Impressões do Caminho de Santiago

Dia 6

Pontevedra – Caldas de Reis

Os dias confundem-se na ligeireza com que nos acontecem, mas é precisamente quando não esperamos que o tempo passe e ele nos surpreende fugindo-nos, que somos mais felizes. É um contra-senso da vida as coisas boas serem as mais fugazes, escapando-nos por entre as distracções, mas um outro paradoxo supera este ao longo do Caminho: as coisas boas deixam-se transportar connosco no desarranjo dos dias e perdemo-las no tempo em que nos perdemos a apreciá-las

A Vanda G. disse que no Caminho repara em coisas que lhe escapam no quotidiano e o António, à chegada a Caldas de Reis, com uma cerveja e uma tapa na mesa, comentou que isto é duro mas o momento da chegada sabe muito bem. No que me toca, adoro tirar a mochila e lançá-la para uma cadeira, o peso a soltar-se das costas e o corpo elevar-se até a coluna endireitar, o mais belo desafogo nestas jornadas onde perco sete quilos (de carga, leia-se) de cada vez que completo uma etapa. A t-shirt colada ao dorso e o duche à espera que hidratemos o corpo e o espírito. Sabemos que a tarde está aí para nós por isso atrasamos a vida para gozar cada pedaço desta rotina. O ritmo biológico semi-invertido troca-nos as voltas: acordamos de noite e deitamo-nos de dia, como diz o António; pelo meio, caminhamos, ora juntos ora afastados, sem sombra de pecado para arrefecer a determinação em continuar. Não em chegar: unicamente continuar.

Outra virtude que o Caminho possui é mostrar-nos dentro de nós a felicidade que tantas vezes perseguimos fora: podemos andar acompanhados por amigos, conhecidos ou estranhos (nunca o são completamente), lado a lado com peregrinos de todas as nacionalidades, mas é no fundo de quem somos que encontramos a confiança e a força para enfrentar as adversidades, relativizar os problemas e libertarmo-nos dos obstáculos que boicotam a nossa afirmação.

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Hoje perdi a pedra que havia apanhado no primeiro dia, antes de começar a subir a Labruja. Não sei bem a razão pela qual a apanhei já que não tenho grandes sacrifícios a fazer nem pecados gigantes por que me penitenciar. Talvez tenha sido por tradição pois a pedra não representava para mim mais do que um calhau. Um calhau que fui lançando de mão em mão ao longo do Caminho fazendo fluir o sangue e com isso, impedir que as mãos inchassem. Não preciso de pedras no Caminho a não ser para exercitar as mãos.

Caldas de Reis, quarta-feira, 29 de Maio de 2019

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