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Cuba – Um museu vivo em alerta vermelho

A primeira impressão que temos, ao chegar a Havana, é a da segurança firme no aeroporto, onde somos sujeitos à validação facial do passaporte, à antiga. É caricato ver as meninas com meias de renda, após o controlo de segurança. Salvo raras exceções, os hotéis são velhos com cores berrantes e o quarto com sorte tem uma tomada monofásica para carregar o telemóvel, podem contar com um duche a conta-gotas e água fria, embora a temperatura de 30 graus a mais não justifique. Uma experiência agridoce.

As ruas de Havana parecem cenários de um filme dos anos 50, com os clássicos veículos das marcas Cadillac, Pontiac, Chevrolet e Ford muito bem cuidados como se o tempo não tivesse passado por eles, outros mais recentes e menos belos, como os ex-soviéticos Moskovitz (que os cubanos apelidam de Monstrovich) ou os Lada, que como por milagre ainda circulam.

À noite, as jineteras nas ruas perguntam as horas aos turistas, início de conversa para sugerirem uma massagem… Não faltam spots com música ao vivo e locais para praticar ou aprender a dançar Salsa Cubana. O norte-americano Ernest Hemingway viveu em Cuba, entre 1939 e 1960, frequentava assiduamente “La Bodeguita del Medio”. Uma noite escreveu: “My mojito in La Bodeguita, My daiquiri in El Floridita.” Muito devido à publicidade do escritor, estes locais são ainda hoje referência obrigatória para qualquer turista.

Em Cuba, pratica-se muito a distinção entre cubano e estrangeiro, enquanto o turista usa a moeda CUC (nivelado ao dólar e Euro), tipicamente o cubano paga com pesos cubanos. Existem práticas de preços diferentes. Por exemplo, num museu um cubano pode pagar 5 pesos, enquanto um estrangeiro paga 5 CUC. Na prática, 26 vezes mais. Um cubano que queira usufruir de uma noite de Hotel, nas praias paradisíacas de Varadero, terá de usar todo o dinheiro ganho em 5 meses. Dá que pensar.

Como é possível para um cubano comprar um champô, uma cerveja ou uma garrafa de água que custa 1 euro, se a maior parte deles ganha 8 euros por mês, outros 30 no máximo. Como sobrevivem?

Alguns cubanos viajam aos EUA e México, compram produtos, sobretudo, de tecnologia e vendem no mercado negro em Cuba. Na Florida, estão sediadas algumas empresas de importação de peças para os carros antigos, embora cada cubano só possa trazer um determinado peso anual em mercadoria. Este limite dificulta, mas não impossibilita que este mercado funcione. Porém, não só destes negócios paralelos os cubanos subsistem. É muito à custa dos familiares que têm no estrangeiro, sobretudo, nos EUA e Espanha, cada família tem pelo menos um familiar la fora que envia dinheiro com alguma regularidade. Assim se vai sobrevivendo neste país.

Apesar da educação e saúde serem gratuitas, a comida nas escolas é intragável, a manutenção não existe. As ruas raramente são limpas, cheiram mal, o lixo transborda pelos contentores. Os prédios estão degradados, muitos com uma única fachada ou em ruína, sujeitos a cair, onde vivem dezenas de pessoas. Apesar de na eventual necessidade de assistência médica, tudo o que precisarmos ser grátis, percebemos o contrassenso com uma simples gripe, pois dificilmente encontramos um antibiótico, os medicamentos são baratos, mas têm muita procura, são insuficientes. As farmácias estão vazias!

Até há bem pouco tempo, tudo pertencia ao estado, agora já “só” 95% dos negócios são estatais, existem pequenas “empresas” como cafés, bares, cabeleireiras, empreiteiros. É um paradigma que está a mudar, mas muito devagar. Tudo se paga ao estado, seja uma licença para o aluguer do carro, ou quem quiser hospedar turistas terá de ter uma placa registada na porta e pagar uma taxa de cerca de 50% ao estado.

A atual crise socioeconómica na Venezuela tem tido alguns efeitos colaterais em Cuba e agravar-se-á, a confirmar-se a queda do ditador Nicolás Maduro, que preso por um fio, vai condenando a Europa e Estados Unidos da América, que apoiam o presidente interino, Juan Guaidó. A dependência de Cuba à Venezuela é grande, essencialmente devido ao petróleo, poderemos estar perante uma nova crise como a que ocorreu na década de 90, que originou a escassez de comida e os sucessivos cortes elétricos, assim como o colapso dos transportes públicos, uma época de miséria que ficou na memoria dos cubanos de geração em geração e criou um trauma generalizado na população.

Em abril de 2019, o insólito aconteceu, quando no programa Mesa Redonda da TV estatal, o governo cubano, pela voz do caricato comandante de 91 anos Guillermo García Frías, propôs uma solução absurda para fazer face à escassez de carne e alimentar a população cubana, fomentar o cultivo (Sim, cultivo. Leu bem!) de jutía (capromyidae), crocodilo e sobretudo de avestruz, para consumo humano, afirmando que esta última é uma ave capaz de produzir mais que uma vaca. Bizarro. O vídeo é imperdível e rapidamente se espalhou nas redes sociais, originando o aparecimento de vários memes, uns mais criativos que outros, houve quem jocosamente anunciasse, que milhares de avestruzes teriam pedido asilo político na base de Guantanamo.

O sistema político cubano, liderado por Miguel Diaz-Canel, claramente que sofre ainda com o fantasma de Fidel, por muito que o ex-líder tivesse proibido que o nome dele jamais fosse usado para batizar nenhuma rua ou monumento, mas tão cedo cairá no esquecimento. O regime está pouco habituado à expressão publica de opiniões contrairias, não podendo censurar de forma permanente toda a Internet, já se terá arrependido de nos últimos anos ter criado mais condições de acesso à rede, para os seus habitantes. Esta situação é tão ridícula como melindrosa, dado que alguns jovens que partilharam ou gozaram com a situação online, têm vindo a ser repudiados pela sociedade, alguns mesmo no seio familiar, pelos pró-regime que choraram a morte de Fidel. “Cultivar” Avestruzes? Parem de brincar com os cubanos!

No ano em que Havana celebra os seus 500 anos de existência, recentemente abalada por uma queda de meteorito, tornados, cheias, tsunamis, os cubanos são um povo resignado, que vive no limiar da pobreza, resultado da chamada revolução, de Fidel Castro. Desde a crise dos misseis russos, o embargo dos EUA, tudo aquilo que os revolucionários barbudos conseguiram para a história, foi a criação de um país único, caracterizado pela sua estagnação no tempo, tornando Havana uma cidade singular no mundo. A revolução conformou-se e parou o relógio, que resultou num museu vivo a céu aberto, para turista ver.

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Ricardo Manuel Santos

Mais que um profissional IT, sou um colecionador de experiências e viagens. Atento à relação entre o progresso tecnológico e inerente evolução social. Critico e opinativo por natureza, procuro sair da minha zona de conforto para evoluir, acredito que a única constante da vida é a mudança. De caligrafia torta e ideias rasuradas vou continuando a escrever o meu próprio destino! Visto-me de paixão e faço o hoje valer a pena, pois tudo é viver. Simples assim.

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