Dia 7
Caldas de Reis – Padrón

De volta ao albergue municipal de Padrón. Calor em vez de frio; oito em vez de três; outro grupo de peregrinos e uma mesma cidade. Nada na vida se repete mas há matizes que reconhecemos nas experiências próximas de outras por que já passámos e, por mais que nos esforcemos em não repetir os erros do passado, existem outros onde caímos. No próximo Caminho, tentarei evitar incorrer nesta ou naquela atitude mas partirei com a certeza de que haverá algo que farei errado. Tentativa e erro; o método científico aplicado à vida e através do qual nos vamos aperfeiçoando, com a certeza de que nunca conseguiremos iludir o erro. Por isso ele pode ser tão reconfortante: permite-nos abraçar este sentimento de obstáculo superado como o António diz quando chegamos ao fim de uma etapa como a de hoje; colocadas as mochilas em fila a marcar lugar à entrada… esta sensação de chegar é fantástica, descalçar as botas… (estou a repetir-me mas ele também se repetiu e quando insistimos no reconhecimento de uma satisfação vivida, então é porque ela é realmente boa). São as privações que possibilitam a superação.
Estou na sala comum deste anexo, casa-mosteiro onde adoro ouvir o ranger da madeira que forra o chão da camarata onde dormimos, lá em cima; adoro esta calma, o melhor presente do Caminho; adoro regressar a este convívio com a Liliana e a Vanda A., o Jorge, a Cláudia e a alemã que nos acompanhou nos primeiros quilómetros da madrugada, a russa alta de sorriso simpático com quem nos cruzámos ontem em Caldas, e todos os outros peregrinos que, como nós, comungam desta experiência; adoro escrever sem estrutura definida, deixar fluir o que quer que encontre este momento. Por mais pensado que seja, sinto-me mais sincero com o que coloco nestas palavras, com o significado que lhes dou, o que dizem e o que deixam por dizer.
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A convivência em equipa tem muito mais que se lhe diga do que juntar num mesmo grupo pessoas diferentes e esperar que a máquina continue oleada. Conforta-me permanecer fiel ao que julgo ser o melhor, para o grupo mas também para mim.
Entretanto continuamos a cruzar-nos com gente boa; muitos portugueses, alguns com conhecimentos comuns como a Patrícia (que está a fazer o Caminho com a Ângela): recebo uma mensagem do Jorge a dizer que uma amiga dele está a fazer o Caminho encontrando-se na mesma etapa que nós! Procuro o perfil dela e constatamos que já a encontrámos! Exactamente à chegada a Padrón! E creio que estivemos sentados lado a lado, no chão, à espera que o albergue abrisse! E além disso, temos uma outra amiga comum – também Patrícia – que no ano passado fez, com a Sandra e comigo, este mesmo Caminho. Foda-se! É coincidência a mais! Ah, e já agora, a Patrícia trabalha no edifício ao lado daquele onde o António e eu trabalhamos!
Pádron, quinta-feira, 30 de Maio de 2019