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A mentira

Inventar uma mentira talvez seja a melhor maneira de contar a verdade. Não é minha intenção transfigurar a realidade, entendam isso. Digamos que é algo visceral, sobre o qual não tenho qualquer controlo.

O que se segue é um relato verdadeiro, tanto quanto me é possível fazê-lo.

A 10 de Fevereiro de 1961 eu encontrava-me perdido, terrivelmente desesperado. O cheiro a renúncia, a dureza da realidade a destruir-me. A queda no abismo tornara-se insustentável. O quarto, frio, despido de comodidade, tornara-se um pântano negro e lamacento nos últimos tempos. Um logro oportunista para o qual eu me deixara arrastar. Não me lembrava da última vez que saíra à rua, muito menos da última vez que metera comida no estômago. A mesa-de-cabeceira, carcomida pela humidade que escorria pelas paredes lúbricas, guardava a minha salvação.

Na bula do Elavil, na zona destinada às informações de sobredosagem, podia ler-se as palavras convulsão, desmaios, tonturas, dormência da língua, arritmia cardíaca. O dia acabou comigo sentado na beira da cama a olhar fixamente para a caixa de amitriptilina que segurava, irresoluto, nas mãos. Quando nascemos, o coração tem as batidas contadas e só por um golpe de azar elas se alteram. Eu estava disposto a provocar esse azar.

“Se queres escrever bem, pensa como um sábio, mas expressa-te como as pessoas comuns.” A frase de Aristóteles que me humilhava, que me envenenava a competência de escritor de contos, que me despia da mentira. Eu já não escrevia bem, nunca pensara como um sábio e muito menos me conseguia expressar como alguém comum. Não quero exagerar, mas creio que a minha vida nunca teve futuro, não passou de vários presentes falhados, de várias oportunidades destruídas. Era a sobrevivência a um ofício, que me engolia a mim próprio, que me tirava da realidade, que me possuía quando desejava, como bem entendia.

Decididos a fazer-me as maiores atrocidades, Hemingway, Voltaire ou Aristóteles eram alguns dos fantasmas que me visitavam regularmente. Durante o dia vagueavam pelo quarto, falavam comigo e argumentavam, entre eles, coisas imperceptíveis; durante a noite, Dostoiévski sentava-se à mesa com o seu Raskolnikov, no fundo do quarto, a beber e a discutir em voz alta. Nesse período, senti-me à beira da loucura. Não comia, não dormia, apenas coligia palavras. O chão do quarto era um mar de folhas de papel brancas, rasgadas e amarrotadas, desvirginadas, desonradas, que mereciam tudo menos aquele trágico desfecho. O odor pestilento dentro daquele quarto – culpa dos fantasmas e da humidade – tornara-se insuportável até para mim.

A 31 de Maio desse ano, o Benfica ganhou 3-2 ao Barcelona, sagrando-se campeão europeu pela primeira vez. José Águas e Coluna deram-me, assim, a única alegria em anos, fazendo-me perceber que ainda havia esperança e que cair em falência não era a solução.

“Se queres escrever bem, pensa como um sábio, mas expressa-te como as pessoas comuns.”

Quando os primeiros dias quentes do ano chegaram encontrei finalmente o meu destino. Nessa época, Maybrick ainda não era a mulher poderosa no mercado editorial em que se tornaria algum tempo depois. Quando a conheci, senti uma forte pulsão sexual. Algo que julgara perdido para sempre em mim. O deboche dos sentidos contrapondo com os devaneios de quem aceitara a sua sorte. Em pouco tempo, Maybrick tornou-se a descoberta de uma ilha desconhecida. O que conquistou a minha atenção foi algo mais do que divino, foi a conjunção de beleza e tranquilidade. A tranquilidade que desassossega.

Os dois anos que se seguiram foram de grande fulgor. A minha escrita voltou a florescer, a obscuridade literária deu lugar à criatividade, tornei-me num contista reconhecido, a editora inglesa arrebatou-me o coração. Inventar mentiras voltou a ser um prazer e o prémio de autor do ano foi recebido por mim com grande contentamento. A 2 de Maio de 1962, no estádio olímpico de Amesterdão, o Benfica arrasou o Real Madrid na final da Taça dos Clubes Campeões Europeus. A felicidade tomara, enfim, conta da minha vida. Depois de vários anos na escuridão, sentia-me vivo e atribuía essa sorte ao surgimento de Maybrick.

Inebriado pela felicidade, não me dei conta do que estaria para acontecer. A felicidade fraudulenta surgia silenciosa. Talvez tenha estado sempre ali, mas eu nunca a conseguira ver. No início de Maio de 1963, Maybrick decidiu voltar para Liverpool. A decisão apanhou-me de surpresa, deixando-me desiludido e sem abrigo. A falta de uma explicação por parte da inglesa encaminhou-me de volta ao sofrimento e à trapaça que era a minha vida.

A 22 de Maio de 1963, Eusébio marca o único golo do Benfica na derrota com o Milan. Na terceira final consecutiva da Taça dos Clubes Campeões Europeus, o bi-campeão Benfica sucumbia em Wembley. Inglaterra, país que eu tanto apreciava, transformava-se, assim, num duplo pesadelo. Nessa tarde, olhei para o fundo do quarto e vi Dostoiévski a rir-se de mim. Cansado das mentiras, decidi carregar a pistola que guardara, durante anos, numa caixa de madeira apodrecida. O dia acabou comigo sentado na beira da cama a olhar fixamente para a pistola que segurava, irresoluto, nas mãos.

Manuel Jorge

Gosta de massa de peixe, do Benfica e de livros. Não forçosamente por esta ordem. Descobriu a escrita apenas aos 38 anos, mas ainda assim bem a tempo de conseguir desprestigiar esta arte. Acha, também por isso, que tudo lhe surge demasiado tarde e que nada na sua vida é precoce, tirando a ejaculação.

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