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Escrever dá cadeia!

Uma análise comparativa às artes

Aqui há algum tempo, fiquei a admirar um quadro incrível e sanguinário e saltou ao meu pensamento: o que é que o pintor tinha na cabeça ao pintar este quadro, incrivelmente bonito e sanguinário? Qual foi o drive? A paixão? A obsessão? A opressão?

A partir daí a minha cabeça não parou.

A Arte é linda, mas o que vai na cabeça dos artistas para meterem cá fora tamanha beleza e tamanho confronto com a sociedade às vezes?

A partir daí as ligações foram claras.

Nos primeiros anos, nas cadeiras dos anfiteatros de direito da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, aprendi a liberdade. A liberdade de ser, estar, fazer, exprimir e os limites lógicos e jurídicos dessa liberdade. Aprendi com os melhores. A dream team do direito: Gomes Canotilho e Vital Moreira.

Ora bem, até onde vai a liberdade de pensar, sentir e exprimir? Até onde vão os limites jurídicos e morais? Até onde podemos ir?

1ª Arte – Música e Som

Um rapper parvo qualquer, ou um cantor qualquer, produz uma música que reproduz estereótipos de género, de etnia, é racista, incita à violência, mete uns acordes fixes. Bum! É um êxito! Pelo caminho mete um videoclip com umas mulheres despidas e uns homens giros e enche-se de correntes de ouro e brilhantes e toda a gente quer ser como ele ou ela.

Um escritor escreve esta música e publica num blog. Posso imediatamente associar vários crimes e nem preciso de abrir o código penal. Bum! Está preso!

2ª Arte – Artes Cénicas/ Teatro/Dança/Coreografia/Ilusionismo/Movimento

Montas um espetáculo incrível, de arte, luz, cor. Uma coisa bélica. Que traduz a guerra em que vives todos os dias. Tens repressões escondidas. Tens ilusões escondidas. Tem tudo tão escondido que essa repressão vira a maior perversão e pum! Um espetáculo incrível com o mais recôndito da tua mente! Um agressor, um violador que expressa através da luz e da cor!

Um escritor escreve sobre repressões, sobre perversões, sobre desejos e até sobre sentimentos. Pum! Está preso!

3ª Arte – Pintura/Cor

Olha para um Guernica e achas: o génio! Compreendes o drive? Compreendes a motivação intrínseca? Compreendes a garra? Compreendes a raiva? Compreendes a inquietação?

Não. Na escola ensinam-nos a ler, fazer contas e no limite a compreender. Temos zero literacia visual e não estamos dentro do pintor.

Pintas guerra. Pintas destruição. Que te vai dentro, na alma, e é arte.

Um escritor, escreve guerra, escreve a destruição que quer causar e que sente, escreve o que vai na alma. Bum! Está preso!

4ª Arte – Escultura

Adoro escultura. Acho lindo. Incrível. Algumas afrontam-me na hora. A escultura, como qualquer arte, é o que a gente quer que seja para nós. O artista cria e deixa de ser dele, passa para nós.

Como qualquer arte, é uma manifestação exterior de sentimentos e visões. Como qualquer arte, reproduz a visão do autor. Esculpes um corpo de uma mulher nu. De um homem nu. A tua visão e proporções. Arte!

Um escritor, escreve que aquela mulher nua lhe parecia uma prostituta com quem um dia esteve, e fez isto e aquilo. Bum! Está preso!

5ª Arte – Arquitetura / Espaço

Grandes arquitetos. Grande beleza na boa arquitetura. Grandes artistas. Adoro olhar para o ar e ver edifícios bonitos. Vidro, metal, cor. Arte. Não colocou acessibilidades porque na cabeça do arquiteto tirava a arte da coisa e também, não são assim tantas as pessoas portadoras de deficiência, logo ninguém vai notar! Não é preciso colocar! Em prol da arte!

Um escritor, escreve na descrição do edifício que realmente a utilização não está prevista para pessoas portadoras de uma deficiência e por isso não há necessidade de acessibilidades, não vê uso. Bum! Está preso!

7ª Arte – Cinema / Audiovisual

Vamos começar por um filme. Pode ser o “7”. Podia dar 1000! Mais! Sanguinário. Brutal. Ameaçador. Brilhante. Arte! O que ia na cabeça e nas emoções do produtor? O que é que ele está a manifestar ou a comunicar? Arte!

Um escritor, escreve que quer matar, acabar, queimar… Bum! Está preso!

Jogo no campo da latitude e da longitude. No exagero também. Mas, pensar e escrever dá cadeia. Escrever sentimentos e falar sentimentos prende.

Sinta, mas não fale nem escreva sim? Vai-lhe dar problemas!

Ana+Bela Moreira

Chamaram-me MOOI no Ruanda quando fui voluntária por altura do genocídio. Hoje sou MOOI, sou FENIKS e sou BLOVETODAY. Sou Ana sou Bela e sou o que quero ser todos os dias. Nunca serei o que queres que eu seja. Recomendo-te o mesmo! Sê sempre o que queres ser e o que sonhas ser, porque só assim saberás ser!

One Comment

  1. Pois… são inúmeros os exemplos em que a perspectiva dos, como gosto de lhes chamar, “socialmentirosos” castra, a cada momento, a liberdade de ser de pensar e agir de forma diferente ao “convencionado”. Enfim, se sais “fora da caixa” ou és génio ou descompensado; gostaira de saber quem, raio, se acha dono da razão absoluta e determina “qual lápis colorido” o que pode, ou deve, ser um padrão de manifestaçaão ou comportamento! Nem foi nos bancos da faculdade (onde nem cheguei) que percebi o que a “liberdade” representa, é, e foi, “na pele” que as marcas, indeléveis, se juntam em mosaico dando-me a conhecer, acima de tudo, o respeito pelo outro e a responabilidade que a liberdade deve conter. Pois quem se não contém sou eu perante a pequenês, que o absurdo colectivo engloba, desde tempos imemoriais!
    Anabela Moreira bem haja!

    Cumprimentos,
    Marta Lobo

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