Cinco Décadas de Cinema

Anos 50

Que inicio de década! 1950 foi um dos melhores anos com uma obra-prima e um filme muito bom, respectivamente: Eva, um dos argumentos mais bem conseguidos de sempre, e Nascida Ontem, o grande filme da carreira de Judy Holiday sobre a transformação de uma mulher. Dois enormes realizadores: Joseph Mankiewicz e George Cukor.

O Technicolor, o Widescreen e os blockbusters encontraram neste período o seu lugar na história: com David Lean aprendi a trautear a Marcha do Coronel Boggey em A Ponte do Rio Kwai, num final que só com a explicação do meu pai compreendi aquando da primeira visualização; do ano anterior, John Ford mostrou-me o primeiro western de que me lembro de ter saído “preenchido”, A Desaparecida, com John Wayne e Natalie Wood, num filme que deste então almejo ver no grande ecrã (ainda não aconteceu).

Os filmes são os meus filmes; não necessariamente os que figurariam nas listas dos melhores de sempre. Assim, um género que hoje não me fala mas que teve no cinema de série-B desta década o apogeu foi a Ficção Científica. Há quatro obras em que quase consigo reviver o fascínio de quando os vi, talvez pelo final da adolescência: O Dia em Que a Terra Parou de Robert Wise, O Planeta Proibido, A Invasão e o melhor: A Ameaça, creditado em 1951 a Christian Nyby, mas que, na verdade, se julga ter sido dirigido por Hawks. Um disco voador cai próximo de uma estação de exploração no pólo norte. Um ser anda à solta. É neste ambiente claustrofóbico que se enquadra este exercício refeito vezes sem conta pelas décadas seguintes.

Outro western que descobri nas catacumbas dos filmes perdidos da Fnac foi Shane, uma maravilha de George Stevens que em tempos foi um dos filmes da juventude do meu pai (herança inconsciente?). A Rainha Africana volta a trazer John Huston para primeiro plano e o melhor papel da carreira de Humphrey Bougart (mas não o papel da sua vida!), muito bem acompanhado por Katharine Hepburn.

Elia Kazan, um dos realizadores da minha vida, tem nesta década três exemplares da sua qualidade (qual deles o melhor?): Um Eléctrico Chamado Desejo, Há Lodo no Cais e A Leste do Paraíso. Se os dois primeiros ajudaram a construir uma lenda, Marlon Brando, o terceiro eternizou outra: James Dean. O cinema de Kazan não nos dá um mas muitos murros no estômago, e nós só temos que aguentar para mais tarde recuperar. São estes filmes que quebram barreiras. James Dean teve outro filme que me arrebatou nesta época: Fúria de Viver (o feliz título português de Rebel Without a Cause) espelhou aquela vontade visceral e inexplicável de revolta contra o mundo e a geração anterior, a busca por afirmação.

Billy Wilder assentaria como outro dos grandes e dois filmes seus deixaram-me pregado ao ecrã: O Inferno na Terra, filme de 1953 passado num campo de concentração, e Testemunha de Acusação, obra de tribunal de 1957. Há qualquer coisa nos argumentos de Billy Wilder que nos prende, sempre numa expectativa para descobrir onde é que a história nos vai levar. Um mestre!

Hitchcock não podia faltar à chamada: Janela Indiscreta, A Mulher que Viveu Duas Vezes, Intriga Internacional e a magnífica actuação de Robert Walker em O Desconhecido do Norte Expresso, revelam o realizador inglês em todo o seu esplendor (este último é um prodígio)

Ainda do cinema americano, O Grande Amor da Minha Vida mostra o génio de Leo McCarey refazendo um filme que o próprio havia realizado no grande ano de 1939. Sublime. Como também o foi Forças Secretas obra prodigiosa de Richard Fleischer e o último grande testemunho de Orson Wells (considerado também como o último filme negro): a Sede do Mal com a sequência inicial filmada num só plano. Imagino que tenha sido lecionada em muitas escolas de cinema pelo mundo fora.

Abrindo ao mundo, esta década viu explodir o cinema em todas as geografias: Satyajit Ray na India filmava A Balada da Estrada (Pather Panchali), o primeiro filme sobre a vida de Apu; em França três filmes ficaram dessa década: As Diabólicas, um magnífico exercício de suspense de Henri-George Clouzot, Os 400 Golpes, o expoente da Nouvelle Vague de Truffaut e Rififi, um filme negro “à Europeia” feito pelo excomungado para a Lista Negra Jules Dassin, que contém uma sequência de mais de dez minutos sem uma única palavra, e ainda assim carregada de suspense.

Neste carrossel desenfreado de palavras para nomear todos os filmes da década que enfeitaram a minha vida, guardei para a última volta a fina flor desta galeria: O Crepúsculo dos Deuses, a obra-prima de Billy Wilder (se não for grande o sacrilégio de selecionar uma), abriu com chave de ouro quando estreou em 1950, expondo na maravilhosa Norma Desmond (o papel da vida de Gloria Swanson) o lado obscuro dos bastidores da Sétima Arte; 12 Homens em Fúria é outros dos grandes filmes de sempre, todo ele passado dentro de uma sala de jurados, enquanto subsistir “uma dúvida razoável”. Kubrick lançava-se para a estratosfera com Horizontes de Glória, uma obra proibida em Portugal e em França, ao contar uma história de deserção no exército francês durante a I Grande Guerra, de um grupo de soldados enviados numa missão suicida.

Do mundo elevam-se o melhor realizador japonês (altamente discutível este epíteto), Yasujiro Ozu e a sua ternurenta Viagem a Tóquio, um filme que vi aquando da revisão da década da revista Sight & Sound, colocando a obra de Ozu como a terceira melhor de sempre. Bergman não podia faltar com a melancolia sueca de Morangos Silvestres: Victor Sjöström forma um retrato poderoso de um homem que no crepúsculo, questiona o valor do que viveu. De Espanha um mestre surgia para nos oferecer uma comédia de costumes estratosférica: Luis García Berlanga filma Bem-vindo Mr. Marshall, a história de uma vila que aguarda pelos americanos, que vêm com o dinheiro do Plano Marshall para um país que não havia participado na guerra (como Portugal). Por fim, o fecho da trilogia neo-realista de De Sica com mais duas maravilhas para acompanharem Ladrões de Bicicletas: Umberto D e O Milagre de Milão.

Nota final: uma descoberta apenas possível pelo torrent foi a do Cinema Soviético. Todas as idiossincrasias da propaganda comunista se mostraram incapazes de destruir a beleza que o tempo foi conferindo ao que, sem querer, se tornou na marca de uma época: A Balada do Soldado e Quando Voam as Cegonhas, duas obras puramente propagandísticas, mostram o ingénuo herói de guerra e o esforço das mulheres na rectaguarda. Um cinema de valor inquestionável.

Um exercício prazeroso, mas ingrato este de nomear os filmes da minha vida em tão pouco espaço. Fica de tal forma atabalhoado que nem sequer consigo acertar nas palavras para despertar alguma curiosidade. É o que temos e a opção de nomear vinte ou trinta em vez de desenvolver três ou quatro foi minha. Continuo convencido de ser a menos má, pois é impossível resumir os filmes que me guiaram, à cadência de quatro ou cinco por década.

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