A tecnologia mudou a nossa vida e esse é um facto incontornável. O modo como nos relacionamos e até como comunicamos mudou de um modo que nem os nossos avós ou pais alguma vez imaginavam (talvez nem nós mesmos).
Isto não é necessariamente mau, na verdade, uma das vantagens tem que ver com a facilidade com que temos acesso à informação. Não preciso deslocar-me a uma biblioteca para ler livros ou dirigir-me a um quiosque para comprar um jornal, porque consigo ler as notícias a partir do telemóvel ou do computador e de qualquer dispositivo posso ler ou encomendar livros. Se faço uma pesquisa para um trabalho de investigação, não preciso deslocar-me a uma biblioteca, porque a probabilidade de encontrar essa informação na Internet é muito grande. Posso, inclusive, ver uma pessoa que esteja a milhares de quilómetros de distância, preparando uma refeição ou, até, partilhando um evento único na vida, tornando próximo quem está longe.
O lado menos bom é a constante atenção que a tecnologia nos exige. Num mundo tão digital, as solicitações acontecem a todo o minuto. Recordo-me de um anúncio a um relógio que prometia apenas informar das horas sem que tivéssemos de ver que já tínhamos 1000 e-mails por ler. A mensagem deste anúncio fez-me refletir bastante e talvez esteja a usar mais equipamentos analógicos, como um relógio, mas também caneta e caderno, quando antes preferia o digital.
A cada instante o telemóvel vibra com uma nova notificação; na lateral do computador somos alertados de um evento do calendário ou o relógio informa-nos de uma chamada. Nunca estamos desligados, porque mesmo à noite as notificações vão-se somando. Pior, se alguém nos manda uma mensagem e não respondemos ou, por azar a abrimos e não respondemos, estamos sujeitos a receber “?” ou passar para a lista dos intratáveis que ignoram outros. Isto porque não respondemos à mensagem das 20h35 de ontem, já passou toda a manhã de hoje e sei que a leu às 20h36.
Toda esta exigência de atenção tem o seu preço. Não temos tempo para muita coisa, especialmente quando até existem técnicas para discursos de um minuto. Com as redes sociais, especialmente o Instagram, os vídeos passaram a ser de 1h30. A verdadeira arte de comunicação é conseguir nesses 90 segundos passar uma mensagem. Em boa verdade, essa boa mensagem é esquecida no próximo reel de 90 segundos. E esta lógica foi transporta até para plataformas de vídeos, como o YouTube, com os shorts.
Tudo isto se relaciona a outro facto: nunca temos tempo para nada. Entre maratonas para eliminar e-mails de newsletters que pensámos ser muito interessantes, mas que acabamos por não ler, responder a uma mensagem, ou criar uma story para mostrar ao mundo que votei (parece que o dever de voto não fica completo sem este passo), um pequeno reel que achei muito engraçado e já se passaram horas.
Toda esta lógica invade o espaço offline e quando nos deparamos com Os Maias, logo ficamos desmoralizados com o tamanho ou com as imensas frases descritivas de uma simples casa. É melhor pesquisar um resumo que explique como entender o enredo em 10 passos. Para quê ler livros, se podemos ler só os sumários?
A falta de paciência é tão grande que, até nos vídeos mais longos, vamos colocando sempre para a frente para ver como termina. Pelo meio perdemos todos os indícios e pistas de quem criou o vídeo queria que víssemos. É uma chatice ter de assistir um filme de 2h50, quando podemos ver episódios de 45 minutos (ainda que passemos mais tempo em episódios).
Não faço a apologia de que devemos optar pelo que é mais longo ou defender que o que é mais curto não tem valor. Kafka não escreveu livros longos, mas ainda hoje usamos expressões que remetem à sua obra, como quando dizemos que algo é kafkiano. Ernest Hemingway é conhecido pelo seu estilo de escrita conciso e direto, onde a maior parte do significado e a profundidade estão subentendidos nas linhas, como tão bem demonstra O velho e o mar. Contudo, quem não leu Os Irmãos Karamazov perdeu a oportunidade de ver como uma obra do século XIX pode retratar, filosófica e psicologicamente, a natureza humana, com uma narrativa que combina drama familiar, dilemas morais e questionamentos existências.
Os recorrentes pedidos de atenção que os diferentes dispositivos nos fazem, a constante necessidade de estarmos em todo o lado e em todas as áreas, pode provocar frustração e falta de paciência para coisas tão banais como ler um livro, assistir um bom filme ou escutarmos um bom álbum.
A pressa tornou-se a nossa companheira constante. Todas essas solicitações influenciam a nossa capacidade de apreciar a vida, impelindo-nos a consumir conteúdos rápidos, por vezes até, contribuindo para que vivamos numa câmara de eco, onde apenas reproduzimos as opiniões e ideias que nos apresentam, sem qualquer reflexão.