a person is casting a vote into a box

Cartazes à beira das eleições

2023 foi o ano de visitar, pela primeira vez, o litoral alentejano. Prefiro as suas terras interiores, o calor inclemente, os dias silenciosos e demoradas. Pois bem, descobri que a Zambujeira do Mar, em concreto, não é assim tão diferente. Uma vila pequena, simpática, adormecida numa relação com o mar e com os frutos que a natureza lhe reserva.

Nos poucos dias que por lá preguicei, fui descobrindo a azáfama diária que tanto me atraiu. A calma dos negócios locais, a deslocação para alguns quilómetros fora da linha do mar, a simpatia da população. Portugueses e nepaleses. Sim, a Zambujeira do Mar é constituída por uma comunidade nepalesa significativa, que dá vida a esta povoação pacata, ainda assim. Com grande parte da comunidade inserida na agricultura, entre estufas e campo, os nepaleses que vivem na Zambujeira do Mar já tinham erguido, à altura, dois pequenos negócios de mercearia. Outros membros da comunidade trabalhavam, também, noutros negócios geridos por gente da terra, e as suas crianças brincavam com outras da sua idade, num vislumbre do passado, das décadas de oitenta e noventa, das pequenas vilas à volta do Porto. Perfeitamente enraizados, sem nenhum tipo de discurso negativo por parte da restante população.

Entretanto, e para os mais distraídos, recordo que Portugal vai escolher o próximo Presidente da República em 2026. No momento de escrita deste artigo, os candidatos presidenciais estão espalhados por todo o espectro político; enquanto uns tentam balançar no meio do vértice, outros escolhem, claramente, a sua família política. Um destes candidatos é o atual líder do partido Chega, André Ventura. Foi um dos últimos candidatos a oficializar a sua intenção (aguardava a entrada na corrida de Pedro Passos Coelho), mas, como vai acontecendo em algumas situações, a sua abordagem política não passa pelos como “Isto não é o Bangladesh” ou “Os ciganos têm de cumprir a lei” surgiram em várias cidades portuguesas no âmbito do apelo ao voto do candidato André Ventura à Presidência da República.

Estas frases, mascaradas com a noção da liberdade de expressão, remeteram o meu pensamento para a Zambujeira do Mar e para a sua população, imigrante ou não. Por si só, esperamos todos, ou quase todos, que este tipo de discurso não se torne frequente nem se assuma como opinião de todos os portugueses. Esperamos, também, que as palavras do candidato, e o incentivo ao ódio em que estas resultam, não prejudiquem a integração social de todos os imigrantes neste país. Por fim, e numa nota mais pessoal, espero que a opinião pública não se mascare no medo provocado pela ignorância de quem difunde estas mensagens.

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