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Entre a literatura e o cinema: partindo das pessoas e dos sentidos atribuídos

Ler ou ver um filme? Pensando na editoria do ‘Repórter Sombra’, que as enunciaram, este artigo vai focar-se em três perguntas: 1) Até que ponto podemos comparar um filme com um livro? 2) Será possível transpor para o cinema o que vai num livro ou colocar num livro o que vai num filme? 3) Será justo comparar os dois meios? Reflita-se sobre possíveis respostas.

Comparar um filme a um livro é possível. Até que ponto? Até ao ponto de não se crer que correspondem ao mesmo. É instintivo de cada pessoa, enquanto ser humano que é, percecionar as coisas que a rodeiam de modo singular. Nos Estudos da Comunicação, o teórico de referência John Fiske [1] esclarece que a compreensão de algo depende mais de quem recebe esse algo do que quem envia esse ago. Mentalmente, cada pessoa procura assimilar o que receber, tratar o que recebe e materializar, ou não, o resultado desse tratamento. Convém dar conta também que quem concebe a ideia, de modo inicial, de um filme ou de um livro é uma pessoa, um ser humano. E um ser social, pois estará dependente do seu contexto para conceber a sua obra de arte. Estará dependente quer do que dispõe em termos de, entre outros, recursos materiais, financeiros e humanos quer do seu contexto, de modo mais amplo, social, político e cultural. Fiske também deixa claro que qualquer mensagem depende de um todo quer interior quer exterior às pessoas. Esta ideia conduz o curso deste texto à resposta à questão seguinte.

Graças ao contexto e à sua interferência em tudo o que é comunicar e produzir sentido, é possível trabalhar os sentidos, que é como quem diz os signos, isto é, qualquer unidade de significado de um algo, como pontua Daniel Chandler [2]. No fundo, transpor para o cinema o que vai num livro ou vice-versa é fazer aquilo que se faz ao escrever num papel o que se diz oralmente ou o que se faz ao ver algo em determinada altura para se reproduzir posteriormente. Este sentido duplamente produtor e reprodutor representa. Quer a literatura quer o cinema correspondem a sistemas semióticos, isto é, compostos de signos. Logo, deste ponto de vista, é completamente legítima a adaptação. Aliás, existem adaptações melhor ou menos bem conseguidas da literatura para o cinema. Esta própria adjetivação é uma questão marcadamente representativa, pois, no meu universo representativo, tal coisa pode ser melhor ou pior, mas isto diferirá no contexto de outro universo representativo. Assim, será justo comparar ambos?

Respondendo à terceira pergunta, pegando na resposta à primeira, será justo comparar desde que não se assumam ambos de forma igual. Veja-se com exemplos práticos. Ler o Chama-me Pelo Teu Nome, da autoria de André Aciman, é perceber mais aprimoradamente o mundo interior de Elio, não tão entendível no filme que resultou da adaptação da obra, com a realização de Lucas Guadagnino. No entanto, ver o ‘Chama-me Pelo Teu Nome’ é ter uma dimensão visual, um preenchimento do olhar com os cenários idílicos de uma localidade do Norte de Itália, ou dimensão sonora, um preenchimento do ouvir com as sonoridades embalantes de uma banda sonora que varia entre a música pop rock e a música clássica. A justiça de uma comparação estará na consideração inicial destes pontos e na aplicação de universos simbólicos diferentes, antes de aquela ser feita. Ler exige maior esforço mental, mas oferece mais imaginação. Por seu turno, ver requer menos esforço mental, mas oferece mais dimensionalidade à experiência em causa. Diferentes as experiências, diferentes os resultados.

Todas as formas de conceber arte, como outra forma qualquer de comunicação, implicam perceber, assimilar e criar ou recriar. Acima de tudo, mais do que comparar um a outro, deve ter-se em conta o bem-estar que cada experiência, neste caso literária ou cinematográfica, oferecerá. Explica de modo claro a American Psychology Association (APA) que a Psicologia Positiva se centra “nos estados psicológicos (…) traços individuais ou forças de caráter (…) e instituições sociais que promovem o bem-estar subjetivo e fazem a vida valer a pena”. Retendo esta abordagem, deixe-se um questionamento: ainda que lidando com as suas circunstâncias, não será o que mais apraz ao ser humano que este deve procurar concretizar? Ler e/ou ver um filme: de qualquer maneira, a arte haverá de enriquecer cada pessoa. As perguntas estão respondidas. Fica a presente reflexão e o espaço para que se desenvolvam outras.

[1] Nota bibliográfica (livro): Fiske, J. (1993). Introdução ao Estudo da Comunicação. Porto: ASA.
[2] Nota bibliográfica (livro): Chandler, D. (2007). Semiotics: The Basics. London: Routledge.

Pedro Ribeiro

Vimaranense, 24 anos e recetivo a desafios, ocupo a maior parte do meu tempo em torno das áreas dos Média e da Comunicação. Sou estudante de doutoramento em Ciências da Comunicação e procuro oferecer a minha perspetiva da forma mais íntegra possível. Numa sociedade de pouco sentido crítico e muito moralismo, procuro trazer debate com conhecimento, procurando perceber e aprender mais. Não fosse isso um motor para a vida, o conhecimento. Já escreve Nietzsche, na sua obra 'Assim Falava Zaratustra': 'O Homem só existe para ser superado.'

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