A lenda negra

O conceito foi trazido pela historiografia espanhola em 1914, por Julian Juderias, num livro com esse mesmo nome e difundiu-se em obras de diversas temáticas. Segundo o seu teorizador, os séculos XVI e XVII espanhóis foram encarados de forma preconceituosa, a partir de interpretações exageradas dos eventos históricos e mesmo omissões deliberadas e também da criação de estereótipos negativos, de forma a encarar Espanha com certa animosidade e cujos efeitos ainda hoje se fazem sentir. Referia-se em particular à intolerância religiosa, resultante da Inquisição e da crueldade praticada no Novo Mundo relativamente aos povos indígenas. No seu entender, esta propaganda, avant la lettre, que tinha como alvo o poder hegemónico espanhol e as suas gentes, teria tido a sua origem durante o reinado de Filipe II de Espanha, I de Portugal, através da divulgação de obras como as de Frei Bartolomé de las Casas, Guilherme de Orange, John Foxe, Reinaldo Gonzalez Montano e António Peres, que criticavam ou inclusive difamava a própria figura régia e a sua actuação nas novas províncias do Império e que tiveram um maior impacto, não só pela conjuntura bélica que o Império Espanhol vivia, nomeadamente as guerras contra França, Inglaterra e Países Baixos, mas também pelos meios utilizados, não só livros, mas como toda a espécie de panfletos e libelos, que circularam massivamente pela Europa, durante largo período de tempo, moldando a opinião colectiva de forma negativa.

A obra de Julian Juderias insere-se todavia numa revisão historiográfica espanhola de finais do século XIX, na qual se destacam nomes como Juan Valera, ou Vicente Blasco Ibanez, que, ao contrário do decandentismo finissecular, procurou revalorizar o conceito de hispanidade. É à luz destas teorias historiográficas, que se deverá entender a teorização de Julian Juderias e não nas interpretações políticas que se fizeram posteriormente. Tão importante como refrear o impacto causado pela Lenda Negra, é a de compreender em que medida esta pode ter condicionado às variações da imagem de Espanha no exterior, ao longo do tempo. Actualmente, os historiadores são unânimes em considerar que a imagem de Espanha, durante o século de Ouro, sofreu um impacto negativo pela política de enegrecimento por parte dos consecutivos oponentes da monarquia hispânica, que se afirmou como um instrumento eficaz ao aglutinar toda a oposição numa só frente, fosse o catolicismo, ou o imperialismo o seu motivo a combater.

Filipe II de Espanha, I de Portugal
Filipe II de Espanha, I de Portugal

Há, no entanto, que matizar os contornos da Lenda Negra. Por exemplo, torna-se necessário ter em conta que, não só em Espanha, como em outros territórios do vasto império espanhol, vários autores como Cespedes y Meneses, ou Quevedo, não só glorificaram os feitos dos monarcas Habsburgo- intencionalmente ou não-, como também produziram textos anti-francófonos, anti-anglófilos ou anti-holandeses.

O historiador Garcia Carcel salienta, porém, que muitos países terão passado por situações idênticas sem todavia ter existido uma visão negativa generalizada. No seu entender, isso dever-se-á ao facto de se ter menosprezado aquilo que denomina de lenda branca, ou seja, os escritos favoráveis à monarquia hispânica, e que se teria difundido pela Europa, contemporaneamente à Lenda Negra e que teria mitigado os seus efeitos.

Todavia, estes escritos não terão tido a mesma difusão que as anteriores e o que é facto é que em momentos mais críticos da história de Espanha, como a questão Filipina, ou Cubana, a Lenda Negra voltava a nascer. Há que entender, pois, as opções tomadas pela monarquia Habsburgo na lógica de qualquer Estado, que procura conservar o seu status quo e manter as suas aspirações imperiais, sem interpretações extemporâneas relacionadas com questões religiosas, ou de vencedores e vencidos.

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Comments 1
  1. Os iluministas maçons do século 18 anticlericais,anticatólicos e antimonarquistas,
    ajudaram a espalhar mentiras sobre os reinos católicos.No Brasil os cientistas que
    vinham pra cá saiam espalhando que os portugueses eram brutais,analfabetos,
    estupradores,cruéis,tudo que não presta.Depois no século 19 os ingleses a mando da
    coroa inglesa fizeram o mesmo.Nos livros de escola portugueses e espanhóis são
    tudo isso e já os ingleses,holandeses,franceses, (protestantes) pouco se fala.É óbvio
    que EXISTIU e EXISTE a intenção de demonizar a igreja,a monarquia católica e seus
    impérios,isso é inegável! Mas aos poucos a verdade virá a tona.Tem muita coisa que
    ainda estamos descobrindo.Inclusive teve um autor de livros aqui no Brasil que pertencia
    a academia brasileira de letras que escreveu mais de 100 livros sobre história no
    Brasil desmentindo muita coisa sobre a colonização e ele foi EXPULSO da academia
    e suas obras proibidas,mas graças aqueles que compraram seus livros HOJE podemos
    saber da verdade.

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