Muitos são os anos que separam o ano de 1993 e o presente ano de 2025. Em 1993, Saramago escrevia uma espécie de diário que, mais tarde, se tornaria no primeiro volume dos Cadernos de Lanzarote. Em outubro desse mesmo ano, José Saramago escreveu o seguinte: «(…) Falava-se do imparável afluxo de imigrantes à Europa, e eu disse: «Se o centro não vai à periferia, irá a periferia ao centro». Por outras palavras: a Europa está hoje “cercada” por aqueles a quem abandonou depois de os ter explorado até às próprias raízes da vida.»
Desde 2019, segundo o Público, 175 pessoas desembarcaram nas costas portuguesas à procura de refúgio e, sobretudo, das garantias assinaladas na declaração universal dos direitos humanos. O assunto voltou a ser notícia em agosto passado. Trinta e oito pessoas, provenientes do norte de África, chegaram a uma praia algarvia numa embarcação frágil. Um pequeno parêntesis em relação ao assunto: falamos de pessoas que cá chegaram, jamais será possível enumerar quem jaz no fundo do Mar Mediterrâneo. Este pequeno aparte, que consiste num ponto factual, deveria fazer tremer os alicerces de uma Europa que tem tão boa imagem de si mesma. Avancemos.
Portugal não é um dos países mais afetado pela vaga de imigração clandestina. Sem surpresas, os migrantes oriundos do norte de África e de partes do médio oriente procuram os países europeus economicamente mais fortes para prosperar. As razões não são, apenas, puramente económicas: muitos pretendem rever familiares que conseguiram (ou não) completar a perigosa travessia, sinal de um desespero nem sequer sonhado pela atual sociedade ocidental.
Que papel pode ter Portugal, o governo e os portugueses, neste contexto? O governo adota o comportamento esperado de quem depende de uma direita ultraconservadora para governar. Os portugueses, não na sua generalidade, mas no largo espectro das redes sociais, parecem apoiar a decisão. Esquecem, porém, todos os portugueses que fizeram o mesmo em meados do século passado, com França e Suíça como destino. Esquecem, também, as parcas condições de vida destes países, assolados pela guerra, pelas consequências das alterações climáticas ou pela instabilidade política e religiosa. Parecem esquecer, como Saramago tão bem lembrou, que os países agora desenvolvidos, tecnologicamente avançados e «moralmente superiores», foram os países que absorveram as riquezas naturais daqueles a que chamamos países de terceiro mundo, empobrecendo-os e condenando-os a uma posição subalterna. É esta a mensagem que pretendemos deixar para as novas gerações, já de si tão difíceis de esclarecer?