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Cinco Décadas de Cinema

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Anos 40

Entrar na década de excelência do Cinema pede eficácia na construção de um texto que conte tantas horas de vida! Na década de 40, o Cinema encontrou-se, com o sonoro bem assimilado, as salas revestidas de magia, um conflito mundial a pedir à 7ª Arte o esforço de guerra e os géneros a resplandecer na sua diversidade.

Um filme acende-se antes de todos os outros, não necessariamente o melhor: Corpo e Alma, o filme dos filmes sobre boxe (que me levou a amar os filmes sobre pugilistas muito antes de apreciar o desporto) e uma obra de culto de Robert Rossen, que em 1947 mostrou a qualidade de John Garfield, malogrado actor que viu a carreira amputada ao ser incluído na Lista Negra. Rossen viria a filmar a adaptação do romance vencedor do Pulitzer A Corrupção do Poder no final da década, outra obra icónica e que desfilou no role da minha juventude.

Se a Lista Negra marcou uma época obscura nesta década tão brilhante, igual epíteto catapultou-a para a eternidade, raptando do francês o termo que talvez melhor defina a arte que então se fazia: o Film Noir. Corpo e Alma pertence ao género, como muito do que melhor se fazia. Muitos entraram sem pedir licença nas noites da RTP2. Em linha de montagem: O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes (icónico), Pagos a Dobrar de Billy Wilder (genial!), O Terceiro Homem (sublime) de Carol Reed, Mentira! (até ao fim!), Difamação (perspicaz) e Rebecca (gótico) de Hitchcock, Relíquia Macabra de John Huston (o início), À Beira do Abismo de Howard Hawks (obscuro) e Casablanca. A obra de Michael Curtiz merece algumas linhas: filme negro e romântico por excelência, terá talvez um dos argumentos mais limpos, equilibrados e bonitos da História do Cinema. Quiçá terá beneficiado daquele factor que não se explica mas que no final resulta em pleno, como Bergman e Bogart. Este último marcou o género (é o protagonista dos três últimos filmes da lista) tendo definido o padrão do detective que marcou a imagem e os herdeiros do género, com Sam Spade, primeiro, e Philip Marlowe, depois.

John Huston bisa nesta década de estrelas. Depois de Relíquia Macabra a abrir, realizou, no crepúsculo, outro filme que me encantou pelo que mostra da natureza humana: O Tesouro de Sierra Madre granjeia-lhe os únicos óscares da carreira em 1948 (Direcção e Argumento).

Uma intrigante parelha de realizadores, o britânico Michael Powell e o austro-húngaro Emeric Pressburger, explodiu nesta década, criando alguns dos filmes mais icónicos daquele período. Ainda que pudesse debruçar-me sobre outros dois, houve um que me intrigou e que ainda hoje não consigo assentar o gosto. Acontece com obras que fogem aos parâmetros por que nos habituámos a avaliar o mundo e Sapatos Vermelhos é seguramente um filme que explora essa fronteira no dilema de uma bailarina dividida entre a obsessão de um encenador decidido em fazer dela uma estrela e a paixão pelo compositor de Sapatos Vermelhos, o bailado que ambos ensaiavam.

Capra regressa nesta década com o filme mais heartwarming que alguma vez vi: Do Céu Caiu Uma Estrela é o exemplo de como o público de uma época pode ser levado pelo contexto (pós-guerra) e, na fidelidade ao tempo em que vive, falhar completamente a perspectiva histórica. Felizmente o fracasso resistiu ao esquecimento e ressuscitou anos mais tarde para se tornar num maravilhoso hino à vida. Não fosse uma referência do então primeiro-ministro António Guterres numa visita ao liceu onde eu estudava, e não teria procurado esta obra naquele ponto em que a adolescente fúria de viver intersecta a curiosidade apaixonada pelo desconhecido, histórico ou porvir, na beleza de descobrir o mundo para além da nossa presença, antes de cá termos chegado, e na esperança do que nos aguarda.

David Lean, um outro mestre que voltará a estas notas nas décadas seguintes filmou com inigualável sensibilidade um Breve Encontro, história de amor tão datada quanto intemporal, mostrando que é possível descobrir romantismo entre o snobismo britânico. É um filme maravilhoso!

Não seria possível atravessar a década sem me deter no filme que em 1941 quebrou todos os cânones, da revolução do storytelling ao tema desafiador (caricatura de William Randolph Hearst, um magnata da época), passando pelo trabalho de câmara que obrigou a furar o chão do estúdio para que Charles Foster Kane, o Citizen Kane pudesse ter literalmente a perpsectiva d’O Mundo a Seus Pés. Orson Wells fazia história (e uns quantos inimigos).

O filme que me apresentou o preto-e-branco foi As Vinhas da Ira. Do trabalho de câmara de outro gigante, John Ford, saiu a adaptação do Pullitzer de Steinbeck que me espantou, andava pelos quinze anos, por sentir ser possível ser levado por uma obra sem cor, e ainda assim colorir tão bem o drama da família Joad durante a Grande Depressão. Do mesmo obreiro, um outro pedaço de ternura veio ocupar mais um cantinho do coração: O Vale Era Verde conta a vida difícil dos mineiros no País de Gales na viragem do século. Oportunidade para ver Roddy McDowall e a mais Fordiana das acrtizes, Maureen O’Hara.

As Vinhas da Ira

Fugindo do Cinema Americano, quatro âncoras mergulharam fundo nos alicerces da consciência. E ficaram. Com Os Rapazes da Geral, visto na Cinemateca com o Joaquim, um colega de trabalho e a minha irmã, numa tarde de sábado com direito a intervalo e tudo (são 190 minutos), Marcel Carné filma os bastidores do teatro em Paris do século dezanove através da história de um mimo, e da paixão em que ele se confunde. Não consigo converter a descrição em algo apelativo mas esta obra, filmada em dois momentos (foi interrompida devido à guerra) é qualquer coisa de portentoso!

Outro filme com a marca de Autor saiu da adaptação da obra de um dos meus escritores de eleição: o alemão Max Ophuls adaptou Carta de Uma Desconhecida, de Stefan Zweig, e o resultado foi uma noite de cinema na Casa da Achada, Mouraria, no mais europeu dos filmes falados em inglês.

Por fim, Itália! O grande país do Cinema Europeu e esplendor do Neo-Realismo. Rosselini começou, com Roma, Cidade Aberta e a sequência icónica com Anna Magnani, mostrando que a realidade revelada com toda a crueza, é também apreciável como objecto artístico. Vittorio de Sica continuou a corrente e três anos depois, em 1948, criava uma obra-prima de simplicidade e dureza: Ladrões de Bicicletas talvez seja o filme neo-realista por excelência. De Sica vai voltar na década seguinte para completar a trilogia. Estes filmes, feitos por estes dois artesãos, não se escolhem: saboreiam-se; e se tivermos sorte, fazem-se nossos amigos. Para a vida.

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António V. Dias
Tendo feito a formação em Matemática - primeiro - e em Finanças - depois - mais por receio de enveredar por uma carreira incerta do que por atender a uma vontade ou vocação, foi no Cinema, na Literatura e na Escrita que fui construindo a casa onde me sinto bem. A família, os amigos, o desporto, o ar livre, o mar, a serra... fazem também parte deste lar. Ter diversos motivos de interesse explica em parte por que dificilmente me especializarei alguma vez em algo... mas teremos todos que ser especialistas?

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