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A força invisível das celebridades: como nos ligamos a quem não conhecemos

Todos nós temos uma ou mais celebridades que gostamos de seguir. Algumas delas até sentimos tal simpatia que parece que as conhecemos. De que forma é que criamos uma ligação com as celebridades? De que forma é que isto nos molda? De que forma é que as crenças, palavras, atitudes e ações dessas celebridades nos impactam em termos pessoais?

Alguma vez sentiu que conhece uma celebridade como se fosse alguém próximo, mesmo sem nunca a ter visto ao vivo? Essa sensação é explicada pelo conceito de relação parasocial: uma proximidade e intimidade unilateral (Giles, 2002).

Graças às redes sociais, entrevistas ou simples fotografias partilhadas, passamos a reconhecer gostos, opiniões, fragilidades e conquistas daquilo que as celebridades escolhem mostrar. Citando Inês Vidal,[1] “…os seguidores acreditam que os influenciadores digitais exibem um elevado nível de sinceridade e confiança, em comparação às celebridades tradicionais” (Lee & Eastin, 2020). Essa perceção de autenticidade, mesmo quando encenada, é um dos principais motores da ligação emocional.

Essas ligações não ficam apenas no plano simbólico. Moldam-nos de forma subtil e constante. As celebridades funcionam como espelhos, onde projetamos desejos e ambições, e como modelos, que influenciam estilos de vida, atitudes e crenças.

Um ator, uma cantora ou um atleta pode representar sucesso, beleza, reconhecimento ou autenticidade. Por isso, ajudam-nos a definir identidade, a orientar aspirações e a encontrar pertença em determinados grupos sociais. Este processo também pode ser explicado pela comparação social (Festinger, 1954): avaliamos a nossa vida em relação a padrões que essas figuras tornam visíveis.

Veja-se o exemplo de Cristiano Ronaldo e Georgina Rodríguez: o jogador tornou-se símbolo de excelência desportiva e de ascensão social, enquanto Georgina é para muitas jovens referência de beleza e estilo de vida. O reflexo cultural é imediato: das bancas de feiras que anunciam “a mala da Georgina” até à escolha de figuras públicas para trabalhos escolares. Mas não é apenas a fama tradicional, também os influenciadores digitais de nicho exercem forte influência, justamente porque parecem mais acessíveis e próximos do público.

Este é um poder que se manifestado em diferentes planos: normas e valores quando as celebridades defendem causas sociais, ambientais ou de saúde mental, contribuem para mudar perceções e legitimar debates; consumo pelas recomendações de produtos ou estilos de vida ganham peso pelo chamado efeito halo (a excelência numa área transborda para outras, mesmo sem fundamento) e, também na esfera política e de cidadania em que figuras públicas podem mobilizar milhões para doações, manifestações ou campanhas, acelerando a adesão a causas.

O impacto, contudo, tem duas faces. No lado positivo, as celebridades podem inspirar mudanças saudáveis, abrir espaço para conversas e debates pertinentes e mobilizar energia coletiva. No reverso, podem induzir a comparações tóxicas, reforçar padrões inalcançáveis, difundir desinformação (particularmente em temas de saúde ou finanças) ou normalizar comportamentos prejudiciais.

A linha entre inspiração saudável e dependência emocional é ténue. Muitas vezes, sem nos darmos conta, entregamos poder excessivo a vozes externas sobre como devemos viver, sentir ou parecer.

Cabe-nos, enquanto indivíduos e sociedade, reconhecer a dimensão desta influência. A questão não é apenas quem seguimos, mas também como e porquê. Cada escolha que fazemos sobre quem deixamos entrar no nosso quotidiano digital determina se essa presença será fonte de motivação ou de desgaste. Se abdicarmos dessa consciência, arriscamo-nos a transformar admiração em prisão silenciosa.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico.


[1] in  VIDAL, Inês, Dissertação de Mestrado – Marketing,  Determinantes e resultados do estabelecimento de uma relação parassocial entre um influenciador digital e os seus seguidores, Faculdade de Economia – Universidade do Porto, 2023.

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Comments 2
  1. Lembra-nos a nossa juventude. Ainda há adultos fanáticos, sobretudo por jogadores de futebol. Nós era mais por cantores. 🙂

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