Foram muitos os quilómetros percorridos na minha moto a procurar uma forma de responder ao desafio que me foi lançado. Aparentemente nem parecia assim tão difícil, mas fugiam-me as palavras de cada vez que tentava dar resposta àquela pergunta tão simples: “Que histórias crias na tua mente com o que vês?” Confio que na estrada encontrarei a resposta.
Deixo o Montijo em direção ao interior. O calor é intenso e faz com que o vento abafe em vez de refrescar. A luz é a de um verão dourado, violento e enérgico. Ignoro Rio Frio e a sua beleza espancada pelo tempo depois de descobrir que a sua pequena mas sumptuosa alameda viu-se despojada das copas dos seus plátanos. Antes imponentes e faustosos, são agora nuas colunas que suportam o vazio e tornam o local ainda mais ausente de vida.
Dali ao Poceirão são 10 quilómetros de uma longa reta que se transforma subitamente no palco do Scala. De um lado e do outro, azinheiras a perder de vista dão aroma ao som do motor que ruge em resposta à monotonia que ameaça sugar-me o espírito para fora do capacete. Uma maior aceleração injeta adrenalina e prende-me à estrada. A batuta na mão direita é o acelerador. O óleo, válvulas, escapes, (é inevitável o cliché) formam agora uma orquestra metálica que ronca em harmonia com o prazer que me entrega. O tempo abranda, a máquina vibra e eu respiro melhor.
Entretanto a paisagem torna-se geométrica. Até onde o olhar alcança surgem vinhas e vinhas. E mais vinhas. É um monumental exército de soldados em sentido, perfeitamente alinhados na planície. O quartel-general é a Herdade de Pegões, onde nasceu uma colónia rural nos anos 30 do século passado, de forma a fixar a necessária mão de obra para a enorme extensão da herdade. Dezenas de moradias iguais surgem ao longo da estrada antes e depois da curiosidade que é Santo Isidro de Pegões, ou Pegões Velho. A planta do local remete-me para uma Brasília em miniatura, a igreja, escolas e construções adjacentes foram inegavelmente influenciadas pelo traço de Óscar Niemeyer. Pitoresco e curioso; mas acima de tudo um local calmo e silencioso.
Antes de entrar em Vendas Novas desvio para o meu pequeno paraíso, a Estrada de Canha. Bom alcatrão, escasso trânsito e uma sequência quase perfeita de retas e curvas que me colocam no rosto o sorriso de uma criança num parque infantil. Tudo em volta de um ar purificado com o perfume da natureza. Árvores de um lado e campos que parecem desérticos, mas que mudam de cor consoante a fase da campanha agrícola. E verde, muito verde.
Toda esta região onde o Ribatejo e o Alentejo se encontram é polvilhada por extensas propriedades privadas que deixam que fique tanto por explorar. Ainda assim, a estrada além de bela e viciante, vai-nos deixando algumas surpresas como a Escola-Museu Salgueiro Maia em São Torcato, lagoas escondidas dificilmente acessíveis e lá perdida bem no centro da região, a antiga Estação Ferroviária do Lavre. Para lá chegar tenho que substituir o alcatrão pela terra. O ritmo abranda, a condução torna-se mais difícil, mas as baixas rotações emitem um outro cantar ainda mais melódico. Depois de um ou outro desvio, já a mais de 5 quilómetros da povoação mais perto, vejo surgir a estação, praticamente isolada do mundo. Mas não completamente, há ali uma ou duas habitações inseridas numa qualquer herdade que até ajudam a proteger o local do vandalismo sem sentido.
A Estação do Lavre é uma ruína como muitas outras, mas esta em vez de exemplificar o declínio do sistema ferroviário português, parece ser o resultado de uma má escolha. As povoações que supostamente servia estão a uma grande distância e os acessos não são convidativos. O edifício principal e anexo subsistem de pé, mas entaipados transmitem tristeza. O reboco das paredes vai cedendo à gravidade, a plataforma está gasta pelo tempo. Os azulejos com o nome da estação estão ainda lá, um incompleto, outros apenas abandonados no tempo. Descanso eu e a máquina, ficamos a ouvir o silêncio e a refletir na resposta à pergunta que ali me trouxe: “Que histórias crias na tua mente com o que vês?”. Demorou algum tempo a perceber que a resposta a esta pergunta é assustadoramente fácil: nenhuma. Um passeio de moto como este, em que ir é mais importante do que chegar, é uma terapia e uma oportunidade para esquecer os pesos comuns tão próprios da vida diária. É um momento de reflexão para mim, sobre mim e sobre a máquina. Não existe tempo para imaginar nem construir seja o que for na nossa mente. Cada quilómetro é ocupado a sentir o vento, as cores, os aromas, a paisagem, a energia, as vibrações, os sons. É um momento de assimilar o que vejo, de construir memórias e não histórias. É quando me reencontro, quando faço as pazes com a minha própria alma, e acima de tudo, é quando me encho de vida!