fbpx
LifestyleTelevisão

Archie Bunker é fixe!

A RTP Memória está a passar, novamente, a série Tudo em família. Todas as noites os minutos são poucos para se recordar as personagens que a mesma nos oferece. É uma montra dos anos 70, onde um chefe de família se comporta como pensa ser o adequado. Racista, machista, ditador, xenófobo, homofóbico e tanto mais, é o retrato vivo do americano vulgar e ignorante que se considera a melhor bolacha do pacote.

Ele é o sustento da casa e a sua mulher, Edith é a dona de casa típica que nada sabe, mas é dotada de um enorme senso comum e poder de organização. O casal tem uma filha, que se apaixona por um polaco e estudante. Um must para o pai que odeia, homossexuais, judeus, pessoas inteligentes e todos os que não são como ele. Acede em que haja casamento, mas a convivência, na mesma casa, não é fácil. As conversas entre os dois homens são hilariantes e épicas!

Cada episódio versa um tema diferente, mas existe um denominador comum que é a teimosia galopante de Archie. Para ele é tudo como pensa que é e encontra justificação para tudo. E os casos da religião ainda são mais caricatos e interessantes por ter uma visão das escrituras como ninguém. O homem tem uma mentalidade das cavernas e vive satisfeito com a sua enorme e incoerente ignorância. Os outros, claro está, é que estão errados.

Os novos vizinhos, uma família como a dele, mas com um filho, chegam para perturbar a paz natural daquele bairro e da sua cabeça. Qual o problema deles? Nenhum, apenas não são caucasianos e isso é uma afronta para ele. Aliás, são donos de uma lavandaria que vai tendo sucesso e abrem mais outras, acabando por se mudar devido à riqueza que conseguem acumular. Um sucesso que não quer aceitar por entender que são inferiores.

O curioso é que o patriarca dessa família é como ele e entende que os brancos não são de confiança. Tudo se agrava quando o filho fica noivo de uma rapariga cujo pai é branco. As contendas e os disparates são os mesmos do vizinho, só que em sinal contrário. Uma perfeita delícia de riso e de nonsense que prova que a cor da pele é um detalhe sem qualquer tipo de importância. A estupidez e a teimosia não têm cor e muito menos credo.

Com ironia e leveza, temas complexos como o cancro da mama, a menopausa, o feminismo, a igualdade de género, os direitos humanos, as conceções políticas e tantos outros assuntos fraturantes, são vistos como uma espécie de pequeno percalço e não são vistos como dramas. Dores que são mostradas com alguma alegria e sorriso amarelo. A vida tal como é, em pedaços soltos e duros.

Archie nem se atreve a pronunciar certas palavras que considera ofensivas, como útero, menopausa, gravidez e sobretudo sexo. Um atrofiado de ideias que precisa de ser bem limpo e arejado. Em contrapartida o genro é o homem novo, mas também padece de algumas maleitas que precisam de ser ainda muito buriladas. A educação machista e fechada demora tempo a ser lavada e as marcas persistem no tempo.

A vida vai-lhe dando umas chapadas, mas, mesmo assim, ele insiste em ser igual a si sem reconhecer que aquilo que defende já está ultrapassado. Envelhecer é muito desagradável e os anos deixam marcas fortes. Contudo a sua mulher, a que parece tonta, mas é sensata, ameniza esta dor que nem todos conseguem aguentar.

Ela é o suporte, a alma, a força que une todos e que repara os danos que o dia a dia vai fazendo. Sabe que a filha terá de deixar o ninho e que outra etapa se avizinha, a mais suave, a do papel de avó, que lhe trará uma nova juventude. Ela e a mulher multifacetada e disponível que o homem ainda não entendia.

Tempo de mudanças, de alterações de fundo, de mentalidades que se renovam e de abertura para conceitos que eram bem complexos para se pronunciar.  Passagem de testemunhos, amizades, aprendizagens e amores. Tudo o que compõe uma sociedade que vive num bairro onde mora a saudade.

Glória, a nova mulher, a que se debate contra os preconceitos e as injustiças, mostra o seu lado bem humano e frágil numa dança contínua de emoções e de sentimentos. A busca de equilíbrio, a tão desejada forma de encontrar a felicidade, será uma utopia que levará adeptos mil até ao final. Na verdade, há sempre lições a retirar de tudo o que possa acontecer. Cada casa é um mundo e esse mundo é sempre precioso para os que residem nesse espaço.

Michael, o genro, é apelidado de Cabeça de Abóbora por não partilhar dos mesmos disparates do sogro. Tudo o que ele possa dizer está errado ou não faz sentido. Há sempre maneira de refutar as suas palavras através da forma mais ridícula ou fora do contexto. Contudo, mesmo sendo o homem novo, os tiques e os preconceitos ainda estão muito enraizados. Debate-se com os seus demónios e cada dia é uma nova aventura que não tem par.

Passados anos, a série retrata os anos 70 do século XX, verifica-se que pouco mudou e que o Archie afinal não era tão bota de elástico como se pensava. Entre altos e baixos, entre desgostos e alegrias, o americano comum da classe trabalhadora, que trabalho sempre foi honrado para ele, estancou numa espécie de bolha temporal e assim prefere ficar. A mudança pode assustar e a sua aceitação é como a ferrugem, leva muito tempo a acontecer, mas quando se instala, custa a sair.

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Botão Voltar ao Topo
%d bloggers like this:

Adblock Detectado

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.