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Deixem a máscara revelar a verdade

As histórias que se seguem têm o alto patrocínio de uma vida em Mafamude

Entro no táxi. O senhor pergunta-me para onde quero ir. Mentalmente, controlo a fonética que me sairá da garganta. É que tenho de dizer Cédro e não Cêdro, se não quero que mais um taxista me encaminhe para o Bairro do Cerco, por erro de interpretação. Como se isso não bastasse, hoje, o desafio da fonética soma-se ao desafio de falar por trás da máscara e por trás da barreira transparente, que me separa do motorista.

Por isso, as três vezes em que repito a minha resposta transformam-se numa batalha campal, entre garganta, língua e dentes. Cédro. Bairro do Cédro. Alameda do Cédro. Mas pronto, vendo pelo lado positivo, é uma boa forma de treinar a pronunciação do destino.

Oh, espera lá! Há mais otimismo para apanhar por aqui. O homem diz uma alegada piada e eu não tenho de esboçar um sorriso falso. Quanta verdade há por trás das máscaras que o Governo nos obriga a usar! Quem diria? Aqueles que o espaço mediático acusa de falsidade estão a ajudar-nos a repor a autenticidade. E as provas de que os factos são tal como os vejo – através de lentes embaciadas à conta da máscara – sucedem-se, umas a seguir às outras.

À minha frente, na fila do Minipreço, está um bêbedo muito bêbedo. A funcionária da caixa começa a chatear-se. Para amenizar o desconforto, vira-se nervosamente para mim e para outra cliente. Eu cá, mantenho-me impávida e serena, sem entrar no joguinho de complacência. (Não é que a funcionária o veja, para lá da minha máscara. Por isso, não pode levar a mal. Mas a ausência de expressão está toda lá.)

Bêbedos, em geral, fazem-me impressão. Só quero que este, em particular, se despache. Portanto, quanto muito, poderia bater com o dedo indicador no mostrador do relógio. O problema é que estamos pandémicos e já não vou ao supermercado com esse e outros acessórios. Assim, resta-me confirmar que a máscara me salva da obrigação social de produzir mais uma expressão facial à altura da situação.

A outra cliente, infelizmente, não topa a vantagem. E, achando que sorrir até a testa enrugar não é suficiente, bate com a mão nessa mesma testa, enquanto abana a cabeça. Muito ao estilo daquele clássico anúncio do Totoloto. (Só um pormenor, antes de avançar: a DGS está farta de avisar que não devemos levar as mãos à cara. Muito menos no meio do supermercado, depois de termos andado a mexer em coisas e coisinhas.)

Feita a ressalva, importa referir que as reações da senhora alta, que ignora a DGS, não ficam por aqui: de seguida, a mulher curva o grande tronco e coloca as duas mãos sobre os altos joelhos, como quem já não pode com a dor de barriga que a gargalhada lhe está a provocar. Curiosamente, nenhum som sai daquela garganta. Talvez porque a mulher não quer chamar mais a atenção. Ou simplesmente porque não está a achar verdadeiramente piada.

Caso esta segunda hipótese venha a ser confirmada por meio de rigorosa experimentação científica – e, por razões egoístas, eu espero bem que seja – a conclusão será óbvia: fingir dá mesmo muito trabalho, nos dias que correm. Por vezes, requer, até, um esforço físico.

Assim, aqui fica um conselho: se acreditam que a covid-19 é uma oportunidade, esta é a vossa oportunidade para simplificarem. Deixem a máscara revelar a verdade. E tudo fará muito mais sentido.

Florbela Caetano

Ligar o rádio é a primeira coisa que faço ao acordar. E isso já diz muito sobre uma jovem adulta, no século XXI. Como se este desajustamento não bastasse, gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Trabalho no primeiro. Procuro formas de me manter ligada ao segundo.

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