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Crónicas

“Ai és tão linda” e outras riquezas

Encontrámo-nos naquele restaurante, ao fim de vários meses de contacto on-line. Almoçámos e,  enquanto tomávamos café, ele disse, olhando-me nos olhos: és mais bonita do que na foto. E eu acreditei.

A verdade é que já é difícil acreditar nos elogios. Não por uma questão de humildade ou falta de confiança, mas porque são raros os comentários legítimos e desinteressados. Acredito que seja transversal a homens e mulheres, mas tenho em crer que as mulheres sofrem muito mais com as iniciativas dos pseudo-conquistadores.

Começando pelo princípio, o sonho de qualquer mulher é, obviamente, ouvir de um homem: ai és tão linda! Não sei se sou só eu, mas imagino logo uma banda de música popular, com acordeão e pífaro e tal. Rio-me, porque não me é possível ter outra reação. A menos que se seja muito mal conjuntada, qualquer mulher já ouviu isso, legitimamente ou não, umas boas vezes, que isto, citando um amigo meu, há mercado para tudo.

Não sei mesmo o que se responde, porque nesta fase da vida, já sabemos se somos bonitas, se o formos, ou se não. Gostos à parte, saberemos com alguma segurança e fiabilidade, realçar os nossos pontos fortes, sejam eles o olhar, os lábios, as mãos, o porte ou o riso, bem como reconhecer o rabo que excede as nossas expectativas em tamanho, ou o peito que nunca é como queremos, ou aquela perna torta, ou mesmo aquele sinal que logo por azar ficou ali plantado. Ou seja, já nos conhecemos. Somos realistas.

Se for um elogio óbvio, ai que lindos olhos azuis, não traz nada de novo. Se for desfasado da realidade, como um és a mulher mais bela que já vi, ninguém pode sequer levar em conta.

Portanto, quando alguém vem, a despropósito, encher-nos de elogios, não sabemos muito bem o que fazer, se devemos começar a preparar o discurso da paz do mundo para a gala das misses, tal a excelência do nosso ser, ou se nos desdobramos em gratidão para com o moço e ficamos logo estupidamente apaixonadas (cá está a influência musical outra vez).

Detectamos um elogio em falso, uma lisonja,  de imediato. Sobretudo se vem com marcas de copy/paste feito das outras 830 mulheres que o ridículo galanteador elogiou antes, achando que presta um excelente serviço social, via incremento da auto-estima feminina.

Há dias, chegou-me uma mensagem que recebo com uma frequência anual. Percebi isso ao ler o histórico, a frase repete-se sem tirar nem por. Talvez surta algum efeito com alguém, porque a continua a usar. Ou então não, mas o moço insiste. E diz mais ou menos isto: não leves a mal, mas gostava de te conhecer melhor.  Bem, lá coerente é ele, continua a pensar igual em todos os Dezembros. Em mim, só em mim. Que querido. Talvez seja o Dezembro da sua vida, tenha isso o significado que tiver (embora não me pareça nada de bom…).

Contudo, do elogio, ainda que sensaborão e desprovido de sentido, ao atrevido piropo, vai muito pouco. Percebo que seja difícil acertar no comentário certo, até porque o mesmo conjunto de palavras pode ter efeitos contrários dependendo de quem vem ou do tom em que é dito. Um elogio não tem que ser recebido com desconfiança, há-os perfeitamente inócuos, claro. Mas também não têm que significar gratidão eterna. Às vezes, simplesmente, não é importante, pela mensagem ou sobretudo pelo emissor.

Claro que há gente com muito amor (chamemo-lo assim) para dar. Mas o desespero deve toldar-lhes os nervos, coitadinhos, como os cantores dos programas da televisão, e não há necessidade que lhes aguce o engenho, fica muito aquém do capaz de fazer a diferença. E é nessa difícil tarefa de sedução(?) que surgem pérolas que deixam qualquer mulher deslumbrada:

  • os clássicos:

   – pareces um helicóptero: és gira e bouaaaa ( dito preferencialmente com sotaque do Porto);

   – acreditas em amor à primeira vista ou tenho que passar aqui outra vez amanha?

  • aqueles em busca da prosa poética ou da veia humorística:

 – chamas-te wi-fi? Estou a sentir uma ligação entre nós…

 – não és Maria, mas és cheia de graça

  •  os sonhadores:

    – diz-me como te chamas para te pedir ao pai natal

  • os desajeitados:

    – tu aí cheia de curvas e eu aqui sem travões

  • Os rebarbados, que não tentam sequer esconder ao que vêm:

    – ora aqui está uma moça com sítio onde agarrar

    – andas na tropa? é que já marchavas

    – sabes onde ficava bem a tua roupa? no chão do meu quarto

Lanço aqui o desafio: se alguém que leu este texto sucumbiu de amores por ter ouvido algo deste género, por favor entregue-se para estudos numa qualquer clínica psiquiátrica. Ou explique-me o encanto, porque não consigo perceber. Talvez seja eu que sofro de frigidez elogiosa, não sei.

Àquela pergunta difícil do que querem afinal as mulheres, eu respondo: queremos autenticidade. Mais do que isso – que a quem não pede, Deus não dá – queremos ser surpreendidas, que se deem ao trabalho de nos observar naquilo que temos de único, que sejam diferentes na abordagem, originais na forma e no conteúdo. Difícil? Talvez, mas para fácil já há muitos piropos de trolha…. Ineficazes e ridículos.

Ele disse que eu era mais bonita do que aparentava na foto. E eu acreditei. O namorado dele anuiu.

Não há elogio melhor, mais credível,  do que aquele que anda só, sem intenções secundárias ou terciárias a par e passo.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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