Naquela tarde quente de Agosto do ano de 2004, a caminho da Vila de Lavre pela primeira vez, estava longe de imaginar a ligação que ia criar com aquela terra. Ia passar o fim-de-semana em que decorria um Festival onde a cerveja e a boa música eram protagonistas.
Já tinha ouvido um pouco sobre a história da Vila e de como parte do seu património havia sido destruído pelo terramoto de 1755. Terra de enorme riqueza Histórica e Cultural bem preservada pelo povo até aos dias de hoje, serviu de inspiração a José Saramago para o romance Levantado do Chão após ali residir no final da década de 70. No ano 2000 foi também local de gravações do telefilme da SIC “Amo-te Teresa” (para quem não conhece ou não se lembra, era sobre um romance proibido entre uma mulher de 35 anos e o filho adolescente da sua melhor amiga).
Mas voltando à minha viagem, ainda tenho bem presente na memória os primeiros momentos. Tinha amigos em Lavre e fui a convite. O ambiente era típico do frenesim festivo, animado, e muito coordenados na organização. A forma como fui recebida por todos, mesmo os que não conhecia, fez-me sentir imediatamente acolhida como se fizesse parte daquela comunidade. Não sabia muito bem ao que ia, confesso. Mas senti-me “em casa”, tal como me prometeram.
Ainda antes de me instalar, tive direito a um roteiro pelos locais mais importantes da Vila. E não, não estou a falar de pontos Turísticos, ainda que fossem interessantes de descobrir. Primeiro a Praça da República, onde por esses dias no lado oposto ao Coreto estava um grande palco para os concertos musicais, e ao longo da rua um bar montado. Pelo caminho, e não menos importante, o multibanco, por ser o único (é comum nas terras pequenas; em algumas zonas do interior só existe um por freguesia). Logo na rua seguinte, numa rua cuja estrada fora coberta de terra para as largadas de toiros, uma carrinha pão de forma antiga, devidamente preparada para bar ambulante com pegas para os mais corajosos se abrigarem durante esse evento (a meio da noite durante aquilo fui lá parar e garanto que era segura).
A meio dessa mesma rua, o Café Mariana. Uma tasca tipicamente alentejana, bem antiga, daquelas que têm sempre o cheiro a petisco impregnado. O Sr. Pedro, de ar mal-humorado (mas um coração mole) reclamava dos pedidos dos jovens, mas atendia-os sempre. Vendia tabaco avulso e o gargalo das minis sabia a marisco, pela partilha da mesma arca frigorífica. Era ali que se começavam ou terminavam os serões. E tantos sarilhos…
Depois de percorrer a Vila só faltava conhecer duas coisas: o Restaurante Maçã e a “favela”, como carinhosamente os habitantes mais jovens desse último bairro lhe chamavam. Ficaram para a hora do jantar. Ainda me lembro das maravilhosas migas de espargos…
É uma Vila bonita, tipicamente Alentejana, interessante de conhecer. Rodeada de uma paisagem natural de campo que também vale a pena percorrer.
Durante vários anos, em que vivi ali perto, frequentei Lavre como se fosse uma segunda casa. Na verdade sentia-me mais em casa em Lavre do que onde morava.
Aos fins-de-semana toda a gente ia ao futebol ver e apoiar o Grupo Desportivo Lavrense. No Estádio da Amoreira, ao pé da Ribeira de Lavre, o bar era a carrinha pão de forma. Havia uma claque, cânticos e um blog para o qual contribui com fotografias e vídeos dos jogos. Também foi criado um cartão de adepto com foto, nome, alcunha e desconto nas cervejas minis.
Á noite convivia-se no café, num encontro de gerações entre jogos tradicionais em qualquer altura do ano.
Na noite em que o Sr. Pedro fechou o café pela última vez, fizemos-lhe uma festa de despedida. Foram leiloados objectos para quem os licitou guardar de recordação, o Sr. Pedro foi ovacionado e a sua paciência enaltecida por todos. Eu não cresci com ele, nem foi ali que fumei o primeiro cigarro ou bebi a primeira mini, como a maioria. Mas pude sentir a importância daquele homem e daquele local para todos, no pouco tempo que o frequentei.
Lavre é sem dúvida marcante. As pessoas e o orgulho na terra, que tanto fazem por honrar. Terra de músicos, também. De diversidade artística. De ambiente culturalmente fascinante.
Posso garantir que por muito que explique, não há palavras suficientes para descrever Lavre. Fui tão feliz ali que enquanto foi possível voltei sempre, como se fosse o meu porto de abrigo.
Sou eternamente grata às pessoas de Lavre pela forma como me acolheram e guardo-as a todas no meu coração. Até ao meu regresso…
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