Os alunos acabam o secundário e não sabem escrever

Sem querer parecer uma Velha do Restelo e agoirar as desgraças que nunca acontecerão, sinto que são inúmeras as vezes que lhe visto a pele e uso o chapéu. Não que seja contra a mudança, que até considero benéfica, mas, sim, porque é necessário que a mesma seja feita com as devidas precauções e os ajustes que possam ser benéficos.

A escola continua a ser uma fonte inesgotável de aprendizagem em várias frentes. Primeiro, porque proporciona o conhecimento básico das letras e dos números, aqueles pequenos amigos que nos farão companhia toda a vida e depois é o local mais adequado para se testarem as experiências sociais. Saber viver em comunidade nem sempre se avizinha fácil e a gestão de pequenos conflitos é uma ferramenta que tem sempre extrema utilidade.

As letras conjugam-se de modos elaborados que resultam em sílabas e palavras. Em conjunto com outras tantas fazem um certo sentido e permitem que se entenda o discurso que se pretende passar. Claro que precisam dos auxiliares, a dita pontuação e a coisa arranja-se, mesmo que seja encolhida. É importante fazer grupos de géneros e números para que os singulares não emparelhem com os plurais.

Não se pense que escrever é um acto cruel e que funciona como um castigo. Nada disso. É uma forma criativa de verter alguns sentimentos, de expressar emoções, de fantasiar e, o mais importante de tudo, de fazer sentido. Ler aguça a curiosidade e fomenta a imaginação. É uma espécie de ginásio mental que fortalece o cérebro e cria massa muscular na inteligência.

O que se verifica nos nossos dias é o horror e o ódio à utilização de algo tão primitivo como o passar do pensamento ao papel ou até mesmo às teclas. Quando se convida a escrever, não é uma sentença de morte, mas, sim, um apelo à libertação de algo que possa estar mesmo a precisar de ser solto. Um modo ligeiro e rápido de deixar a marca de alguém.

Tantos anos de pedagogia e parece que não se aprende nada. Os frutos colhidos não estão maduros, mas sim estragados. As inovações não têm surtido o efeito necessário e o que se verifica é que esta geração, a dos que têm mais apetrechos e suposto conhecimento, são analfabetos funcionais. São dotados de uma enorme dificuldade de entendimento.

Se não lhes for explicado tudo, palavra a palavra, continuam a olhar para as palavras como se fossem moscas varejeiras num dia de grande calor. O salutar e benéfico hábito de ler foi-se perdendo e as palavras passam a ser escritas conforme a fonia de quem as pronuncia. Carregadas de erros e de falsos “amigos” com significados que não se coadunam.

Por isso é frequente encontrar algumas supostas opiniões escritas que se tornam impossíveis de descodificar tal é o disparate generalizado. Ausência de pontuação, sobretudos vírgulas, o que dificulta a comunicação. Não se chega a perceber se são questões colocadas ou meras afirmações. Os sinais gráficos foram criados com uma certa função e é para isso que existem. Sem eles o que se deduz é meramente especulativo.

A troca de vogais, entre E e I ou a mudança de O’s pelos U’s é catastrófica. As palavras comprimento e cumprimento são portadoras de sentidos bem dispares. A primeira está relacionada com tamanho e a segunda com uma forma de cortesia. Contudo, quem as lê, escritas sem mais nem menos, pode ficar chocado. Não se mede a mãe do amigo nem se dá os bons dias à peça de tecido a menos que se seja bafejado com um excelente sentido de humor para compor o dislate lido.

Outro erro bastante comum e que demonstra a falta de conhecimento da língua é o uso incorrecto de pequenas palavras, como artigos e preposições. É o caso da mais que badalada expressão: ir de encontro. Vejamos então as hipóteses possíveis. Se se pretender referir que se vai contra a pessoa, que se esbarra nela então está correcto, porque significa chocar, bater em. Caso seja satisfazer alguma condição ou resolver algo, a expressão a usar é ia ao encontro de.

O grave de tudo isto é que se entrou numa época de laxismo, de deixa andar, de não tem importância e os alunos chegam ao fim do ensino básico sem saberem escrever, sem terem noções mínimas da língua nem da gramática. A culpa, se assim se pode dizer, não será só deles, mas morrerá solteira, como sempre. Não há vontade de ensinar nem de aprender e quem se chega à frente para os corrigir acaba por ser vexado e humilhado.

Depois, no ensino secundário a situação torna-se dramática. Qualquer conjunto de quatro ou cinco linhas assemelha-se a um bicho de sete cabeças e o horror e o drama passam a fazer parte do dia a dia. Tudo é hediondo e maquiavélico e os alunos sentem-no como uma questão de ataque pessoal e não como uma ferramenta da máxima utilidade para o futuro de qualquer pessoa. Saber escrever é essencial para a vida.

Não se mude esta forma de estar que as consequências serão dramáticas e nocivas. Certamente que ninguém quer estar numa sociedade de pessoas analfabetas funcionais em que estão todos dependentes de alguém que lhes faça seja o que for. Como poderão interpretar as leis, se olham para as letras como se fossem armas nucleares? O que se passa nestes cérebros?

Devem ser continuamente ginasticados e prontos a serem usados. Não se quebram ao serem trabalhados. Quando mais capacidade desenvolverem mais lucro é para quem o faz. Uma espécie de campeões de fitness cerebral que não se esgota e anseia sempre pelo próximo campeonato. Os troféus guardam-se em locais onde ninguém os poderá saquear nem usurpar.

E escusam de dizer que é enveja, porque eu não sou dessas ceninhas. Eu até sou daquelas pessoas que digo aos outros que comessem a pensar no futuro. O que é fixe é ser Youtuber e ter quem siga aquelas cenas que tão sempre a dar. “Tá-se” bem mano. “Deiam” largas à imaginação, porque “derrepente” as palavras “saiem” cheias de “revelância”.

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