As esplanadas são reflexos animados da sociedade em cujas mesas se sentam rostos que, entre distrações, cigarros e olhares cruzados, contam histórias.
Nem o som do mar ali a bater no muro abafava as conversas da esplanada. Vida feita palco.
À minha esquerda, dois homens na casa dos noventa anos. Um, alto, bem vestido, de bengala preta, culto e sereno. O outro, baixo, magro, pele crestada do sol, ex-pescador. Patrão e empregado, percebia-se. Amigos, também. O mais baixo contava histórias de pescarias que o outro conhecia bem, porque as ia completando. A certa altura, começou a cantar uma canção sobre o mar. Ninguém achou estranho. Nem sequer poético. Apenas natural.
À minha direita, duas jovens discutiam sobre as compras e o orçamento da casa que partilhavam.
Atrás de mim, um homem e uma mulher com cerca de cinquenta anos, falavam sobre os amigos em comum. Ela criticava a arrogância de certo indivíduo, cujo nome mencionou em voz bem clara. Reconheci-o. Mentalmente, confirmei o diagnóstico.
São assim as esplanadas: uma espécie de teatro espontâneo. Sentamo-nos, pedimos um café e levanta-se o pano do palco. Em cena, todos nós. Descontraídos, desarmados, e, muitas vezes, mais ruidosos do que julgamos.
Talvez seja o café que solta a língua. Talvez seja o convívio. Ou, simplesmente, a descontração. Sentimos uma certa ilusão de privacidade ao ar livre. Falamos alto como se as palavras se evaporassem como o fumo dos cigarros e ninguém escutasse. Engano. Escuta-se muito. O resto adivinha-se.
Agimos como se estivéssemos no sofá de casa, esquecendo que o vizinho da mesa ao lado está a um ouvido de distância. Às vezes, arrependemo-nos. Desabafámos sobre o chefe que, afinal, estava sentado duas mesas atrás; ou comentámos, de forma imprudente, a nova namorada de um amigo e deparamo-nos com a anterior ao nosso lado.
A diversidade humana das espanadas é sublime. Solitários com livros abertos e olhares perdidos, reformados com histórias que ninguém pediu, casais em silêncio confortável (ou não), grupos em tertúlia sonora, alguém com um cão que tenta lamber-nos os pés.
Nem todas as esplanadas nos chamam da mesma forma. Umas convidam com bancos gastos e preços suportáveis, outras afastam, o café custa tanto como um almoço e reina mais silêncio do que conversa. A esplanada também é um filtro da sociedade. Há uma distância entre quem ocupa o espaço, quem nele trabalha e quem só passa ao lado. Hierarquias sociais, económicas, estéticas. Mesmo assim, vamos lá. A rua parece sempre mais livre do que muitas salas com ar condicionado.
Aliás, a esplanada é uma verdadeira instituição do quotidiano e tem história. As primeiras, modernas, surgiram em Paris, no século XVII, quando se começaram a instalar cadeiras e mesas nas ruas em frente aos cafés. Estar, ver e ser visto tornou-se num novo luxo urbano. Não se tratava apenas de tomar café, mas de ocupar o espaço público com tempo e presença. Esta invenção viajou para o sul da Europa, sobretudo por aqui encontrar clima propício e espírito compatível. Em Portugal, as esplanadas ganharam alma própria. Tornaram-se refúgio, extensão da casa, da praça, da cidade. Lugar onde se passa, se fica e, muitas vezes, se vive. Será possível, em Lisboa, sentarmo-nos na Brasileira e não imaginarmos Pessoa a observar os transeuntes? Ou no Martinho da Arcada sem pensar nas tertúlias antigas? No Porto, as esplanadas da Ribeira ecoam vozes de várias línguas que se cruzam. Em Coimbra, as do Largo da Portagem ou da Alta são janelas abertas sobre gerações, onde, ainda, os estudantes discutem tudo e nada, entre cafés e sebentas.
E o mais interessante é que este cenário não exige céu limpo e calor ameno. As esplanadas aguentam o vento do outono, as mantas do inverno, os aguaceiros primaveris e o sol tórrido do verão. Independentemente da meteorologia, lá estamos estoicamente sentados, a conversar entre chávenas, casacos e olhares cruzados.
Apesar da leveza conferida por estes espaços, não os endeusemos. Às vezes, o ruído é insuportável, há discussões embaraçosas, telefonemas em voz alta que nos constrangem, turistas que não distinguem o encanto da invasão. Outras vezes, a solidão ocupa uma mesa inteira, só há chávenas frias sem companhia. A cidade também é isso. Não há lugar onde a vida se apresente sem nódoas.
A esplanada é, no fundo, um retrato condensado da cidade. O tempo abranda e os sotaques misturam-se. Entre cadeiras de plástico e guardanapos a voar, tornamo-nos mais livres, mais informais.
Da próxima vez que se sentar numa esplanada, ouça. Com o ouvido da curiosidade de quem aprecia a comédia, o drama e a poesia do quotidiano. Descobrirá, certamente, que, entre cafés derramados e olhares cruzados, há sempre uma história a acontecer. A sua também.
E o leitor, que histórias já ouviu — ou viveu — numa esplanada? Partilhe nos comentários ou sente-se à próxima mesa e escute.
Nota: este artigo foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.
Belo. As histórias nascem onde menos se espera!