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O (pseudo) teletrabalho num minuto

Qualquer semelhança com a realidade é puramente intencional

Bom dia. Estás a ouvir-me bem? Estou, estou. Desculpa lá estar a falar baixo, mas o António ainda está a dormir. Espera aí só um bocadinho que tenho de ir ajudar a pequenita na casa de banho. O que é que disseste? Raios. Ho-je-os-me-us-co-le-g… também estão a trabalhar em casa e-a-ne-t-nã… guenta.

Estás a ver-me? Estás a ver o meu ecrã? Ai, tocaram à campainha. Quem será? Espera aí só um bocadinho. Tchiii, o puto tem aulas daqui a meia hora e ainda não fiz o almoço. Pronto, o computador bloqueou. Tenho de desligá-lo e voltar a ligar.

Já cá estou outra vez. Estás aí? Tenho fome. Olha, vou só buscar uma peça de fruta. Ui, preciso de água. Os miúdos estão a fazer muito barulho, não estão? Desculpa. Dá-me um minuto para eu fugir dos meus filhos. A tua imagem está congelada. Está muito abafado. Ai, tenho de esticar as pernas, não posso mais. Vou só ali ajudar a Inês a ligar o Zoom. Doem-me as costas. Raios partam esta cadeira. Está a entrar outra chamada, mas não desligues esta.

Hoje tenho de sair a horas, porque é dia de me equipar para ir ao supermercado. Hoje tenho de sair a horas, porque tenho aulas online. Hoje tenho de sair a horas, porque vou fazer exercício. Hoje tenho de sair a horas, porque o governo já nos deixa combinar coisas. Hoje tenho de sair a horas, porque não faz sentido não desligar a horas. Será que já podemos desligar?

Este é um tipo de teletrabalho especial, em tempos especiais. É uma espécie de teletrabalho, em que as fronteiras entre a vida pessoal, familiar e laboral estão tão indefinidas quanto as respostas sobre a letalidade e a forma de contágio da COVID-19. Trata-se de uma versão improvisada que leva atrás o ruído do berbequim do vizinho, as obras da Câmara Municipal e a vida anormal de uma família posta em casa à pressão.

Sob o ponto de vista sociológico, é uma forma básica de mostrar que o contexto cria a conversa. E a conversa nos dias úteis é, em grande medida, aquela que descrevi acima. Com personagens e ambientes mesclados, por vezes ao mesmo tempo, em quadrados que se multiplicam no ecrã do computador. O mais surpreendente é que pelo meio se trabalha. Trabalha-se muito e bem, defendem alguns.

Quero, no entanto, acreditar que ainda muitas formas de melhorar este processo. Para isso, teremos de pôr os olhos em quem já teletrabalhava, ver que condições reuniu e, acima de tudo, que estratégia seguiu para se isolar do berbequim do vizinho. E só então poderemos dizer que estamos realmente em teletrabalho e não apenas com o computador do escritório numa divisão da casa.

Florbela Caetano

Ligar o rádio é a primeira coisa que faço ao acordar. E isso já diz muito sobre uma jovem adulta, no século XXI. Como se este desajustamento não bastasse, gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Trabalho no primeiro. Procuro formas de me manter ligada ao segundo.

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