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ContosCultura

A memória do avô fez-se casa abandonada

A Aldeia não ficava a caminho de lugar algum. Era como se naquele ponto eremita do mapa nunca tivesse estado alguém só de passagem. Coisa rara, portanto. Talvez por isso ele se sentisse ali tão bem.

Sonolento, viu a manhã vestir-se de uma névoa fina que apalpava essas coisas que são o mundo. Envolvia delicadamente os pinheiros, a terra orvalhada e a voz dos melros, fundindo-se com o aroma do café torrado e das torradas com azeite.

A tradição de tomar o pequeno-almoço na varanda era coisa de se cumprir sempre igual nos dias que por ali estava, fugido da cidade grande. Manta sobre as pernas e vista desafogada para o silêncio dos homens. Há luxos sem etiqueta de preço. 

Naquele dia não estava sozinho. Foi acordá-lo ainda cedo, Levanta-te, tenho uma coisa importante para te mostrar. Sentaram-se lado a lado, partilhando um sossego com sabor a casa. 

O café ia já pouco fumegante, quando tirou um manuscrito do bolso. De gestos inquietos, com a voz abdicando da firmeza, disse, Gostava que me ouvisses com atenção. Começou a ler. 

Avô,

Não saberia mentir-te, mesmo que quisesse. Uma doença com um nome esquisito instalou-se na tua cabeça e diz que não sairá mais de lá. Essa filha da puta parece-se com um ladrão de casas que volta e meia te assalta a memória e só lá deixa as paredes. Mas não quero deixar que te vença. Por isso preciso que tragas esta carta sempre contigo e que a leias quando te perguntares quem és.

Tratamos-te carinhosamente por Tó. Quando andamos por esses trilhos que só tu conheces, abrandas várias vezes para escutar a voz do bosque. Dizes sempre que os pássaros são canções vestidas de penas e depois assobias, como se quisesses aumentar a primavera. O teu aconchego sempre foi feito disto: terra lavrada e água fresca da nascente. 

Mas tiveste de fugir para Paris durante a ditadura. E refizeste-te num chão livre, longe das diarreias do salazar. Só que dentro de ti faltava o girassol, a fraga e o primeiro céu. Voltaste à terra e percebeste que ainda sabias ver as horas pelo sol. Vieram os filhos, depois os netos e chegaste à velhice com uma ternura infantil. 

O teu colo sempre servirá de medida ao conforto das coisas familiares. E não te esqueças disto: não abandono a minha primeira casa.

 

Três segundos de suspensão. Levantou a cabeça, as janelas do rosto embaciadas. Passou-lhe para a mão a folha de papel, para que pudesse ver o desenho que se aninhava ao fundo da carta.

Ficaram assim uns minutos vendo a manhã florir, calma, clara e completa. A brisa fria visitava-lhes a cara, sabia bem. Até que, por fim, uma voz sumida, ainda adolescente, 

— Obrigado, pai. Faz hoje vinte anos que o bisavô morreu, não é? 

Benjamim, afundado na cadeira com a carta no regaço, não chegou a conhecer Tó. Ainda assim, essa figura sempre lhe habitou o imaginário. 

— Sim, escrevi-lhe esta carta poucos meses antes de morrer e acho que agora deves ser tu a ficar com ela. Diz muito sobre ele, sobre mim, sobre esta casa e sobre ti também. Lembra-te de a ler sempre que te perguntares quem és.

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