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As Bolas Pretas

Ainda todos se recordam de como, há um tempo, as páginas sociais foram inundadas por notícias e curiosidades sobre aquelas bolas pretas depositadas no Los Angeles Reservoir poucos dias antes. O caso foi apimentado pela presença do mayor de Los Angeles e por imagens um pouco extravagantes, como extravagante parece ter sido aquela solução. Nessa altura, ouviram-se comentários como: “Vão matar a fauna aquática”, “É para impedir os desportos aquáticos”, ou o banal “É para poupar água”. Sim é, as bolas reduzem a evaporação em 85 a 90%, é um facto, mas é mais do que isso.

Começo por adiantar que Los Angeles, sendo uma mega-metrópole com mais de 10 milhões de habitantes e uma área que norte a sul estende-se por bem mais de 100 km. São dimensões urbanas pouco perceptíveis aos europeus. Numa tal área, não existe um Los Angeles Reservoir, não há um reservatório de água, há 19! Espalhados pela área metropolitana, são no conjunto o garante da subsistência no que à água para a população diz respeito. O reservatório que se viu nas notícias é o Van Norman Reservoir, localizado em San Fernando Valley, a norte do centro de Los Angeles. E foi tão só, “apenas” o quarto reservatório a ter a sua superfície coberta por estas bolas pretas. Portanto o mito da nova e revolucionária solução fica desfeito.

A ideia surgiu devido a um grave problema ambiental e não devido à seca extrema que assolava todo o sudoeste norte-americano. Em Dezembro de 2007 foi detectada a presença de bromato, composto químico cancerígeno para o ser humano, no Ivanhoe Reservoir, reservatório fundamental por servir a área conhecida como Downtown L.A. Inicialmente a solução encontrada passou por esvaziar todo o reservatório, de forma a eliminar a contaminação. Investigações concluíram que poderia ressurgir, uma vez que este composto é o resultado de alterações químicas provocadas pelos raios U/V, sempre altos numa cidade com mais de 300 dias de sol por ano, e exponencialmente mais fortes devido ao aquecimento global. Assim pensou-se em cobrir a totalidade de superfície do reservatório com algo que os reflectisse. Uma pouco ortodoxa solução era a mais barata e como dava garantias… Em 2008 o Ivanhoe Reservoir foi coberto com as tais bolas pretas.

Desde então o controlo da qualidade das águas, bem como os níveis de evaporação, deram maior força a esta solução que foi expandida a outros dois locais, o Elysian Reservoir (pouco a norte de Downtown L.A.) em 2009, e o Upper Stone Canyon Reservoir (montanhas a norte de Santa Mónica) em 2012. Esta situação tornou-se agora mediática pela maior seca dos últimos cem anos que a Califórnia atravessa, felizmente amenizada nos últimos meses por influencia das chuvas provocadas pelo fenómeno El Niño. O facto de as bolas muito evitarem a evaporação, levou os meios sociais a apresentarem esta como uma solução para a seca. Errado! O maior benefício é mesmo o da qualidade da água. As bolas evitam também o eterno problema das aves e seus dejectos e lixo vário e desta forma, sem maiores infraestruturas como centrais de tratamento, coloca a água de Los Angeles dentro dos rígidos padrões de qualidade exigidos pelas autoridades sanitárias americanas, havendo por isso poupanças no erário público que ascendem aos milhões de dólares.

Como curiosidade, cada bola tem 10 cm de diâmetro, é feita com polietileno e o interior é enchido com ar e exactamente 205 gramas de água, de modo a que fiquem ligeiramente submersas e não voem com o vento. Têm uma durabilidade de 10 anos, findo os quais serão retiradas e recicladas. Cada custa 36 cêntimos de dólares, pelo que esta operação teve um custo um pouco abaixo dos 35 milhões de dólares, face aos estimados 250 das soluções mais tradicionais.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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