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Fugir é Fácil. Sair é que é Difícil

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“Running away is easy, It’s the leaving that’s hard.”

Canta a voz rouca que marca a nova trend de vídeos TikTok que presta homenagem aos anúncios – ou bumps – da Adult Swim, um canal que partilha espaço com a Cartoon Network ao final da noite, com conteúdo para adultos – geralmente animado – mas que por qualquer razão são os jovens com menos de 30 anos que mais se parecem lembrar. A animação é “trippy”, transgressiva e surrealista, e deu-me a conhecer vários artistas e possivelmente popularizar o Lo-Fi, um género de música eletrónica geralmente associado ao underground.

O tema da emigração em Portugal segue a mesma linha de raciocínio, se é que o surreal siga sequer tal coisa. A minha vibe perante a emigração é a mesma que tenho com a grande parte de todas as outras coisas: no que cabe à decisão consensual do indivíduo, tanto me faz, todas as razões são legítimas, inclusive “porque me apetece”, mesmo que não seja de todo o ideal. Agora quando falamos de massa migratória e da atitude complacente, e ao mesmo tempo, cúmplice das elites portuguesas face a este fenómeno, a atitude muda totalmente de figura. Obviamente a culpa é do Passos, dizem vocês porque vos apetece. Contudo, não restam dúvidas que a mentalidade de austeridade permanece nas camadas sociais do nosso país, e hoje continuamos a ouvir o mesmo que se ouvia durante os discursos Passistas, o mais curioso é que já não vem só das camadas sociais, mas também dos lados ideológicos. O “aprendam a poupar” passou para “não se constipem” (ou o SNS não vos aguenta); o “vamos ter que fazer cortes” passou para “damos 125 euros agora uma vez e depois logo se vê” (na verdade não temos dinheiro para vos sustentar); “austeridade” evoluiu para “inflação”; o que teima a não evoluir, a não maturar, tipo Pikachu, é “jovens, emigrem!”.

Os jovens foram virtualmente ignorados no último pacote de ilusionismo de apoio às famílias face à inflação, provando mais uma vez a vontade do governo e Presidente da República em apostar no futuro de Portugal é nula. A camada mais velha é quem mais tem votado ao longo dos anos e, devido à sua faixa etária mais avançada, está em perpétua dependência de políticas sociais que se aproveitam da falta de literacia financeira para dar uns trocos em troca de votos. As condições para motivar os jovens a crescer (e nascer) em Portugal não existem, e assim a mentalidade que nasceu da crise económica marcada pela vinda da Troika continua em alta nos círculos políticos e respetivo eleitorado. Seja em que jornal for, volta e meia aparece numa coluna um excerto das 50 Sombras de Passos, que todos criticam, mas ninguém resiste em ser seu refém, e embora todos acusem o livro de retratar um mau exemplo de BDSM, continua um sucesso nas bancas e na mesa de cabeceira, impressionando o marido a ler, e são os jovens que apanham a notícia ficando chocados – mas estranhamente excitados – como quem descobre a coleção de pornografia soft dos pais.

O Pordata coloca a abstenção de emigrantes sempre acima dos 80-90% nos últimos anos em que houve eleições. Isto acontece por várias razões como a falta de acessos para votar onde o emigrante tem de viajar centenas de quilómetros para votar, agendas de trabalho que são incompatíveis com o momento de exercer o voto, inflexibilidade do local de trabalho para exercer o seu direito, e por simplesmente criarem raízes no novo país e darem mais valor ao que fazem com a família nesse dia do que ir para uma fila e ajudar a decidir o futuro de um país que deixaram para trás com bastante ressentimento. No topo disto, os 20-10% que votam simplesmente reforçam os resultados que se tem visto nas últimas eleições, não forçando mudança. Dos poucos inquéritos que se seguiram, questionando emigrantes sobre a intenção de voltar a Portugal, pouco mais de 20% dos jovens o pretendem. A maioria que pretende voltar já está em idade para viver confortavelmente ou aproveitar a reforma. Falta de oportunidade de emprego e salarial impede os emigrantes de voltarem para continuar a trabalhar, e Portugal, ao contrário do país acolhedor, não tem meios de reconhecimento do trabalho. Empresas estrangeiras em Portugal são quem melhor servem os jovens portugueses a nível de ambiente de trabalho e reconhecimento social e remunerado, mesmo que isso implique trabalhar feriados e aceitar jovens com um leque específico de conhecimentos e com ensino superior. Depois os emigrantes têm filhos, e imigrar torna a vida social destes num caos, além da grande chance de haver um enorme downgrade profissional e social. A realidade do elevador social de Portugal é preocupante, mas as elites teimam em augurar o Apocalipse em vez de pressionarem os responsáveis a criar políticas estatais e locais que permitam reajustar a atenção nos jovens. Vêm uma pessoa no precipício e ainda lhe dão razões para atirar-se. Governos com forte oposição são forçados a mudar para se manterem no poder e avançarem com as metas que prometeram. Tendo a camada jovem a fugir para o estrangeiro retira uma preocupação ao status quo que nos tem governado na última década, e com esta preocupação vai também embora a resistência e pressão por mudança – out of sight, out of mind. O mapa político do eleitorado português tem mostrado que os jovens votam diferente dos mais velhos e com menos escolaridade, estando também mais informados. Embora tenha sido a faixa etária que menos tem votado nos últimos anos, tem sido também a que tem crescido a participação, sugerindo que os jovens cada vez mais se preocupam com o estado das coisas.

As elites – os comentadores políticos, os próprios políticos, os colunistas, os grupos de pressão – tiveram anos para preparar melhor os jovens, vários governos passaram e sua influência permanece na sociedade civil, conquanto muitos oscilam no que cabe a reter a massa cinzenta. Servem de voyeurs em vez de tutores. É claro que a mudança não iria acontecer de um ano para o outro, e de momento está muito difícil apresentar resultados na direção certa, mas estão como cúmplices no seu adiamento. Não adianta de nada queixarem-se semana a semana que o comunismo e saloncomunismo permanece forte no país, ou que os jovens estão a “degradar-se” ou a tornar-se mais autoritários, quando a solução para o problema, vendida pela oposição, é mandar embora o poder cerebral com mais potencial para mudar o rumo. É asinino. Também não torna surpreendente o crescimento do nacionalismo que prioriza o país, mesmo que os seus pontos de honra sejam quase inteiramente populistas. Em Portugal, a direita radical tem tido dificuldade em apanhar o eleitorado do ensino superior, com o ensino secundário a fazer parte do corpo do seu eleitorado. Um eleitorado mais protecionista que também entra no mercado de trabalho mais cedo e com bastante insegurança. Partidos radicais populistas retiram proveito do pessimismo epidémico numa parcela do eleitorado.

É difícil culpar um emigrante por emigrar e pela condição do país. Seria como culpar a classe trabalhadora por não querer trabalhar. O problema está no sistema e naqueles que neste têm influência, mas pavimentam a estrada para o inferno com boas intenções, salteado com maus agoures. Portugal está mergulhado em pessimismo e a crença que melhores dias virão seria chave para alterar as perceções de ameaças futuras. Confiança abre portas que revelam estratégias para investir em recursos designados para atrair, destacando os liberais democráticos modos de vida como preferenciais. Todo o mundo ocidental colhe hoje os frutos que deixou apodrecer nas últimas décadas – cresce o autoritarismo, os discursos pessimistas dos líderes de grandes potencias são mais comuns – mas Portugal não está em posição geográfica nem demográfica para se deixar cair em depressão.

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Igor Veloso
De Águeda, cidade dos chapéus de chuva, perfeita para quem gosta do inverno e precisa de proteção do sol. Interessado na atualidade política, mete-se em vários projetos locais e humanitários.

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