Bugatti 57 Atlantique – um charme inesquecível

Há carros que nos captivam a imaginação de uma maneira que não se consegue explicar. Seja o Ferrari 250 GTO, o Jaguar E-type ou o Lamborghini Miura, são carros cuja atracção e o desejo não estão ligados a uma justificação lógica, mas sim a um sentimento visceral que nos leva a pensar quantos bancos teríamos de assaltar para conseguir comprar um. Enquanto o 250 GTO e o Miura representam, respectivamente, o avô e o pai do supercarro, o Jaguar E-type representa sem duvida um dos mais bonitos carros de sempre. E apesar de não ser um supercarro como o Miura ou o GTO, nem tão bonito como o E-type, há um carro que tem de estar a par destes três. E esse carro é o Bugatti Type 57 SC Atlantique.

Apesar de não ter tido tantas como a serie 250 da Ferrari, os Type 57 da Bugatti tiveram varias encarnações. Os 57 apresentavam um motor de 8 cilindros em linha, com 3.3 litros de capacidade e 135 cavalos de potência, o que lhes permitia atingir uma velocidade máxima de 153 km/h. Existia também o 57T, com alguns melhoramentos no motor e que atingia os 185 km/h, algo estonteante para a altura. Seguindo-se o 57C, de Compresseur, uma versão de corrida do 57 com um compressor e 160 cavalos de potência, a versão S de Surbaissé (rebaixada) e finalmente a versão SC (Surbaissé- Compresseur). Isto para não falar nas versões Tank, que correu em Le Mans, e no 57S45 com um motor de maior cilindrada.

Dentro da família Bugatti, sempre houve uma grande rivalidade, apesar de saudável, entre pai e filho. Se Ettore Bugatti é o génio da mecânica, então, o filho, Jean Bugatti, tem de ser, sem dúvida, o génio do design. Em 1935, Jean apresenta o Aérolithe, tendo por base a mecânica da versão SC, que usava Elektron ou Duraluminium para os painéis do carro, o que fazia com que este carro fosse extremamente leve e tivesse de ser rebitado no exterior. Infelizmente, este concept desapareceu, sendo que o seu destino mais provável tenha sido a sua destruição para materiais durante a guerra, sobrando apenas uma fotografia a preto e branco.

No entanto e devido à insistência de certos clientes, a Bugatti cria, em 1936, 4 carros com o mesmo design de carroceria, Atlantique ou Aero Coupé. Quando comparados com o Aérolithe, a grande diferença era o uso do alumínio, em vez do uso do Duraluminium e do Elektron para os painéis da carroceria, mantendo, no entanto, a costura rebitada, que tanto charme trouxe ao carro e que inspirou tanto o Veyron como o Chiron. Dos 4 Atlantique criados, dois tinham a especificação SC e os restantes dois apenas a S.

O primeiro dos Atlantique, com a especificação SC, foi completado em Setembro de 1936 e foi vendido ao Barão de Rothschild. Em 2003, ganhou o prémio Concours d’Elegance de Pebble Beach, sendo depois vendido por cerca de 30 milhões de dólares ao Mullin Automotive Museum, onde reside actualmente.

O segundo, com a especificação S, foi completado em Outubro de 1936. Sabe-se que foi guiado por Jean Bugatti e usado como carro de demonstração para clientes. Infelizmente, não é visto desde Fevereiro de 1941, sendo que é geralmente assumindo que foi saqueado pelos Nazis como prémio e que algures durante a Guerra foi destruído para peças.

O terceiro, também com a especificação S, foi completado em Dezembro de 1936, e entregue ao seu dono. No fim da Segundo Guerra Mundial, é vendido ao carroçador Figoni, que lhe faz extensas alterações na carroceria, o que faz com que seja bastante diferente dos restantes Atlantique. Em 1965, é vendido a um entusiasta da marca que inicia uma reconstrução completa, sendo terminado em 1977, passando depois por vários donos. Em 2006, foi entregue a uma firma especializada para uma recuperação completa e, em 2010, foi largamente gabado no Concours d’Elegance de Pebble Beach.

O ultimo e talvez o mais conhecido dos Atlantique, foi completado no outono de 1937, sendo usado para testes de condução até fevereiro de 1938, quando é vendido a um entusiasta da marca inglês. Até 1988, vai passando por vários donos, altura em que é comprado por Ralph Lauren, que o restaura até à sua gloria de 1937. Em 1990, ganhou o Best in Show no Concours d’Elegance de Pebble Beach e, em 2013, o Best in Show no Concours d’Elegance de Villa d’Este.

Ora, não sendo os Atlantique um verdadeiro supercarro como o 250 GTO ou como o Miura, nem tão bonito como E-type, porque é que tem de estar a par deles? Porque provoca a mesma sensação visceral que os outros, porque é um carro que simplesmente fica bem ao lado dos outros três, ou porque simplesmente é um marco da história automóvel. E quem conheça a historia da Bugatti vai encontrar certos detalhes no carro que nos fazem lembrar os modelos mais recentes da marca, como os quatro tubos de escape traseiros, presentes no concept Galibier, a famosa barbatana que separa os vidros traseiros e frontais, presente de forma subtil no Veyron e de forma não tão subtil no Chiron, ou fiel ao espirito da Bugatti, o facto do próprio design do carro ter apenas como objectivo torná-lo mais rápido.

Seria nesta altura que eu vos diria o preço de um Atlantique, se bem que, neste caso, o preço é algo subjectivo. Sabe-se que o que está no Mullin Automotive Museum custou cerca de 30 milhões de dólares, que o de Ralph Lauren valerá entre 40 a 50 milhões e é geralmente aceite que o com a carroceria Figoni valha ligeiramente menos que os irmãos. Ficam a sobrar os perdidos que, a ainda existirem (há sempre a hipótese de terem sido emparedados durante a guerra numa qualquer cave ou celeiro), terão preços na casa dos 50-60 milhões. No entanto, mesmo que tenha os milhões necessários nunca ninguém irá vender o seu Atlantique, portanto, não pode seguir a tradição e leva-lo à pista de Le Mans.

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