Itálias mil

Corria o ano de 2018 e era altura de decidir onde seriam as férias “grandes”. Já não me recordo como surgiu a ideia de viajar para Itália, e muito menos de o fazer de carro, vagueando pelo sul. O que é certo é que prontamente nos empenhámos no planeamento do roteiro, meio à sorte, seleccionando vilarejos que nos despertavam interesse, alguns dos quais nunca tínhamos ouvido falar.

Chegado o dia, embarcámos rumo a Roma, cidade que decidimos não conhecer, e que nos saudou com uma baforada de calor húmido e infernal, para nossa surpresa, já que estávamos em meados de Junho. Concluídas as formalidades necessárias, arrancámos em direcção a Nápoles, a primeira paragem, num Fiat Panda jeitosinho.

Primeiras impressões: os italianos são loucos a conduzir (dois dias depois estávamos perfeitamente enquadrados e chamávamos lhe apenas pragmatismo). Lixo, muito lixo por todo o lado. Sacos de lixo em lugares questionáveis como as bermas das auto-estradas. Uma breve pesquisa e ficámos cientes das guerras de lixo promovidas pelas máfias, coisas de filme.

Com uma manhã destinada a Nápoles, andámos pela cidade, por entre malaguetas e estendais de roupa, o que já é uma atracção por si só, e, como turistas não tão convencionais que somos, foi na Napoli Sotterranea que decidimos passar mais tempo.  A Napoli Sotterranea é uma rede de grutas escavada no período greco-romano (primeiros registos oficiais remontam ao século III a.c.), que serviram como rede de distribuição de água pela cidade, e, que no século XX serviram de abrigo durante os bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial. Milhares de pessoas viveram durante anos na cidade debaixo da cidade, deixando muitos vestígios do seu quotidiano, que podemos hoje observar com algum choque. Vale a pena a visita, mesmo que um pouco claustrofóbica.

Com o Vesúvio a olhar-nos de esguelha, rumámos à próxima paragem (e a mais aguardada, confesso): Pompeia. À chapa do sol, pisámos as pedras marcadas pelas rodas das carroças, admirámos a Casa do Centenário, vimos o casal petrificado num abraço eterno. Tanto mais há por dizer, coisa que a economia de palavras não me permite. Fica a promessa de voltar para admirar novas descobertas que certamente acontecerão.

Seguimos até Tramonti, um vilarejo belo e pacato, que serve de varandim para uma paisagem montanhosa meio onírica, e a nossa base para dois dias de exploração na Costa Amalfitana, um dia para oeste, e outro para este. No primeiro dia conhecemos os clássicos, os perfeitos postais ilustrados diante dos nossos olhos. Ravello, Amalfi, Fiordo di Furore, Positano, tudo até Sorrento. Tudo lindo, belo, paradisíaco, tudo como vemos nas redes sociais. Tudo menos o inferno que é circular de carro por entre estradas apertadas, onde autocarros se cruzam em manobras surreais, de raiar os nervos de qualquer um. Próxima vez é de barco, fica o aprendizado. Terminamos o dia com uma pizza de presunto com rúcula e raspas de limão, receita que trouxemos para a vida.

No dia seguinte, rumámos a este, ainda no tal postal ilustrado por castelos impensáveis adejando sem vacilar sobre águas turquesa, até deixarmos o litoral. Foi a parte mais atribulada da viagem. Fomos surpreendidos por montanhas pintadas de neve, estradas cortadas por derrocadas, caminhos de terra batida (cortesia do GPS), e minutos depois, pela tempestade de granizo mais sisuda de sempre, a ponto de termos que nos abrigar de baixo de telha, duvidando da robusteza do para-brisas e da capacidade de continuar pela estrada inundada.

Chegados ao destino do dia, Castelmezzano, subimos até ao castelo no topo da montanha, a tempo de admirar a vila a iluminar-se com luzes amareladas. A descida foi brindada com um bom vino rosso na taberna local. Para amantes de desportos radicais, ali podem fazer o Vollo dell’Angelo, uma tirolesa que atinge os 120km/h, coisa que talvez com mais vino pudesse ponderar.

Mais um dia e continuamos rumo a Matera, a cidade subterrânea, um local que se sabe habitado desde a pré-história, estando perfeitamente preservada a rede de cavernas que lhe deu origem. Toda a cidade é de um tom só, de pedra branca e reluzente, ponteada pelos milhares de turistas que já nessa altura a visitavam.

Contudo, Matera não foi o ponto alto do dia. Seguimos viagem deixando a aridez continental para trás, em direcção a Taranto, tomando depois a linha costeira até sul. Esgotados de tantos quilómetros de calor inóspito, decidimos fazer uma paragem para um mergulho, já depois de Gallipoli. Aí sim, foi com êxtase total que descobrimos as águas quentes do Mar Jónico. Depois de quinze minutos a agir como se nunca tivéssemos visto o mar, decidimos seguir viagem e deixar os mergulhos para outro dia, decisão que ainda hoje nos atormenta. O dia acabou com uma visita nocturna a Otranto, cidade completamente encantadora que merecia mais tempo para ser devidamente explorada.

O dia seguinte começou com uma manhã de praia nas águas cálidas acima de Otranto, onde pudemos usufruir de uma tranquilidade indescritível, de águas que apenas se agitavam com a passagem dos barcos ao longe. Continuámos a subir a costa, parando para banhos em todas as praias, até a temperatura das águas se esmorecer, mais para norte. Passagem obrigatória, mas breve por Ostuni, a cidade branca. O destino final foi Alberobello, um dos locais mais visitados da região de Puglia, pelas suas casinhas pitorescas chamadas de trulli, construções redondas e com telhados cónicos, e em maior concentração no bairro Rione Monti, onde provavelmente escolhemos o pior restaurante para jantar. Afinal de contas, não se pode acertar sempre.

A viagem continuou pela costa que havíamos abandonado no dia anterior, com passagem em Polignano a Mare e Bari, mais acima, cidade que também merecia que lhe fosse dispensado mais tempo. À passagem por Foggia foi-nos difícil encontrar beleza depois de tudo o que tínhamos visto nos dias anteriores.

Já com um pesar no coração rumámos a San Massimo, para a última noite de estadia. Para fechar com chave de ouro tivemos a melhor experiência gastronómica da viagem, uma autêntica ode aos paladares trufados da região do Molise. A começar o Verão, foi difícil imaginar que meses depois aquele local estaria sob alguns palmos de neve e se tornaria numa concorrida estância de ski.

No último dia, regressámos a Roma, sem grande história, apenas com algumas paragens dedicadas ao Geocaching, modalidade que muito contribui para a descoberta de locais que não consideraríamos de outra forma.

Lázio, Campania, Basilicata, Puglia e Molise foram o palco de sete dias de calor seco, mar azul turquesa, picos enevoados, chuvas de granizo torrenciais, paisagens desérticas, águas mornas. Mil Itálias couberam em sete dias, mais de mil ficaram por desvendar numa próxima viagem que ainda tarda, mas não falhará.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico
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Comments 2
  1. Tive a mesma perceção em Roma: os italianos são loucos a conduzir! Infelizmente, não vim maravilhada. Fora a Basílica de S. Pedro, nada me pareceu tão fascinante como nos livros de História.

  2. Tive a mesma perceção em Roma: os italianos são loucos a conduzir! Infelizmente, não vim maravilhada. Fora a Basílica de S. Pedro, nada me pareceu tão fascinante como nos livros de História 🙁

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