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ContosCultura

Luz Nenhuma

Quando o sino da velha capela batia as cinco da manhã, Lídia já estava a pé. Nunca se demorava em minudências: assim que acordava, esvaziava rapidamente a bexiga para o penico que guardava debaixo da cama e ajoelhava-se, as mãos unidas no gesto dos que acreditam, os olhos fechados para insuflar a prece. Salva-nos hoje, por favor, salva-nos hoje. Todos os dias a prece idêntica, sinal de que a da véspera não surtira efeito. O Salvador tinha mais fama que proveito.

Dormia sempre agarrada à irmã, acolhia-lhe o corpo franzino e doente para que a dor fosse mais suportável. Adormecia embalada pelo gemido fraco que durava a noite inteira, como uma ladainha muito antiga. A irmã morria devagar. Lídia morreria no seu lugar, se pudesse. Via o lento desfiar dos dias e a irmã a desfazer-se neles. No seu peito, como uma chaga, doía-lhe a certeza de que a irmã sabia que, para si, tudo acabaria em breve. Havia nos olhos dela a mágoa e a névoa de saber que o seu futuro tinha o fim demasiado perto. 

Quando acordava, Lídia soltava o seu abraço e só se mexia depois de a irmã voltar à respiração fininha, sinal de que ainda dormia. Deixava-a sozinha e voltava passados uns minutos, com o máximo que conseguisse arranjar para as duas. Já perdera a conta aos dias em que não comera nada, em que ficava apenas sentada na beira da cama, a ver a irmã debicar o que tivesse conseguido trazer. Fora daquele quarto, o mundo era uma gárgula que tentava engoli-las vivas todos os dias. 

Aquela casa eram elas e a mãe de quem não sabiam nada por dias a fio.  Depois aparecia e gritava, gritava muito, possuída por todas as vozes do mundo, como se a sua garganta guardasse todos os sons. A irmã chorava, o corpo esquelético soltava-se em espasmos, a pele quase transparente de tão fina e doente, o sangue que mal circulava e ela tremia. Lídia cerrava os dentes, impotente, refém daquela morte iminente que a matava também a ela, por não poder impedi-la. 

Um dia, Lídia acordou com o corpo da irmã ainda mais frio encostado ao seu. A sua respiração trémula arrastava-se e travava, voltava e sumia. Depois parou. Lídia abraçou com mais força o corpo inerte. Nenhuma prece lhes valeu. Lídia, ainda viva, estava tão morta quanto a irmã. Ficou abraçada a ela até lhe doerem os ossos. Então largou-a, afagou-lhe os cabelos, beijou-lhe a fronte ao de leve. Não soube o que dizer, palavra nenhuma daria à irmã a paz que lhe tinha faltado, palavra nenhuma a traria de volta. Lídia soube que não podia fazer mais nada a não ser fugir. Deixou o corpo da irmã deitado na cama, pegou em tudo o que tinha, baixou o que restava da persiana e saiu. Não voltaria àquela casa.

Assim que fechou a porta atrás de si, foi como se se desligasse e o seu corpo só andasse, um pé depois do outro, não importava para onde, era apenas preciso andar. Haveria de ir dar a algum lado e lá decidiria o que fazer a seguir. 

Lídia chegou àquela aldeia que fazia fronteira com o mar, de um lado, e com coisa nenhuma, dos outros três, sem fazer ideia de onde estava. Trazia às costas toda a sua bagagem e no coração carregava o medo. Quando não se tem coisa nenhuma, não há planos que possam fazer-se, aceita-se o que vem e o horizonte termina quando os olhos se fecham, vencidos pelo cansaço da sobrevivência. Chegou de noite. Do farol, luz nenhuma. Lídia deixou-se estar a ouvir apenas o silêncio do mar revolto que batia na falésia. A cadência sossegou-a. Além do mar, apenas silêncio. A porta do farol cedeu ao torcer da maçaneta e Lídia aceitou isso como um gesto de  boas-vindas — o primeiro da sua vida. 

O farol era escuro e cheirava a tempo parado. Sentiu o frio que vinha do mar, há muito que as janelas haviam perdido a protecção de vidros inteiros. Encontrou despojos dos faroleiros que haviam dado sentido àquele lugar: mapas, cartas, sebentas comidas pelos anos e pela humidade. A mobília era escassa mas haveria de servir. Na primeira noite, não tentou sequer subir as escadas. Deixou-se cair em cima de um colchão muito puído e adormeceu de imediato. Trataria de fazer do farol abandonado a sua casa. Anos antes, quando aquele mar ainda paria alimento, a aldeia fora um importante ponto de paragem. As escarpas rasgavam a quietude do mar e faziam-no bravo, e só o farol impedia a morte de mais marinheiros no embate contra as rochas. Depois o mundo avançou, o farol apagou-se e ficaram apenas as histórias. Daqui a uma ou duas gerações, nem isso sobrará.

Acordou com o mar a bater na falésia e com as gaivotas a clamarem por comida. Olhando para trás, percebeu que, apesar de tudo, aquela fora provavelmente a manhã mais serena da sua vida. Contudo, era tempo de resolver o problema mais premente: não comia há mais de dois dias. Procurou dentro do farol, sem esperança de encontrar o que quer que fosse — o abandono daquele lugar era coisa antiga. Teria de sair. Deixou tudo como estava e aventurou-se devagar lá fora. Percebendo que o terreno era inóspito, começou a descer a vereda que a levaria para mais perto da aldeia. Ao fundo, onde o ar já cheirava mais a terra molhada do que a maresia, viu uma pequena horta. Debateu-se entre o que era certo e a fome que lhe comia as entranhas. Comeu avidamente o máximo que conseguiu. Deus haveria de entender, o seu filho havia multiplicado pães e peixes para que uma multidão comesse e Ele não haveria de se importar com aquela comida roubada para matar a fome a quem não tinha outra forma de comer.

Lídia sabia que cedo voltaria a ouvir o estômago implorar por alimento. Logo resolveria o problema, quando ele aparecesse. Por agora, nada mais podia fazer. Apressou-se de volta ao farol. Numa horta ali perto, uma mulher velha e pesada de histórias e maus-tratos viu-a fugir em direcção ao mar. Foi quanto bastou. A aldeia ganhou novo fôlego. A velha da horta, por ter sido quem a viu primeiro, chamou a si a tarefa de investigar quem era aquela rapariga.

Ninguém sabia de onde ela aparecera. Viam-na deambular por ali, sem horas certas nem rotinas que contassem a sua história, mas não conseguiam chegar-se a ela. Tanto aparecia dias seguidos como estava semanas sem se deixar ver. Uma selvagem, pensavam os aldeões. Uma sobrevivente, diria ela.

No dia em que a mãe a recebeu à porta de faca em punho e olhos trancados nos seus, Lídia soube que nunca teria paz. Nesse dia, foi apresentada ao medo. Agora, não sabendo ao certo quão longe estava das ameaças, o coração palpitava-lhe sempre que alguma coisa inesperada a sobressaltava. Talvez a mãe a tivesse seguido até ali. Ou talvez se tivesse esquecido de si para sempre. Sabia que a morte da irmã, não sendo culpa de nada a não ser da doença, era o suficiente para a mãe voltar a pensar em matá-la.

Antes, quando a vida eram só as três, era a si que a mãe dirigia todas as fúrias. Olhava-a e os seus olhos enegreciam, as veias do pescoço saltavam, o ódio era tudo o que a enchia. Era de Lídia a culpa da solidão, da pobreza, da ignorância, do tempo perdido, da falta de futuro, dos dias que acabavam sempre iguais, sem vislumbre de coisa nenhuma. E Lídia não entendia porquê.  

Dias depois, a mulher velha chamou-a num grito rouco de muitos anos ao relento. Lídia abrandou a passada enquanto equacionava se deveria responder ou fugir. A sua vida inteira tinha sido um exercício de sombras, enquanto se escondia da mãe que a odiava, e procurava dar à irmã todo o colo que ela própria nunca tivera. Era um equilíbrio impossível, mas Lídia tinha a certeza de que entregara à irmã tudo quanto tinha. A sua consciência vivia em paz, ao contrário do seu corpo, que se mantinha em sobressalto constante. 

Não sabia o que esperar da mulher nem da aldeia. Sabia que era ela o elemento estranho, que a novidade aguça sempre a curiosidade e faz levantarem-se orelhas, sabia que a sua presença ali gerava perguntas a que não queria responder. Mantivera-se na ponta mais recôndita daquele lugar precisamente para não ter de se misturar com quem lá chegara antes de si. Talvez lhes devesse uma explicação. Talvez fosse esse o modo de funcionamento daquele organismo em forma de povoação.  Mas Lídia não queria laços nem amarras, não queria passar a fazer parte nem dever contas a ninguém. Não queria que se preocupassem se não a vissem, nem que lhe aparecessem à porta fosse por que razão fosse. Queria ser invisível, ali ou noutro lugar qualquer. A arte que aprimorava desde que tinha memória era a da ausência. Optou por fugir.

Agora, para sempre longe de casa, levava os dias a olhar por cima do ombro, à espera da perseguição, à espera da acusação que temia. Ninguém sabia para onde tinha ido e, não fora o ódio que a mãe lhe guardava, estava certa de que ninguém se importaria consigo. Mas havia a mãe, que sempre fizera de Lídia a razão de todos os males, a coisa negra que ensombrava a vida de todos quantos se cruzavam consigo. E Lídia não sabia se a mãe desistiria de si e agradeceria que Lídia, o seu fardo, já não fizesse parte dos seus dias ou se, por outro lado, correria o mundo para se vingar. 

Na aldeia de onde Lídia fugira, a muitos quilómetros de onde estava agora, havia uma mãe órfã. Não de Lídia, mas da irmã. Aquela mulher seca e mirrada vivia os dias na humidade das lágrimas que chorava pela filha morta. Da outra, nem se lembrava. Era como se Lídia nunca tivesse ocupado espaço naquela casa nem na sua vida. Era como se, do seu ventre, só tivesse saído a filha que morrera. À outra, reservava o esquecimento. Deixara de se importar. Passara anos sem saber como se multiplica o amor pelos filhos. No seu coração não morava Lídia. E, agora que a filha mais nova morrera, era como se não fosse mãe de ninguém. O seu mundo esvaziara-se. Lídia desaparecera e isso era uma espécie de alívio que lhe evitava a lembrança de que, além da falecida, tinha parido outra filha. Viveria assim o resto dos seus dias, agarrada à ausência da filha que perdera. Acabaria por morrer também e a sua história ficaria por contar. 

Não aguentava viver naquele sítio que era todos os átomos da filha morta. Não tinha casa, agora que perdera a única pessoa que amara. Tanto fazia morrer ali como noutro sítio qualquer, mas não aguentava as recordações que a queimavam viva a cada instante. Por isso partiu. Pegou no pouco que tinha e andou até as pernas cederem ao cansaço e a atirarem por terra. Aninhou-se debaixo de um arbusto e esperou que o cansaço fosse mitigado aos poucos. Adormeceu embalada pelo barulho do mar a bater nas rochas, muito longe.

Lídia acordou em sobressalto. Não entendeu porquê. Estava tudo igual e em silêncio. O farol, já mais cuidado, continuava como o conhecera. Não havia tempestades a aproximarem-se nem animais agitados por perto. Deu por si a saltar da cama com o coração disparado, como se todos os perigos se abeirassem de si. Demorou a sossegar e não conseguiu voltar a adormecer. No seu peito, crescia a angústia. 

Na manhã seguinte, a mãe seguiu o barulho do mar até avistar um farol abandonado. No céu, nuvens negras anunciavam um dia difícil. Além do mar a bater na falésia, tudo o que se ouvia era a fome de dezenas de gaivotas. Cansada, empurrou a porta com toda a força que lhe restava. O metal raspou na pedra e a porta acabou por ceder. De dentro do farol, luz nenhuma. A medo, entrou. 

Lénia Rufino

Escreve porque não sabe fazer mais nada. Mentira. Sabe, mas não gosta tanto. Criadora compulsiva de personagens com distúrbios psicológicos graves e dona de um fascínio absurdo por mentes conturbadas.

2 Comentários

  1. se me perguntassem: de todos os contos da Lénia, qual o teu preferido, diria: Luz Nenhuma. não sei se o escreveste agora, ou se é mais antigo, mas sinto este conto como o de alguém que cresceu (muito) na escrita. talvez também me tenha tocado especialmente o tema, que é tudo menos banal e talvez um dos mais duros de abordar. e como é que se aborda um tema assim sem o tornar lamechas. assim, como neste conto. e não é para todos.

  2. Eu sou uma fã incondicional da escrita da Lénia. Ainda assim, cada conto que leio deixa-me arrebatada e a querer ler mais e mais!
    Parabéns!

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