A Família Yamada (1999)

Por detrás de títulos sonantes, como “O Castelo Andante” ou a “Viagem de Chihiro”, produzidos pelos estúdios Ghibli, escondem-se verdadeiras gemas menos conhecidas, mas não menos especiais. “A Família Yamada” é uma delas. Baseado no comic por Hisaichi Ishii, e escrito e dirigido, em 1999, por Isao Takahata (falecido em 2018) que, em conjunto com Hayao Miyazaki, fundou a Ghibli, foi adaptado a Anime. Takahata e Miyazaki tinham visões muito diferentes: Miyazaki era (ainda o é) o dos mundos fantásticos, dos monstros e lendas, já Takahata era o do realismo, da representação do dia-a-dia, do mundano, com o seu ponto de surreal expressionismo.

Animado com um estilo muito simples, quase um esboço, na verdade, retrata a vida de uma família japonesa muito típica. A avó Shige, o pai Takashi, a mãe Matsuko, o adolescente Noboru, a pequena Nonoko e Pochi, o cão da família. Ao longo de vários capítulos, vemos retratadas, ao estilo de comédia dramática, as rotinas e as relações entre os membros desta família. Como qualquer família, nem sempre se dão bem mas quando é preciso, unem-se e lutam juntos através dos infortúnios da vida.

No primeiro capítulo, mergulhamos na imaginação de Nonoko, ao aperceber-se pela primeira vez que houve um tempo antes dela, um tempo em que os pais ainda eram jovens. Vemos, então, como o casamento dos pais é retratado literalmente como uma viagem atribulada pelas ondas, onde um mundo é um oceano de possibilidades. O casal navega num barco e ultrapassa as tempestades, remenda o barco e acaba por chegar a terra firme onde uma nova aventura começa: ter filhos. Nesta bela alegoria, a vida tem altos e baixos, tal como as ondas. Podem pôr-nos à prova ou propulsionar-nos para diante, mas atenção às águas calmas, não nos podemos deixar distrair dos tubarões que se aproximam pela calada. Como comandar o barco, como navegar pela vida sem vento, sem rumo? Há o risco de remarmos às cegas ou até mesmo nos perguntarmos o que fazemos juntos no mesmo barco. A família tem de ficar unida. Parafraseando o filme: “Os filhos são a melhor razão para vencer as tempestades da vida”. Ser pai faz-nos apreciar os nossos pais e entendermos o porquê de tanta preocupação, de tanto “faz o que te digo”, de tanto ralhete…

Este anime é exímio na retratação das dinâmicas familiares, as relações entre pai e filho, irmãos, entre homem e mulher. Encontra o belo, o cómico, em coisas tão banais como as lutas pelo comando da televisão, quem lava a loiça ou quem vai à rua comprar pão.

A cena mais enternecedora é sem dúvida quando o pai da família pede por telefone que lhe tragam um chapéu de chuva, no regresso do trabalho. Do outro lado da linha, nenhum membro da família lhe apetece sair à rua naquele momento. Furioso grita que não se ralem, que compra um numa loja, ao que a mulher lhe responde: já agora, compra carne de porco. Frustrado, resmunga que nem pensar mas acaba por comprar a tal carne. Já com o chapéu de chuva recém comprado, sentindo-se miserável, avista no fim da rua a família inteira, debaixo de chuva, à espera dele. Sem ser necessário trocar uma palavra, regressam a casa juntos.

Doce e sincero, dá-nos um vislumbre da vida quotidiana da sociedade japonesa dos anos 90. A avó depara-se com a  inevitabilidade de envelhecer e guiar bem a família antes que chegue a sua hora. Noboru debate-se com a pressão da escola e as hormonas da adolescência. A mãe rendida a dona de casa, combate a solidão e a inércia. O pai, o único ganha pão, chega a casa, estafado do trabalho e assistimos como acende um cigarro e por momentos adormece, o cigarro cai-lhe da boca, desperta e a custo descasca uma banana que lhe traz a mulher.

De longe, o melhor capítulo, é quando Takashi tentando fazer o papel de pai e protetor, perde a coragem ao deparar-se com um gang de motoqueiros que está a fazer muito barulho numa área residencial. Mais tarde, depois de ter sido a avó a intervir e finalmente enxotá-los, sentado num baloiço e só, imagina que é um super herói: Motoqueiro Mascarado e que salva a sua família de yakuzas malvados numa perseguição emocionante de película. Triste, cru e belo.

Os capítulos são intercalados com um haiku de Basho, o poeta mais famoso do período Edo no Japão. Um extra que só torna esta obra prima ainda mais especial. Se é a primeira vez que ouvem falar da família Yamada, façam um favor a vocês mesmos e deixem-se preencher pela doçura e a sinceridade crua deste Anime que, não sei como ou porquê, parece ter ficado esquecido no tempo.

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Não sei… mas acredito!

Next Post

E agora Europa?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Read next

Amizade ou conveniência?

Ao longo da vida, conhecemos pessoas que colocamos, desde logo, de lado, e outras que provocam em nós a sensação…