Cresci e não dei conta

Cresci e não dei conta. É um processo silencioso este, sem preâmbulos nem rompantes. Acontece apenas.

A necessidade cada vez maior de ter a conversa em dia comigo. E, então, recolho-me. Muito.

Cresci e o mundo em volta apequenou-se, as pessoas, os lugares, até as estátuas outrora gigantes hoje do meu tamanho.

Acabaram-se em definitivo os super-heróis e o cheiro cortante a carne humana. A dúvida e o abismo em contra-mão, crescendo.

Aprendi que nem a alegria nem a tristeza estão à minha espera, antes caminham comigo desde o ponto de partida.

Aprendi que o medo é como o vento, está mesmo que não sopre. A própria felicidade é temor, susto, às vezes angústia, às vezes culpa.

Cresci, porque comecei a contar Os anos, não um a um mas em bloco, colocando na balança os que vivi e os que me sobram viver.

Aprendi a gostar de estradas curvilíneas e dias cinzentos, eles me ensinaram as linhas rectas e os dias de sol.

Aprendi a contemplar peles enrugadas, a senti-las debaixo dos dedos, mapas para vencer com mais facilidade os processos tortuosos da existência.

Gosto de olhos que sorriem (mesmo sem lábios), gosto de ternuras expostas (mesmo sob o véu do pudor).

Aprendi que a intimidade tem muito pouco que ver com o corpo e tudo que ver com a alma.

Aprendi a saborear palavras, a sentir-lhes o cheiro antes de as libertar ao mundo, porque elas abrem e curam feridas com a mesma eficácia.

Aprendi a força avassaladora do silêncio.

Aprendi que não faz mal a incerteza sobre o que sinto. Nunca fui boa a arrumar emoções.

Cresci e sei que nada do que é humano me é impossível e assim posso tudo, do mais grandioso ao mais miserável.

Aprendi que todas as minhas contradições são coerentes e toda a minha coerência é contraditória.

Aprendi que uma troca de experiências é tudo menos um embate, onde não há nem pode haver perdedores. Aprendi que o combate maior é sempre comigo.

Aprendi que nem todas as vitórias requerem plateias e que é na mais profunda solidão que as derrotas perfuram a pele.

Aprendi que a poeira do quotidiano requer mão firme e limpeza regular.

Aprendi que permitir-se é simultaneamente a mais difícil e a mais necessária das bravuras. Há urgências que não podem ser contidas nem adiadas.

Cresci e quero mais!

Descobri que o meu coração tem fome e ao invés de bater baloiça.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Dia da Mulher no divã

Next Post

Colette

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Os Loucos anos 20

Já todos passámos por esta fase. Os loucos anos 20. Não, não. Tenham calma, não vai haver nenhuma “aula” de…

Neste planeta

– Gostava mesmo de ir ao concerto, mas disseram-me que já não há bilhetes! Mais que a tristeza, notava-se…

Conan Osíris

Teve lugar no passado sábado a primeira semi-final do Festival da Canção 2019. Conan Osíris, com o seu tema…