América do Sul – Entre Dois Países – Parte I: Argentina

Começo a acreditar ser uma batalha perdida esta travada contra as expectativas: mais vale assumir que dificilmente conseguirei deixar de as alimentar antes de experienciar o que quer que seja – um filme, um encontro, um trabalho ou uma viagem…

Na Lua-de-Mel, viajámos pela América do Sul: três países – Argentina, Chile e Brasil – em 19 dias o que, descontando os tempos dos voos (foram 10!) mais os períodos de adaptação, se traduzem talvez em duas semanas.

A minha grande expectativa com a Argentina vinha da Literatura – Cortázar e Borges à cabeça (e aos pés também, visto não conhecer qualquer outro autor local, mas o que conhecia destes dois – 12 livros de Cortázar e 4 de Borges – dava para vários doutoramentos) –, de algum cinema (sobretudo Hombre Mirando Al Sudeste e O Segredo dos Seus Olhos) e das memórias dos últimos anos dourados da carreira de El Pibe (a vitória da Taça UEFA de 1989 diante do Estugarda e o Mundial de Itália, no ano seguinte).

A viagem distribuiu-se por três pontos no mapa de um país enorme e fascinante: Buenos Aires, Ushuaia e El Calafate.

Buenos Aires

Buenos Aires é uma cidade mais europeia do que muitas cidades do velho continente, como se a saudade dos colonizadores carregasse nos traços que a Europa começa(va) a perder, um pouco como um romance de época escrito por um autor actual. Uma cidade fascinante onde até a fisionomia das gentes me surpreendeu (por ignorância) de tão parecida com a dos europeus (sucessivas vagas de imigração ajudaram a fazer da capital argentina o que ela é hoje).

História e Cultura

A ditadura, corporizada na visita ao ESMA saciou o apetite (crónico) pela história da América do Sul e das suas ditaduras, tal como o Museu Evita, numa das casas onde residiu a fundação com o seu nome, que entra directamente para a lista dos pequenos museus a não perder (lista essa que já conta com 12 espaços, de Londres a Paris, de Amesterdão a Lisboa, de Viena a Buenos Aires, de Dublin a Santiago do Chile (na parte II desta artigo)…).

As livrarias foram um ponto obrigatório, tendo El Ateneu – Grand Splendid como cartão de visita, para no final, a Librebía de Avila, uma antiguidade no centro da capital, se confirmar para mim no espaço por excelência onde nos sentimos bem junto dos livros. Aliás, esta viagem, e Buenos Aires em particular, marcou o nosso – da Sofia e meu – desbloqueio para ler em espanhol – Julio Cortázar y Cris, da escritora uruguaia Cristina Peri Rossi, deu o pontapé de saída. Ainda na literatura, tivemos a sorte, na segunda passagem pela cidade, de coincidir com a Feira do Livro de Buenos Aires… raios nos fodam mais a perdição dos livros, que tivemos que acartar com eles o resto da viagem – Las Cartas del Boom, que a Sofia havia visto na Grand Splendid não estava editado em Portugal (pouco depois do nosso regresso foi editado cá…), e Primavera con Una Esquina Rota, de Benedetti, obra que há muito desejava ler, foram as compras que juntámos ao que já havíamos comprado (ou haveríamos de comprar – a Sofia “atacou” Isabel Allende). Ler no idioma original aproxima-nos tanto da voz interior de quem escreve – Benedetti, que havia lido em português, pareceu-me mais apurado, pese as visitas ao tradutor para apanhar (parte das) expressões.

O MALBA, o museu de arte Latino-Americana que é a praia da Sofia, mas não a minha, é um daqueles lugares que visitei por estarmos juntos, e nessa condição, fazer parte a entrada no mundo do outro. Definitivamente as artes plásticas não são a minha praia, mas teria lamentado grandemente caso tivéssemos passado este lugar da capital argentina.

As Gentes

Além da fisionomia, a ideia de cidade insegura que eu levava na bagagem rapidamente se desfez. Avenidas largas pejadas de gente e de História, ensaiar o espanhol que ali é diferente Cho/Yo Vos/Tu e toda uma forma de estar porteña a que nos habituamos, mas que rapidamente sentimos não ser Espanha (nada mesmo) mas toda uma outra coisa, uma outra riqueza, de tango e de influências, dos passeios nas ruas (muitos quilómetros percorridos) por lugares históricos como a Praça de Maio e a Casa Rosada ou o Bairro de Boca, o banco da Mafalda de Quino ou o Cemitério de Recoleta ou os cafés – sempre os cafés e a impressionante marca histórica que cunham na vida de uma cidade – La Biela, onde tratámos de almoçar no primeiro dia, como Borges e Bioy Casares terão feito tantas vezes muito anos antes, e o Tortoni, onde o Armando nos levou na penúltima noite na cidade, e que de outro modo nos iria escapar.

O Armando, primo do pai da Sofia, foi para a Argentina muito novo, no início da década de 50. A família recebeu-nos primorosamente, com uma simpatia que tratou logo de nos acalmar a estranheza que é chegar a um lugar estranho, e com as dicas sempre preciosas de quem conhece o lugar muito para lá dos guias e passeios turísticos. Com a Carmen, a mulher, o Armando e a Guadalupe, filhos, o Martin, genro, o Agustin, o neto mais velho, o Ricardo, pai do Martin, e mais família, partilhámos um churrasco argentino em casa da Guadalupe e do Martin, o calor humano que tantas vezes fica à porta da vida de turista, mas que ali aconteceu para nos enriquecer e trazermos desta viagem um outro lado das gentes porteñas – o lado intimista, por trás dos retratos que a História ou a Literatura nos deixam.

Ushuaia

Nem sabíamos bem o que visitar à partida para a Lua-de-Mel. Confiámos no plano feito pela agência – Leavingtours, impecável! – e deixámos cair (com muita pena minha) Montevideu, a cidade tristemente retratada por Benedetti e palco do inesquecível A Trégua, mantendo os dois pontos mais a sul da Argentina – Ushuaia e El Calafate – que até à véspera, com a preparação do casamento, nunca nos preocupámos em saber qual era qual, o que visitar em cada lugar, etc…

Ushuaia fica no fim do mundo. Terra do Fogo que eu levava na memória da biografia de Magalhães escrita por Zweig, lida um ano antes. Cidade costeira entalada entre o mar e a montanha, e que “fecha” a cordilheira dos Andes no extremo sul da Argentina, Ushuaia parece recuperada para a vida pelo turismo depois de ter estado perdida por décadas. Andámos no comboio do fim do mundo, visitámos o parque nacional (para mim, talvez tenha sido o lugar mais bonito de toda a viagem!), passeámos de barco pelo canal Beagle, e caminhámos pela rua principal, onde a Sofia me ofereceu outro livro de Peri Rossi, Los Amores Equivocados, terminado ainda durante a viagem.

Com paisagens lindíssimas, este lugar talvez tenha sido aquele (além das duas capitais visitadas), que senti mais ter a ver comigo. A montanha e o isolamento, o mar que não é para banhos mas para contemplar, a ideia de Fim do Mundo, para um Europeu habituado a estar no centro do planisfério de cada vez que consulta um mapa, um sitio pequeno que cresceu desordenado entre o os picos polvilhados de neve em Abril e um mar tristemente cinzento; e contudo: a cidade vibra numa alegria e energia que lhe assenta como instinto de sobrevivência para se aguentar naquele canto inóspito do planeta, um dos mais próximos (senão o mais próximo) da Antártida.

Também aqui a História marca fortemente a sua presença, ou não se chamasse o Aeroporto local Aeroporto Internacional de Ushuaia “Malvinas Argentinas”. Numa visita a Portugal, o Martin já nos havia contado ser uma espinha entalada na história do país. Por Ushuaia, decerto pela proximidade às ilhas disputadas com os britânicos, pululam grafitis e referências às Malvinas, como para não deixar cair no esquecimento o que o mundo já esqueceu – que as ilhas pertencem à Argentina e que Falklands forma uma designação quase apócrifa.

PS: O hotel, elevado na encosta com vista sobre a cidade e o canal, foi melhor do que o que os nossos sonhos mais literário-românticos poderiam idealizar para aquele lugar.

El Calafate

A Sofia desejava ver o glaciar. Eu também, ainda que com Buenos Aires e Ushuaia, a minha viagem estivesse feita. Engano (ou ignorância). Nunca viagem alguma está completa. Nunca.

El Calafate, um lugarejo perdido no meio da Patagónia, trouxe-nos uma experiência diferente – jantámos numa gruta à beira do lago Argentino, junto do qual assistimos ao pôr-do-sol, com temperaturas (como já havíamos experimentado em Ushuaia) próximas de 0ºC, comemos o El Calafate para, de acordo com a lenda, lá voltarmos um dia, e partimos de barco no dia seguinte, para visitar alguns cerros (cá de baixo), novamente caminhando por autênticos postais em ponto real, com o barco a levar-nos até ao sitio mais esperado: o Perito Moreno.

O glaciar marca-nos pela imponência, quase como se somente em silêncio pudéssemos sentir e apreciar toda aquela magnificência, a enormidade de gelo que se vai desfazendo, recuando sob a bigorna do tempo, ou dos tempos, o dos relógios e o atmosférico, mas que neste ponto da história em que o visitámos, ainda nos oferece uma experiência que nos faz sentir pequeninos.

Esta sensação de pequenez já a havia sentido na aproximação a Ushuaia, quando do avião observei as montanhas inóspitas, os cumes andinos que “conheci” no Voo Nocturno, de Saint-Exupéry e no filme Olá Amigos! de Walt Disney, Saludos Amigos! no original, uma brincadeira entre animação e filme real que nos apresenta a América do Sul, e onde o voo nocturno, do autor de O Principezinho, é retratado num dos episódios.

Neste relato poupei os martírios passados nos aeroportos, os tempos de espera, os stresses perante a possibilidade de perdermos um voo, acartar com malas (e livros) por corredores e elevadores, e o cansaço (o bom) depois de calcorrear cidade e natureza, andar de barco, em museus, ruas, livrarias, e estar com a família, distante, mas família, numa proximidade capaz de vencer um oceano.

E com a Sofia, companheira de vida e de viagem, não poderia ter pedido melhor forma de iniciar esta nova etapa da vida a dois. Esta confluência de cenários – a minha curiosidade pela América do Sul, e pela Argentina em particular (que, com o Chile e o Uruguai, completam o meu El Dourado) e a ligação familiar dela a este lugar – tornou esta viagem ainda mais especial.

Talvez seja isto estar casado: ela caminhar mais do que gostava (e a um ritmo mais alto) e eu lutar toda uma vida dentro de museus pelo momento em que a pintura acenda qualquer coisa cá dentro, como há muito um filme, um livro, uma paisagem ou a Sofia já o fizeram.

Próxima Etapa: Parte II, Chile

[Este texto não está escrito segundo o novo acordo ortográfico]

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