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ContosCultura

Matisse – Parte III

Demeter, diretor do Centro de Controlo Populacional, foi o único a aperceber-se que algo diferente havia acontecido naquele esporádico contacto entre Matisse e o mercador. Homem astuto assaz observador, percebeu uma ligeira alteração no olhar do mercador. De um momento para outro pareceu não saber bem o que fazer. Comportamentos desviantes de indivíduos gerados com características genéticas pré-determinadas eram praticamente inexistentes.

Assim, ao invés de atuar com contundência, Demeter silenciou-se. Mandou manter ativa a vigilância sobre Matisse mas, em segredo e pelos seus próprios meios, mandou seguir e observar o mercador. Dois meses depois as imagens de vídeo de um clone do espécime humano MV30110.1921A intrigaram ainda mais o diretor do Centro de Controlo. Mantendo o que sabia em silêncio, Demeter aguardou pacientemente pelo regresso do mercador.

O dia chegou na data e hora perfeitamente estipulada. Demeter saiu do Centro de Controlo sem deixar instruções para além das pré-estipuladas. Deixou que o mercador e Matisse se reunissem e foi num momento em que preparavam para trocar o clone pelo homem que Demeter se abeirou de um surpreso Matisse:

– Porque o fazes? – perguntou Demeter.

– Como? Não percebo. – respondeu Matisse.

– Eu sei do clone, sei que algo de errado, que talvez nem seja errado mas apenas um erro “nosso”, se passa contigo. E antes de impedir ou não qualquer outra ação tua, quero que me respondas a uma simples questão que intriga.

– …

– Sendo tu um espécime humano com uma capacidade cerebral extraordinária, dotado de conhecimento para além do que seria humanamente possível, porque te dás ao trabalho de promover a criação de um clone e o suborno intelectual, por assim dizer, de um mercador, quando sabes que podias apenas e simplesmente ludibriar o nosso controlo e desaparecer?

– Não é minha intenção ativar alarmes nas instituições humanas.

– Tu até podes…

– … sim eu até posso fazer tremer e mais do que isso as instituições que governam o nosso universo conhecido.

– Mas…

– … mas quero apenas sair daqui e ver toda a beleza que aprendi nos livros. Os mais diversos planetas e astros, as paisagens verdes e azuis ou roxas dos mais diversos planetas. As diferentes espécies que coabitam connosco. Como vivem e o que as mantém felizes. Os animais, as luzes, todo o universo. A vida! Eu quero conhecer a vida!

– E o clone servirá para que possas partir em tal demanda sem que sejas procurado.

– Porque as minhas funções continuarão a serem executadas na perfeição e a Cúpula em nada perde com a minha partida.

– Sê feliz, Matisse. Eu trato do MV30110.1921B.

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André Araújo

Licenciado em história da arte, é a arte das histórias que me move neste mundo. Os mundos de Homero e de Virgílio, de Kafka e de Marquéz, de Bukowski e de Fante, são onde encontro as palavras que me definem e me atormentam, na contínua aprendizagem pessoal para construir o MEU próprio mundo.

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