Nós somos Música

A música faz parte de nós, está inserida na nossa frequência, o som move-nos, as vibrações sentem-se, o corpo é ritmo e a mente, uma pauta.

Em 1835, Almeida Garrett criou o primeiro conservatório de música em Portugal. Situado em Lisboa, estima-se que terá sido o único local onde se ensinava música de forma contínua antes de se tornar algo visivelmente importante no desenvolvimento das crianças. Consta que durante cerca de oitenta anos a educação musical era exclusiva do Conservatório, até que se expandiu do centro para o norte e o sul.

Em 1910, após o 5 de outubro, com a implantação da República, combater o analfabetismo foi uma das grandes prioridades do governo, assim foi criado o Conservatório do Porto em 1917 e os demais que se seguiram. O ensino musical, que até então estava destinado exclusivamente a quem tinha posses, passou a ser chamado “Educação musical”, na década de 1960.

Incrivelmente, a disciplina só se tornou obrigatória em 2008, há uns meros dezasseis anos e, segundo ditam os estudos, foi em 1974 que se deu o maior impacto, com a queda da ditadura e das convicções elitistas e das suas restrições, sendo criados cursos para formar professores em educação musical.

Por que passou a ser tão importante?

A música traz vários benefícios associados ao contribuir para o desenvolvimento neurológico, psicomotor, linguístico e cognitivo, nomeadamente de:

– Concentração;

– Disciplina;

– Raciocínio lógico e matemático;

– Sensibilidade;

– Consciência corporal e espacial;

– Lateralidade;

– Aquisição linguística em várias línguas.

Em conversa com Ana F., professora de violino com experiência de mais de vinte anos, ela demonstrou o quão essencial é a educação musical.

A partir dos 3 anos já se pode, e deve, iniciar esta viagem, o grande problema está ainda na acessibilidade monetária. Temos o ensino publico, no entanto, com condições parcas, pouco ajustadas às necessidades.

“É muito triste que, mesmo com o ensino articulado, a formação artística, no geral, seja ainda um luxo na nossa sociedade” – Ana F.

A música na escola é valorizada, ou não, dentro de várias formas. Alunos que anseiam por aquela hora de “descontração”, outros que se questionam sobre a sua relevância, a realidade é que somos todos sons, além de números, somos energia e nós pulsamos música. Qualquer ruído, por mais banal que pareça, pode gerar música.

A nossa memória é estimulada através dela, o género musical pode ditar as nossas emoções e influenciar o nosso dia a dia. A chave está na compreensão do seu poder.

Se estivermos alegres, não queremos ouvir músicas calmas ou tristes, se estivermos numa fase mais cinzenta, repudiaremos tudo o que nos faça recordar o verão ou um romance amoroso.

A música apela à nossa imaginação e é capaz de nos fazer viajar, principalmente nas viagens secantes nos transportes. Jovens de auscultadores nos ouvidos é o que não falta.

Tem também um papel fundamental na socialização, amizades que se criam com base nos mesmos gostos musicais ou, para os mais introvertidos, o esconderijo ideal até se sentirem preparados, ou não, para trocar palavras com alguém.

“Se fosse dado à música o valor pedagógico e de desenvolvimento que ela tem, talvez tivéssemos crianças mais felizes e emocionalmente reguladas.” – Ana F.

As prioridades educativas em si não estão centradas. Junta-se a questão atual das inúmeras falhas do sistema de educação, às que já não funcionavam decentemente, portanto, a luta para se conseguir a valorização correta irá continuar.

Quantos métodos de estudo não foram criados com base numa cantiga? A própria tabuada para ser decorada tem ritmo, digam lá que não abanavam a cabeça até chegar à tabuada do dez?

Os verbos ditados têm pausas e respiram, tudo isto vive da música. A educação musical para o futuro, e não só, é uma mais-valia, e estes exemplos são apenas alguns dos benefícios aos quais todas as crianças devem ter acesso e direito.

Se não for feito por eles hoje, o que será das futuras gerações?

“Menos ecrãs, mais música!” – Ana F.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico.

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