 de Setembro. Momentos diferentes, mas repletos da mesma curiosidade, excitação e ansiedade para as duas crianças. O Eddie levanta-se ás 6h da manhã, tomando apenas um copo de leite e um pão com manteiga como pequeno-almoço, preparando-se para apanhar o primeiro de três autocarros que o separa da sua escola, no interior do Alentejo. Já a Ivone desce para o pequeno-almoço, no seu impecável uniforme, ás 8:00 preparando-se para a nova aventura que se iniciará, apenas, a 5 minutos da sua porta de casa! Enquanto os doces caracóis da Ivone saltitam pela rua rumo ao seu destino, a inocente camisola do Eddie já está um pouco encharcada quando este, finalmente, com um sorrido maravilhado se vê defronte da escola publica que o irá acompanhar nos próximos anos!”.

Infelizmente, duas realidades ligeiramente diferentes. Podem parecer não ter qualquer impacto além de uma beleza visual e estética, certo? Afinal, todos nós sabemos que famílias mais abastadas vivem em condições mais apetecíveis que as famílias mais empobrecidas, certo? Pois, mas aqui vem o “senão” na nossa história.

Apesar de estarem os dois a aprender a ler e escrever, como seria de esperar, a preparação da nossa entusiasta Ivone será sempre melhor que o do nosso pobre Eddie. Enquanto este está atrás de uma secretária, junto a mais de 25 alunos a que um único professor precisa de dar atenção, a Ivone está a aprender segundo um método de ensino que tem em conta as suas necessidades especiais e falhas naturais dispondo, para isso, não só de um, mas vários professores para as diferentes disciplinas que esta tem. Alem disso, ao fim do dia, enquanto o nosso rapaz volta nos inúmeros autocarros até sua casa, chegando ao anoitecer, a nossa menina está a ter aulas particulares de piano e, logo a seguir, conta com o auxílio da avó, uma pessoa letrada e culta, que a ajuda e incentiva na resolução dos trabalhos de casa. Trabalhos estes que mais parecem uma enorme confusão de novas ideias e cenários que os pais do Eddie nunca ouviram falar e que, mesmo com o maior do amor e paciência com o seu filho que se inicia nesta aventura de letras e números, não desejam conhecer depois de um dia árduo de trabalho.

No fundo, por mais que dêmos ao Eddie uma caneta igualzinha à da Ivone, a caneta dela escreverá sempre melhor que a dele. Ela teve mais oportunidades, simplesmente, pelo facto de nascer no contexto económico certo e, assim, se manter ao longo da sua jovem formação. O Eddie? Bem, para recuperar o avanço inato dela, terá de dar vários pulos com a ajuda do seu triplo esforço e ambição. Mas, como muitos que por aí passaram lhe dirão, ele é apenas e só “mais um pobre coitado desta vida”!

 A mais dura das verdades neste “presente que já não é como no passado!” continua a ser, para mim, tão evidente e cruel como em tempos fora. Pior, é que se, nos velhos tempos que já lá vão, poderíamos distinguir estas realidades nas categorias de “letrados” e “iletrados”, hoje, já não há caixa onde se metam. Na minha opinião, que vale o que vale, isto só encaixa no velho dilema que te mencionei no início. Duro e cruel? Sim, sem dúvida. Mas qual o pior facto? Esta história ser verídica ou tu continuares a nega-la nos teus discursos, como a maioria dos políticos?

Raquel Soares

Aluna de Direito na Universidade Do Minho com uma paixão por livros, filosofia, psicologia e o mundo. Não procuro um mundo melhor, mas esforço-me para construí-lo! Sou activista da Amnistia Internacional em Portugal e participante em projectos que visam a dinamização e a efectivação dos Direitos Humanos. Membro da Associação Universitária de debates nacional e colaboradora da ELSA UMinho.

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