Emboscada

Sou do tempo em que se aprendia o mundo com as mãos. Então toquei tudo. Conheci com os dedos o sabor da terra e da chuva. Trouxe areia no cabelo, arranhões nos joelhos e a respiração ofegante de quem correu de encontro a todas as ousadias da meninice. Ergui castelos de areia e derrubei-os, desafiei o medo em casas assombradas, aprendi a Primavera pelo desabrochar das flores e os pássaros através dos ninhos que nasciam no beiral da minha janela. Sou do tempo das férias realmente grandes, longe do mestre-escola e perto da rua, com o chão debaixo dos pés a abrir-me o mundo. Sou do tempo em que o Natal começava a cheirar em Outubro e cheirava sempre a novo. Escrevi extensas cartas ao senhor das barbas brancas, num tempo em que ainda não tinha aprendido a culpa. Raras vezes satisfez os meus pedidos, julgo que por manifesta falta de tempo, mas tive a certeza de que os leu pois respondeu-me sempre, naquela caligrafia estreita que lembrava tanto a do meu pai.

Hoje tenho as mãos coladas aos ecrãs e teclados da modernidade e não sobram dedos para tocar a vida. O mundo ganhou novas velocidades e desaprendi a noção do tempo. Todas as manhãs acordo por engano, visto que é de noite ainda. Tacteio as paredes em busca de equilíbrio e dou por mim a céu aberto com uma compostura que me espanta. Às 09h estou no trabalho, funcional e competente, como exige a cartilha. A tarde costuma ser passada com igual funcionalidade, embora as pálpebras, pesadas, teimem em digladiar-se com uma ferocidade que comove. Não me intrometo. De vez em quando adio o combate com um café apaziguador. Nos dias que se seguem volto a enganar-me, e julgo que tem sido assim grande parte da minha existência adulta, um aglomerado de enganos certeiros e continuados.

Caí na armadilha dos dias com relógios e ponteiros, na armadilha dos dias de trabalho, fins de semana, férias, faltas, licenças disto e daquilo. Caí na esparrela das semanas, dos meses, dos anos, das divisões estéreis, a emboscada da rotina, das fórmulas de felicidade, dos seguidismos, das gavetas arrumadas. Às vezes venho à superfície respirar, mas custa. Os dias são normalmente difíceis, andar, falar, sorrir, dói. As tarefas mais costumeiras furam os ossos. Encarar os outros, tentar fatiar-me de forma a caber nessa gaveta na qual não acredito. Cultivar o regime terrível da trivialidade e da socialização estéril onde tudo o que se espreme é nada, e isso a doer-me. Dias banais, conversas superficiais, sorrisos a esconder os dentes e uma sensação de desamparo que me descobre e derruba os muros que vou erguendo em torno das emoções. Mesmo quando me julgo feliz lá se instala a tal sensação de desamparo que me apequena e fragiliza. E de repente um cansaço, uma sensação de porquê e para quê, a vontade de um abraço mais do que todos os gestos. Há qualquer coisa no abraço que é imensa e indizível.

Não sei quando me aconteceu este cansaço permanente, esta indolência perante tudo menos no empenho com que vou erguendo barreiras a proteger quem sou. Ah, o medo de ser inteira. Desaprendi a simplicidade e a infância. As crianças são hoje como uma língua estrangeira que vou descodificando aos tropeções, hesitante, de cartilha trémula na mão. Em contrapartida aprendi a medir palavras, a ajustar posturas, a conter gestos. As coisas pequenas deixaram de bastar-me, e a vida permanentemente em suspenso na busca da grande conquista, aquela que chegando deixa imediatamente de bastar. Entretanto cresce clandestinamente a insatisfação e é ela a advertir-me que não é esse o caminho. Ah quantos muros erguidos, e a suspeita permanente de que a felicidade se esconde ali, por detrás das pedras.

Por vezes, se baixo a guarda, sou traída por um golpe inesperado de ternura que desmonta por instantes a máquina. E eu que julgava ter desaprendido as lágrimas, dou por mim com os olhos aflitos, rasos de mar.

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