Out & Loud – Agosto 2019

Fenda (Papisa)

Capa do álbum “Fenda”, lançado no dia 2 de agosto de 2019

Depois do EP (extended play) de 2016, o projeto da cantora, compositora e instrumentista brasileira Rita Oliva regressa com o seu primeiro álbum, Fenda. É um disco de títulos curtos e palavras claras, com poucos artifícios. Não é de de fácil digestão, mas, tal como acontece com a comida, o fast-food nunca é a opção mais saudável.

Ao longo das nove faixas que o compõem, este disco revela o que há de mais profundo nas camadas criativas da mente musical da artista. Há uma sonoridade crua, sombria e intimista que nos transporta para as questões existenciais que a assombram. A relação com a morte e a sua inevitabilidade — ou, como consta na descrição do seu canal de YouTube, os “ciclos de morte e renascimento” — é o principal tema dos seus poemas.

É de relembrar que Oliva não é nenhuma desconhecida do público brasileiro, visto ser ex-integrante das bandas PARATI e Cabana Café. No entanto, há algo de bastante diferente e único no seu conceito atual. As suas canções são lentas, de cordas sombrias ou nostálgicas, cheias de texturas e atmosferas, num dream pop ousado e místico, mas coerente. Destaque para “A Velha“, “Terra“, “Fenda” e “Espelho“.

i,i (Bon Iver)

Capa do álbum “i,i”, lançado no dia 9 de agosto de 2019

Chegou o quarto álbum de estúdio de Bon Iver, o principal projeto de Justin Vernon. Indubitavelmente, o seu nome está já associado a altas expectativas, sendo o autor de alguma da música mais interessante da atualidade. Felizmente, não desiludiu — mas surpreendeu.

i,i é talvez o disco mais evolutivo de Vernon. A coerência com o seu restante repertório é inquestionável e o reconhecimento da sua voz, dos arranjos acústicos e eletrónicos e de toda a produção continua a ser evidente. No entanto, de repente, chega-nos uma sonoridade mais alegre e primaveril do que nunca. Talvez o mês de lançamento não tenha sido escolhido ao acaso…

As canções prodigiosas não foram economizadas, e ainda bem. A doçura de “Hey, Ma” e de “U (Man Like)” — esta última com o melhor momento de piano no álbum — são dois dos grandes achados. A juntar a esses, “Naeem“, “Faith“, “Marion” e “Salem” também completam o registo da melhor maneira.

Este trabalho comprova, pela quarta vez, o quão próprio e inconfundível é o estilo de Vernon; e este seu projeto, de camadas complexas e letras de difícil interpretação, tem conseguido, de maneira sublime, passar a carga emocional e preenchida que faz parte do seu imaginário (e da sua realidade). Por vezes, canta-nos sobre as coisas mais mundanas, fazendo uso de ideias praticamente indecifráveis, mas a excelência com que elabora o seu conceito eleva-o à genialidade.

Superbloom (Ra Ra Riot)

Capa do álbum “Superbloom”, lançado no dia 9 de agosto de 2019

Superbloom não ficará na história de Ra Ra Riot como um dos seus melhores trabalhos. Os instrumentais, vibrantes e alegres, não cobrem a fragmentação que se faz sentir ao longo do alinhamento. Trata-se de um registo que permite que se associem mais umas quantas boas canções ao repertório dos nova-iorquinos, mas não resulta enquanto álbum.

A identidade do grupo não está bem sedimentada e a própria coesão musical do alinhamento deixa a desejar. A cor e a jovialidade pretendidas acabam por soar pretensiosas e forçadas. Entre um eletro-pop brusco, que relembra os sons da Eurovisão (“Belladonna“; “Dangerous“) e um tiro ao lado que simplesmente não encaixa, em “Endless Pain/ Endless Joy“, há demasiados momentos confusos ou desinteressantes.

Num disco com 12 faixas, é expectável que algumas deixem uma boa marca nos nossos tímpanos. “War & Famine” resulta surpreendentemente bem, mesmo soando a desabafo de millennial (geração que o grupo não integra, com certeza). De resto, os destaques ficam-se pelo início e pelo final do disco: “Flowers” e “Bad To Worse“, que abrem Superbloom, e “An Accident” e “A Check For Daniel“, que o fecham. Nestas canções, há uma nota comum que parece encarnar precisamente o conceito pretendido.

Talvez seja com a sonoridade das faixas supracitadas — com reminiscências de Vampire Weekend e do soft-pop dos ingleses The Feeling — que Ra Ra Riot se conseguirão fortalecer no panorama musical.

 

When it’s out, put it loud.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Sobre os incêndios na Amazónia: uma crise de identidade

Next Post

Não sejas só uma bengala

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Os cacos

Observa a gata da mãe a lamber a pata, vagarosamente, e a passar por trás das orelhas. Olha para a gata como…

Lisboa

Debaixo de mim, a calçada irregular, preta e branca e imunda. As ruas cheias de som e de ruído. As ruas cheias…

Róisín Murphy

A primeira vez que ouvi a Róisín Murphy fazia parte do extinto dueto Moloko. Quem andou pelas discotecas no…

Jurassic World

Em 1993, Steven Spielberg realizou um dos filmes mais icónicos da cultura pop, Jurassic Park, era a mistura…