Holanda, Turquia e Eleições – Megafone dos Europeus

Há uma discussão permanente sobre quem manda na Europa. Do debate académico às conversas de café, os europeus não se sentem como parte consultada nas decisões. O problema não é somente nosso, como se vê no caso americano. Contudo, quando as vozes se fazem ouvir a 28, temos mais fatores de divisão que colocam em causa a união do projeto.

Na semana passada, o principal foco de atenção não foi a visita de Angela Merkel aos Estados Unidos da América, mas as eleições que decorreram nos Países Baixos.

As eleições de 15 de março constituíam parte da tríade de eleições deste ano que determinam os próximos passos do processo europeu. Juntam-se as eleições presidenciais francesas em maio e as eleições alemãs, com uma expressão crescente do partido Alternativa para a Alemanha.

O processo democrático focou as atenções europeias num Estado-Membro de pequena dimensão e deixou-o controlar a agenda política.

O Primeiro-Ministro Mark Rutte viu a sua vitória dificultada pelo apoio crescente a Geert Wilders, o candidato que tem apresentado uma visão bastante próxima de líderes como Marine Le Pen ou Donald Trump no que diz respeito a políticas de imigração, na mensagem nacionalista que passa e na ameaça que poderia constituir à União Europeia.

Esta abordagem revela-se fácil de compreender e fácil de ser transmitida às massas que se sentem ignoradas da decisão política. Por esse motivo Rutte, no decurso desta semana, rejeitou a visita do Ministro dos Negócios Estrangeiros turco aos Países Baixos, por recear o impacto que poderia ter no resultado eleitoral.

A negação de contacto com a diáspora turca, num período de relevância para a política interna turca – aprovação de alteração constitucional – e de tensão entre a Turquia e outros Estados-Membros, demonstra o preço que Mark Rutte, o Primeiro-Ministro holandês, esteve disposto a pagar para manter o seu lugar.

As eleições têm este efeito engraçado. Engrandecem os cidadãos, dão-lhes voz por colocar em cheque a posição dos líderes políticos. Nos Países Baixos, pela fragmentação do sistema partidário, isso é ainda mais verdade. Wilders não obteve a maior percentagem de votos, esse lugar foi mantido por Rutte, mas com apenas 20 % do total de votos.

Nos tempos em que vivemos, o direito de voto pode ser uma arma nuclear. Facilmente coloca em agenda decisões irreversíveis, como o Brexit. A ameaça existiu, mas não foi isso que aconteceu esta semana. A União Europeia ganhou esta ronda, Dijsselbloem manteve o seu lugar de Presidente do Eurogrupo e os Países Baixos ganharam uma atenção fora do comum para um Estado desta dimensão.

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