Que coisa linda aconteceu com a leitura deste livro, um encontro inusitado, um choque frontal que me agarrou da primeira à última página, como se de um embate no trânsito encontrássemos no outro sinistrado alguém em quem reconhecessemos algo de nós e ao mesmo tempo aprendêssemos qualquer coisa que, sabendo estar cá, ainda não o havíamos encontrado. Uma recuperação empírica dos versos de O’Neil
Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
A Revolução Antes da Revolução é um livro belíssimo, um cruzamento encantador entre a Arte e a História através da canção, com o epicentro no inolvidável ano de 1971, com um país (sem o saber) à beira da liberdade, e a canção como uma arma a rebentar as costuras de uma fronteira cada vez mais descontínua, fosse pela emigração clandestina, pela guerra no ultramar ou pela intensa utilização do lápis azul.
Cada capítulo entrou de supetão, tomando todos os pedaços de tempo livre para não perder pitada, entrar naquele ano, naquela época, naquele movimento, e, contudo, sei perfeitamente que se lá estivesse teria ficado de braços cruzados: não teria coragem para arriscar a prisão, fosse pelas armas, pela palavra ou pela canção.
Luis de Freitas Branco é um escritor que não só percebe do que escreve (que trabalho de investigação está por trás desta obra!) como gosta do universo que desenvolveu. Foi capaz de traduzir tanta paixão e informação com uma coerência e perfeição que se nota a um amante de Literatura, de História e da Liberdade, e tudo isso, sem qualquer pretensiosismo.
Do quinteto exilado em França – José Mário Branco, Sérgio Godinho, Zeca Afonso, Francisco Fanhais e Luís Cília – aos cantores da Metrópole – Paulo de Carvalho, Fernando Tordo, Carlos Mendes e Carlos do Carmo em Lisboa, Adriano Correia de Oliveira em Coimbra. Do Festival da Canção aos compositores e orquestradores como Nuno Nazareth Fernandes, Pedro Osório, José Calvário, José Niza ou Thilo Krasmann. Do álbum Blackground de Milo e Raúl, o maravilhoso Duo Ouro Negro à importância de José Cid e do Quarteto 1111. Dos poetas, como Ary, Alegre ou Gedeão (num outro sentido) à edição do Festival de Vilar de Mouros (luta utópica do Dr. António Barge) ou ao I Festival de Jazz de Cascais (mérito de Luís Villas-Boas e João Braga) no mítico Dramático de Cascais. Das editoras, como a Zip, a Sassetti, a Valentim de Carvalho ou a Orfeu de Arnaldo Trindade a essa epifania da música portuguesa, de nome Cantigas de Maio, de Zeca Afonso, que viu a luz nesse glorioso ano de 71, gravada em Paris sob a tutela de José Mário Branco com a contribuição de Francisco Fanhais
E haveria tanto mais para explanar, como as lutas um tanto apatetadas de egos e caganças sobre quem é o mais puro representante do protesto ou da canção, o destratar do “nacional canconetismo” ou das baladas pelos que se achavam mais do que os outros (como Zeca, Adriano ou Paulo de Carvalho) ou de alguns poetas, como Gedeão, como se a simplicidade das suas palavras não encerrasse a profundidade da mensagem. Até a forma como o Fado, e Amália Rodrigues em particular, foram proscritos e mesmo vilipendiados pelos novos “doutores da música portuguesa”.
Alarguemos o critério e perdoemos alguns pecados em face da época que se vivia; já tenho mais dificuldade em manter o critério largo pelos muitos anos que se seguiram, anos esses que testemunharam uma cristalização dessa cagança sobranceira daqueles que continuaram a reclamar para si o título de senadores da canção de protesto em Portugal, como se nada mais fosse válido, acabando ultrapassados pela implacável bigorna do tempo e do progresso.
A Revolução Antes da Revolução faz mais pelo conhecimento de História do que muitas lições dadas em sala de aula: transmite-nos o pulsar de uma época que, sabemos hoje, estava à beira do fim, mas que os próprios não tinham a certeza. É neste sentido que para mim a sua luta deve ser enaltecida: lutavam sem garantia de vitória, movidos pela esperança.
Até que ponto a leitura de um livro que nos agarra se deve mais à escrita, ao tema ou ao momento por que passamos? Resposta fácil seria invocar a combinação dos três factores. Até pode ser verdade, mas nesta obra de arte, os dois primeiros critérios – o que tem somente a ver com o autor e o que une escritor e leitor – julgo terem tido grande preponderância sobre o último – fizeram o meu momento para esta leitura. Luis de Freitas Branco ofereceu-me ouro com este livro. Enquanto leitor, o meu mérito passou por aproveitar a dádiva e transmiti-la. Não pelo que se aprende, mas pelo prazer que dá. Só por isso. O resto vem naturalmente.
[Este texto não está escrito segundo o novo acordo ortográfico]