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Numa viagem ao Japão, quais os três sítios a não perder?

Já planeou uma viagem ao Japão? Se o fizer, a primeira coisa que vai notar é que é muito difícil escolher. Há tantas possibilidades que é quase impossível não sentir uma certa angústia ao verificar que não conseguimos ter tempo de fazer tudo. E, como as prefeituras são todas tão diferentes entre si, cada uma com os seus festivais e gastronomia, criar um itinerário original pode ser um grande desafio. Aqui seguem algumas recomendações de lugares “fora da caixa” e surpreendentes.

A Prefeitura de Tottori e os seus múltiplos encantos

Esta pequena prefeitura do Japão ocidental foi eleita Destino do Ano para 2019 e representa tudo aquilo que o Japão está a esforçar-se por atingir no panorama da sua afirmação como destino turístico internacional: é de fácil acesso para o resto da Ásia (voos frequentes da Coreia e ligações convenientes com a Rússia), tem um pouco de tudo (mar, montanha, floresta, etc), e ainda é basicamente rural e tranquila.

Um dos achados de Tottori é a vasta área de dunas de areia designada “O Sahara do Japão”, completa com o aluguer de camelos para turistas e tudo! Quanto a pérolas da história da arquitectura, é também em Tottori que se encontra o Junpukaku, um maravilhoso palácio de 1907, construído em estilo neoclássico francês, encomendado especialmente para o Príncipe Herdeiro (mais tarde Imperador Taisho). A área em volta do palácio é um parque natural, com lago e floresta, e tudo isso pode visitar-se por uns modestos 150 yens (por volta de um euro e dez). O interior do palácio preserva toda a decoração e colecção de arte da Casa Imperial, proporcionando uma intensa viagem no tempo para uma época em que o Japão estava no topo da curva ascendente. Em 1905, tinha ganho a guerra com a Rússia e nesse mesmo ano assinara tratados com a França e a Coreia, o que lhe garantia o respeito das nações com as quais queria estreitar laços de cooperação política. A monarquia Meiji não podia estar mais estável e para além disso a industrialização estava de vento em poupa. Mas paisagens e arquitecturas são apenas o começo, porque o que Tottori tem de especial é a sua vastidão de campos de arroz, festivais sazonais, comidas maravilhosas e pessoas simpáticas.

Alguns dos seus festivais são muito peculiares, como por exemplo o Festival Nacional da Cerveja Artesanal que se realiza em meados de Junho perto de Daisen (na verdade é na pequena vila de montanha de Masumizu Kogen). Reúnem-se ali centenas de micro-cervejarias de todo o país, e em anos recentes o evento tem-se tornado cada vez mais interessante, com performances de músicos e bandas do Japão e do resto do mundo, e também com o desenvolvimento paralelo de mostras gastronómicas. Também o Festival Yonago Gaina merece uma visita no início de Agosto. No dialecto local “gaina” significa “grande”, e o momento culminante do festival é o desfile das gigantescas estruturas de lanternas sobrepostas e equilibradas por um só homem. Estes bravos voluntários, por tradição, fé ou simplesmente amor ao espectáculo, fazem uma procissão pelas ruas da cidade de Yonago balançando na anca (!) 50 ou mais lanternas, numa altura total que ultrapassa frequentemente os 20 metros.

O Castelo de Himeji, património mundial da UNESCO

Muitos visitantes não familiarizados com as peculiaridades da cultura japonesa ficam com a ideia que o Japão preservou muitos castelos, palácios e fortalezas. Não é de admirar, pois cada cidadezinha tem o seu castelo, e todos se apresentam como locais a visitar, cheios de histórias de samurais heroicos, guerras épicas e donzelas fascinantes. Contudo, na verdade, à excepção de um grupo de 12 castelos em todo o território, todos os outros são construções modernas a partir de uma estimativa aproximada do que teriam sido os castelos do passado. E, mesmo assim, há muitos lugares com um “castelo antigo” que nunca tiveram nenhum e hoje se vêm agraciados da presença da famosa silhueta no topo da colina, numa construção conveniente climatizada, com elevador e pilares de cimento… A razão de ser deste à-vontade desconcertante com a reinvenção da história tem a ver com o modo como o conceito de “património” se constituiu no Japão, e com as suas práticas culturais em relação aos edifícios e aos lugares. De modo simples, pode dizer-se que para um japonês pode não haver nenhuma placa de madeira, nenhum prego nem nenhum material que tenha mais de 20 anos num edifício que ainda assim ele será “do século XIII”. Isso acontece, literalmente, com o Santuário de Ise, bem como muitos outros, que são integralmente desmantelados e reconstruídos a cada 20 anos. O novo é mais importante que o “antigo”, e por isso é preciso esclarecer os incautos turistas ocidentais a respeito do que é realmente um “castelo histórico”.

No caso de Himeji, trata-se de um palimpsesto de estruturas que ficaram congeladas no tempo por volta de 1620. Nessa data, após o investimento do próprio Shogun do Japão (Tokugawa) e posteriormente de um dos seus generais de confiança, a quem ofereceu o castelo, o Himeji chegou à sua forma última, a que se preservou até hoje. Os restauros que sofreu depois de ser classificado pela UNESCO em 1993 foram apenas análogos às campanhas de restauro de modelo ocidental, sem alterar a sua estrutura ou introduzir materiais modernos, e por isso é que o Himeji é um castelo tão significativo no panorama do património cultural do Japão. Outro factor relevante é a sua integração na pequena cidade de Himeji. A povoação fica convenientemente localizada a menos de uma hora de comboio de Osaka, e na rota que muitos visitantes fazem entre Osaka e Hiroshima. O próprio castelo fica a menos de 15 minutos a pé da estação de comboios! Além disso, Himeji é servida pelo serviço de shinkansen (o que lhe permite ir para lá de praticamente qualquer parte do Japão), e ainda assim nunca se tornou numa ratoeira para turistas, excessivamente visitada ou descaracterizada, pelo que ainda é possível desfrutar do ambiente único de uma “pequena vila no sopé do castelo”, 365 dias por ano.

Campos de Chá em Shizuoka

O Japão é famoso em todo o mundo pelo seu chá, aliás, pelas suas imensas variedades de chás. A camelia sinensis foi uma das mais significativas importações da China, junto com os caracteres e o consumo de arroz, e logo desde o século VII já se estimava que o chá verde fosse a principal bebida da terra do sol nascente. Hoje em dia, um pouco por todo o Japão, a facilidade com que podemos obter uma garrafa de chá verde – fresco ou quente – numa máquina de venda automática de bebidas, faz-nos esquecer o laborioso processo artesanal através do qual essa mesma bebida é produzida. Com efeito, o chá do Japão é quase todo produzido no próprio país, e uma das prefeituras que se destaca é Shizuoka.

Os campos de chá de Shizuoka podem ser visitados em tours organizados, e os programas incluem geralmente a passagem por locais onde há uma vista favorecida sobre o Monte Fuji, bem como degustação de chás e às vezes mesmo workshops. O sonho de qualquer gourmet, sem dúvida!

Para além de ficar a saber mais sobre a planta em si, o método de produção do chá, e acesso a tipos de chá que não atingem as prateleiras das lojas (nem no Japão), a visita a uma plantação/produtor, também lhe permitirá ter um vislumbre de vários traços fundamentais da cultura japonesa, o que em última análise vai fazer a sua visita ao país algo muito mais enriquecedor. A dedicação à natureza, a preferência por consumo de produtos que promovam a saúde e bem estar (medicina preventiva), a ligação de uma mesma família a um ramo de actividade ao longo de várias gerações, as práticas culturais ligadas ao chá tais como a produção de cerâmica, a cerimónia do chá, etc. Numa nação onde as megalópoles consomem todos os aspectos da vida dos que as habitam, onde a natureza mostra tão frequentemente o seu lado mais destrutivo e avassalador, uma visita a uma plantação de chá irá restaurar-lhe o estado de espírito e revitalizar o corpo, e o melhor de tudo é que está a suas horas de shinkansen da cidade de Tokyo.

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