Love & Mercy – A Força de um Génio

Foi a morte de Brian Wilson, a alma e fonte criativa dos Beach Boys, que me levou a aprofundar a vida do génio norte-americano. Tentei um documentário e uma biografia, mas o primeiro não consegui e o segundo não me pareceu atractivo. Cheguei assim a Love & Mercy, filme de que ouvi falar num dos programas da manhã na rádio Observador, a caminho do trabalho – talvez por Bruno Vieira do Amaral? – na semana em que Wilson morreu.

Se bem que, na torre musical das minhas preferências, não estejam ao nível de excelência dos ABBA, dos Beatles, de Cat Stevens, CSNY, Simon & Garfunkel ou Joni Mitchel, os Beach Boys vêm logo as seguir, no Muito Bom (numa correspondência escolar, seriam uns 90%) acompanhados dos The Bee Gees, Queen, The Eagles, etc…

É deles um dos primeiros CDs que comprei, numa das viagens a Londres, uma versão foleira contendo um best of pobrezinho de The Beach Boys e de Jan & Dean (que se me barachavam por cantarem algumas músicas que os Beach Boys também cantava,). Olho hoje para o CD e parece-me daquelas versões manhosas que (ainda) se vendem nas estações de serviço. Mas foi com ele que durante anos ouvi as músicas de uma das bandas mais influentes de sempre. I Get Around foi a minha canção preferida até ouvir a banda sonora de Forrest Gump (uma cassete que comprei com um cheque-oferta) e Sloop John B ter destronado a primeira. Ainda hoje é a minha canção preferida dos Beach Boys.

Love & Mercy conta-nos o calvário vivido por Brian Wilson sob a égide da doença mental. O génio e a loucura que sempre o acompanharam são-nos mostrados a dois tempos – na década de 60, aquando da feitura de Pet Sounds, o álbum da banda que mudou a música pop e influenciou inúmeros artistas, incluindo Paul McCartney, levando-o a superar-se com Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band, e na década de 80, quando Wilson conhece Melinda Ledbetter, a ex-modelo e vendedora de carros que literalmente o salva (até nas palavras do próprio Wilson) das “garras” do psiquiatra Eugene Landy, o médico das estrelas, que manteve Wilson longe de si próprio demasiado tempo.

Para lá da genialidade e do processo criativo, para lá da doença mental e dos excessos do estrelato, o que me agarrou neste filme foi – e eu não sabia o desfecho – [SPOILER] testemunhar o poder do amor. Não fosse uma história verídica e eu diria de caras ser mais uma Hollywoodice bem intencionada. Só que não. Love & Mercy é um filme respeitável (palavra ambígua) que nos dá a ver os fantasmas por trás do estrelato, o sofrimento de um génio que, para lá dessa genialidade, encerrava uma pureza que só o amor de uma mulher superior foi capaz de libertar.

Algures pelos vinte e tais, comprei o meu segundo (e último) CD dos Beach Boys, o best of definitivo com 30 canções onde constavam todas, mas mesmo todas as grandes músicas da banda. Sloop John B aguentou-se no topo, mas I Get Around foi destronada do pódio por outras duas obras de arte – Don’t Worry Baby e God Only Knows.

Pouca curiosidade dispenso à vida por trás das obras. Neste caso, já havia ouvido qualquer coisa sobre a condição mental de Brian Wilson, e nada liguei. Agora, na semana da sua morte, e depois de ver surgir nas redes sociais múltiplas homenagens e referências às limitações e isolamento de que padeceu, o meu respeito por ele disparou.

O surf e a praia eram apenas fogo de vista na musicalidade dos rapazes da praia e do seu mestre, Brian Wilson. Nos tempos de adolescência e jovem adulto, quando passava as tardes de fim-de-semana em casa de um vizinho, o Fernando, ele dizia que os Beach Boys eram o melhor conjunto vocal. Dezenas de cassetes que ele guardava da década de 80 reproduziam a música do seu tempo – 60s e 70s – e eu fui bebendo todo aquele som. O primeiro contacto com os Beach Boys vem daí, logo seguido do CD londrino.

Love & Mercy como que confere uma outra profundidade à música de praia, surf e Verão que sempre associei à banda. Brian Wilson é o génio de quem nunca conheci a história até agora. Paul Dano e John Cusack fazem-lhe justiça, como Elizabeth Banks eleva Ledbetter a uma figura inspiradora, como Dana Reeve ou June Carter (para citar outras mulheres que foram o suporte de homens famosos e que conheci através do cinema).

[Este texto não está escrito segundo o novo acordo ortográfico]

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